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As beatas tecelãs

 

- Há história a ser contada neste instante, e no que está por vir no porvir?

Sim! Há, e haverá sempre! Pois é na própria sucessão de instantes que a história se faz, assim a ser, logo, ou logo mais, ouça-me, pois uma história entre tantas que há, tenho para lhe contar:

 

Há poucos dias conclui que daqui a muitos anos, se por todos estes eu passar, não passará para fora da minha memória as lembranças que terei, por ter conhecido nos dias de hoje, as cinco beatas.

- Beatas?

Sim! Mas não daquelas que beatificadas foram, e sim das que abraçam, ou antes, das que a contragosto, de braços cruzados, tornam-se flores celibatárias; se é que por inteiro, assim tornam-se todas elas, sem que nenhuma pétala tenha se perdido...

À entrada da casa, as irmãs cultivam rosas brancas, de onde colhem grandes botões que ornamentam a pequena sala de visitas da sua modesta casa. Talvez com este perfumado expediente queiram passar por puras, mal sabendo elas que as rosas quando bem abertas, bem mais perfume exalam...

Todas as irmãs são por natureza, acanhadas, ou por conveniência, dissimuladas; a ser assim, à recepção das escassas pessoas que a sua casa aparecem, impelem-nas a grande curiosidade pelo próximo e a pequena necessidade de se aproximarem desse. Nem todas elas dão as caras às visitas, mas, não mais que duas, entre as cinco, o fazem - quase sempre a Diva e Maria - essa que por todas as irmãs fala, se de uma Diva algo tem, não passa da cor dos olhos, se é que os têm azuis as deusas... A Diva que ao alcance dos nossos olhos está, é reservada, ou antes, dito já fora - é dissimulada - pois para não deixar a inquieta sinceridade à vista, finca o olhar nos olhos do visitante, e destes só o retira para atender a curiosidade que o haverá de levar às outras partes do recém-chegado. Já a Maria, a mais nova de todas as irmãs, tem de sobra a ambição, e creio, não lhe falta a avareza, com efeito, por sua conta, aos visitantes, redobram-se as mesuras...   

Nos dias de hoje, neste ambiente de inquieta ingenuidade, estão presas ao passado, a viver bem as cinco irmãs moças; elas todas, a partir da primeira infância, pelo dom próprio que tivera, cada uma delas por sua vez, ou de vez, por ter prevalecido a ascendência natural e indistinta que tivera a sua mãe sobre as filhas, todas se tornaram tecelãs; assim, entre os fios de lã e de algodão, por longos anos a fio, estão a urdir entre si uma forte trama rematada por um único ponto, qual seja cultivar com todo zelo e carinho o velho ofício, o de tecer.

Para complementar a renda da fraternal família, sob as imposições sazonais, sem nenhum tempo a perder, moem cana de açúcar para fazer a doce rapadura; fazem farinha, farinha de mandioca; em escassa quantidade produzem azeite, azeite de mamona; preparam o açafrão, de cor tirante a forte amarelo, contudo, não o fazem com o estigma dessa flor que a germinar em seu pobre solo delas não poderia estar, mas, ralam e secam os tubérculos do nosso açafrão-da-terra. 

Entre todas, não há nenhuma que tenha menos de sessenta anos de idade, e de setenta, por poucos meses, apenas uma delas passa; a ser assim, se se excluir a influência inata dos caracteres que determinam o individuo, e permitir que fale apenas a pequena diferença de tempo que há entre os anos vividos por cada uma delas, sublinhada não haverá de ser a diferença em seu comportamento - o comportamento de cada uma das irmãs - logo, em nenhum momento, cada uma delas soube haver-se com os números ordinais, quais sejam aqueles que impõem ordem de prioridade, ou seja, o primeiro, o segundo, o próximo, finalmente, o último... Tanto isto é verdade, que de forma distinta e individualizada, assim denominam os quatro quadros de liços que compõem os seus teares:

 

O de fora de lá.

  O do meio de lá.

O do meio de cá.

  O de fora de cá.

 


PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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