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À mesa de um grande banquete,

 

À mesa de um grande banquete, todos, em instantes, estariam postados, pois, a mesa posta fora com larga antecedência. Tudo haveria de estar irrepreensível: a baixela inglesa, a porcelana chinesa, os cristais da boêmia; tudo impecavelmente disposto sobre a toalha de linho egípcio estava.

Entre os convidados seletos e nobres, um ou outro poderia não fazer jus a tais adjetivos, ainda que todos fossem senhores do luxo e escravos da etiqueta.

Enquanto a prataria, os talheres e o aparelho de chá mastigavam, sem pressa, o tédio da espera, uma das chávenas voltando-se ao seu par - o pires - disse-lhe:

- Hoje, mais uma vez, participarei de um grande banquete; creio que servirei aos lábios da embaixatriz, pois você e eu estaremos à direita da cabeceira desta mesa; portanto, em seu lugar, ponha-se, e ponha em seguida, em sua mente, as seguintes recomendações que lhe faço:

- Entre os nobres convivas que vou servir, a nobreza deles se distingue sobremaneira; pelo comedimento que lhe falta, o que não me causa surpresa, pois desta e de tantas outras virtudes falto foi sempre você; ainda assim, comedido de forma exemplar, exijo que seja, logo, fique no seu devido lugar; mantenha-se afastado do colo da embaixatriz; não se dirija a mim; tão somente limite-se, de apoio, a me servir, pois servir bem à Sua Excelência é o meu desejo, e desejar acatar as minhas ordens é a sua única obrigação. 

E continuou a chávena:

- Mais atenção tenha quando lhe solicitar ajuda, especialmente, quando lhe pedir que colha alguma gota de chá que a escorrer da minha borda, poderá estar; faça-o de muito bom grado e não com menos delicadeza, pois não suportarei desagrados seus. O mais você já sabe! Você é o meu criado; e pela sua posição, que aos meus pés se encontra, sua função assemelha-se ao ofício dos capachos...

Diante de todos, corou-se o pires; nada encontrou para falar, ou antes, com a voz saindo-lhe um tanto abafada, balbuciou alguma resposta, pois, sob o jugo da chávena se encontrava, quando não, sob o seu domínio, dela, até sua própria voz dele, perderia a força.

Chegada a hora do jantar, todos os convidados a ocupar seus lugares, reservaram a cabeceira da mesa ao embaixador, e à sua direita, ficaria mesmo a sua esposa. A embaixatriz contentou-se em ficar à direita do esposo, entretanto, muito preferiria estar ao centro da mesa, pois ali melhor cumpriria a função que o título lhe outorgava, ou seja, exercer a diplomacia entre os pratos finos de nacionalidades diversas. 

 Pelos corredores diplomáticos, ainda que de forma velada, comenta-se que a embaixatriz era a legítima representante da culinária de um país de grande peso, que se chamava “República Liberalista da Glutônia”.

 À frente do primeiro prato servido como entrada, ou antes, tão logo serviram o primeiro “líquido” que de chávena haveria de depender, a embaixatriz rapidamente, a dispensou, pois, à insossa iguaria, apenas provada, haveria de nenhum espaço do seu amplo estômago conceder, ainda que de todo desocupado estivesse este. E a seu favor - a favor do estômago - ela deu maior liberdade aos seus próprios dedos, livrando-os de seus vários anéis e até de sua aliança; para tanto, confiou ao pires a nobre tarefa de ser o guardião de suas valiosas joias.

 A chávena, alva por natureza, ainda assim, tornou-se pálida pela desfeita; mais embaraçada ficou, ao notar que rubra estava a sua borda pelo batom que nos lábios da embaixatriz, ora borrado estava; assim, despedindo-se do banquete, ou melhor dizendo, do banquete, destituída de suas funções que fora, a  chávena  foi recolhida por uma das copeiras e metida numa pia atulhada de vasilhames sujos. A distinta louça, sob protestos, bem acolhida foi por uma das muitas conchas que talhada para tal ofício, já nascera; não bastasse tanto constrangimento, para maior desespero da desesperada chávena, afogados no espesso líquido gorduroso, à sua espera, muitos garfos havia; todos muito afiados e afinados não menos estavam para o exercício de espetar.

 

PS - “Por tanto dar vida aos inanimados seres, ser indiferente a um ente amassado não mais consigo ser, pois o vejo ferido; diante doutro quebrado, noto sua fratura; ao sentir a ausência de um terceiro, lamento por sua morte...”.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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