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Discutir gosto causa dissabor...


Há pouco tempo, comprei um sítio, uma propriedade rural; há anos, fora formada por outras mãos. Foi assim que estas mesmas mãos plantaram várias mangueiras, laranjeiras e goiabeiras, e entre as outras muitas “eiras”, havia guarirobas,* e eram muitas, de todos os portes e idades. Tantas árvores juntas se compunham em uma grande família, ou antes, formavam um grande povo. Penso que tão grande população de indivíduos, com sobra, oferecera-se ao comércio local, e com as sobras, chegaram aos distantes compradores. Vendiam-se frutas várias e cocos, e das guarirobas, o caule tenro em forma de palmito, ainda que muito amargoso, sempre tivera boa aceitação...

Meu encanto com aquele recanto de terra era enorme; meus planos com sonhos meus misturavam-se. Tão logo tomei posse, pus mãos à obra: demoli, reformei, ampliei e construí; por ignorância, ou por pressa, o que mais certo fora, toquei fogo, com efeito, um bom tanto depredei.

Passados os dias, fui conciliando minha natureza humana com a outra maior - a mãe natureza, a mais prudente - meu entusiasmo preservei, porém, fui dispondo-me a discipliná-lo.

Os amigos vieram, e eram muitos, quase todos só do regalo; quase todos regalados ficavam a esvaziar pratos, por duas ou mais vezes, para encher o estômago, e a encher copos, por vezes incontáveis, para esvaziar a mente; em pagamento pela boa estada, pagavam-me com suas opiniões, e eram muitas! Eu escutava todas, e acatava algumas, ou até digo melhor: pelo meio ouvia alguns palpites e pela metade dava-lhes alguma atenção; assim, a agir, continuei por um bom tempo, forçado pela paciência imposta pelo contentamento...

Certo dia, recebi um amigo que se fazia sempre acompanhado por uma boca enorme, mas, não se separava de um coração que menor não era... Ao dar à boca do amigo o adjetivo enorme, o fiz menos pelo seu rasgo, e mais pela sua disposição ao mastigar... A ser assim, em minha casa, ao recebê-lo sempre, pelo seu grande coração eu tolerava bem o glutão... Naquele dia, quis ele beber leite de cabra, quis comer folhas, frango, ovos, laranja dividida em quatro partes com bagaço e tudo; e outras coisas mais quis comer... Quando pensei, que o amigo não poderia mais se fartar, entendeu ele não de degustar, mas, saborear guariroba; foi então que eu comi, ou antes, pela primeira vez, experimentei aquele palmito muito amargo; experimentei, para nunca mais provar...

Meu amigo a mastigar, de muito bom grado aquela intragável iguaria, fez com que eu fosse pensando; por tanta força que usei para não pensar o que não devia, houve sobra para inclinar minha língua ao falar:

Pode alguém pode aguentar uma coisa dessas? Que dessabor tem esta “madeira”!

Vai aqui um parêntese, mas antes, vem uma justificativa para o mesmo:

““A abrir parênteses, muita vez, quebra-se o texto que carece de reparo, para tanto fazer, subestima-se o raciocínio de outrem, ou remenda-se o nosso próprio que puído fora, a ser assim, sob esta ou essa justificativa, aqui abrirei um deles, e não o farei pela primeira vez, pois vezes por outra, o fizera antes; logo, se necessário for, para conservar o hábito velho, de novo, em algures, fá-lo-ei; pois bem, sem constrangimento, tolere estes que se seguem, pois o faço por minha conta, logo, logo, ou desde já, estou a remendar o meu próprio raciocínio que fora trincado” 

         Vamos ao parêntese:

         (tão logo meus próprios dentes, adquiri, adquiri o gosto ao pequi**)

         - Se bem entendo este seu gosto por pequi, respondeu-me o amigo, espero que você, bem compreenda o meu, que diferente do seu é.

Se não comi da guariroba, também não consegui saborear a comparação; então, engoli a pergunta; mas, só para mim, completei minha reflexão:

“Como alguém pode aguentar uma coisa dessas e ainda compará-la com o delicioso Pequi?”

O certo é que depois de tanto comer, meu amigo, com a alma vazia de amargura, foi descansar a barriga cheia de palmito amargo.

No outro dia pela manhã, teve vontade de ir embora e de ficar, mas, foi...  Alguns toletes de guariroba não foram atrás, partiram juntos, por pouco, não saíram à frente dele...

Alguns meses passados fui visitá-lo; aguardando-me, não deixou de encomendar-me os palmitos de guariroba; foi insistente - Quero-as sem falta... Disse-me repetidas vezes:

- Traga-me pelo menos umas três guarirobas, não vá esquecê-las; você sabe, delas, eu gosto muito!

Quando cheguei, meu amigo logo percebeu que as guarirobas não me acompanhavam, então, à mesa, pus-me a dar justificativas:

É, lá no sítio, eu tenho muitas e muitas dessas tais guarirobas; não teria trabalho nenhum para cortar até dúzias e mais dúzias; mas não consigo entender como pode uma pessoa comer um palmito tão amargoso? 

Naquele dia, meu amigo preparara-me o saboroso pequi com arroz. Neste dia, ele pouco comeu, ou antes, quase nada almoçou, ficou muito amargurado...

No outro dia pela manhã, tive vontade de ir embora e de ficar, mas fui...

Hoje, meu amigo não é outro, e sempre que pode, traz-me alguns pequis...

 

* - Syagrus oleracea - Palmeira nativa do Brasil. Entre seus produtos destaca-se o palmito ou broto terminal. Considerado por muitos como verdura de sabor amargo, o que de fato é quando comparado aos palmitos doces das espécies da Mata Atlântica, o palmito da guariroba é uma iguaria de largo aproveitamento culinário em alguns estados, inclusive algumas regiões de Goiás e Minas Gerais.

 

** - Caryocar brasiliense - Essa árvore produz um fruto também chamado pequi que é muito estimado como iguaria; usa-se também na fabricação de licor.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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