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Não conte as estrelas!

 Eugene Grael

Não concebi esta metáfora! É uma pena! Pois, tão somente, pela minha pena, aqui ela chegou... a ser assim, posso declarar: é uma das mais lindas páginas que já li...

 

À beira de um longo caminho, da sua longa jornada, descansava um ancião, quando lhe quebrou o repouso, ao se aproximar, um jovem que a caminhar também estava.  Disse-lhe, ou antes, pediu-lhe a seguinte informação, o caminhante que chegara recém:

- Se o senhor conhece esta estrada, pode me dizer se é longa, e se distante do seu final, estamos?

Respondeu-lhe o ancião:

- Sim! Bem conheço esta grande estrada de terra batida, que a nossa frente, se desdobra; haverá de ver, quem por ela passar, que quase não se curva; mantém o seu esguio dorso inflexível, apresenta-se ao viajante, como se fosse uma enorme serpente, arrastando-se em busca do horizonte. Bem à frente, bifurca-se, quando então, por assim dizer, continua a mesma, porém, ao meio dividida, continua em busca da sua razão de ser que dividida não haverá de ficar...

- Continuando o jovem, disse:

- Há dias que ando por esta estrada; há anos que caminho por esta vida; uma e outra, só dissabores têm me dado.

Por isto ter ouvido, com maior atenção, desejou mais escutar do jovem, o velho caminhante:

- Faça-me companhia, caminhemos juntos. A solidão, que sempre me ofereceu o seu vazio consolo, não mais quero que ao meu lado, continue!

- Se tão desanimado está, disse o ancião, que ânimo neste áspero sítio, está a buscar?

- Busco a razão de ser eu o que sou; busco a razão de estar eu, onde estou; enfim, busco a razão para o ocaso dos meus dias, que virá...

Por grande admiração por tantas buscas para um só jovem, o velho disse-lhe:

- Se à frente, tem a buscar muito, pouco tempo terá para companhias, entretanto, dou-lhe um conselho, se você acatá-lo, este lhe servirá de alento para sempre:

- Vá! Vá até ao fim desta estrada, ou antes, até ao ponto onde ela se divide; antes mesmo de lá chegar, estarão todas as suas dúvidas dirimidas; em seguida, não por muito tempo, haverá de aguardar-me, pois, lá também chegarei. Por aqui, devo ficar um pouco mais; mais um pouco de descanso preciso ter...

Despediram-se os dois andarilhos. Foi pela estrada fora, sua nova desconhecida, o jovem; ficou à beira da estrada, sua velha conhecida, o ancião.

Após bons dias de marcha forçada, quando já as pernas do jovem bambeavam-lhe o ânimo, e já desanimado do dia, se encontrava o sol, chegou o jovem ao fim daquela grande estrada, ou antes, ao ponto em que dois novos caminhos iniciavam-se pelo término do velho... 

Por tão grande cansaço, pelo menos, um pouco de descanso, queria ter o jovem andarilho, enquanto aguardava o velho chegar. Envolvido pelo silêncio da noite, tendo o céu como teto cintilante, convidado a contar as suas trêmulas sentinelas, o jovem assim começou: Uma... Duas... Três... Quatro... Dez... Quinze... Vinte e... O sono por grande experiência que tem em só chegar no momento certo, veio chegando bem aos poucos... Bem devagar... Bem devagar... Pisando de mansinho... De mansinho... Suavemente, a última estrela contada pelo jovem viajante, fechou-lhe os lábios, antes mesmo que fechados estivessem seus olhos; assim, ele adormeceu, e só foi acordar, quando o sol se despertou, e as estrelas foram repousar.

Agora sob o céu, não digo limpo, pois sujo não estivera, mas, sob o céu que dispensara todas as suas nuvens, para, à vontade, banhar-se de um azul anil, aguardava o jovem a chegada do velho.

Quando a noite se aproximava, aproximou-se o velho andarilho. O jovem admirado por tamanha demora, logo perguntou, ou antes, logo disse:

- Tomou muito tempo pela estrada, pensei que não mais viesse! E continuou:

- Cheguei ontem, aqui passei a noite, quase outra já está a se aproximar. Mais dissabores acumulei, com esta jornada; minhas dúvidas acompanharam-me, elucidada não há nenhuma; logo, pergunto-lhe: que alento dera-me, que presente não se fez, ao meu lado? 

O experiente e velho andarilho que nem um pouco cansado estava, respondeu-lhe:

- Já lhe disse antes, bem conheço esta grande estrada, assim, para aqui chegar, a partir do ponto em que nos encontramos antes, não menos que dez dias gastei; você desconhecendo-a inteiramente, consumiu um dia a menos do que eu, para cobrir o mesmo trajeto; assim foi! Logo, dou-lhe um novo alento:

- Não se preocupe em demasia com as estradas; sendo novas ou velhas, apenas nos indicam a direção que devemos seguir; para tanto, ao meio, dividem o território que buscamos conhecer, assim, para um lado e outro, por desejo próprio, podemos olhar... Contudo, maior atenção dê às estradas novas, pois ao novo, elas nos conduzem, e o novo só terá valor, se em velho puder se tornar... Mas fique também, atento com as estradas velhas, pois, por velhas que são, hão de ser mais escavadas, assim, podem nos impedir de ver o novo.

Agora, com mais prudência, volte ao nosso ponto de partida; reinicie esta mesma jornada; deixe que a estrada acolha os seus pés; passos contados não devem dar; busque com seus olhos o cheiro da verde relva que circunda as suas margens; sinta o cantar dos pássaros que sem presa, por ela estão a cruzar; tome a água fresca que de tantas nascentes brotam, para fazer brotar tantos perfumes que você haverá de ver... E quando novamente aqui chegar, sob o teto cintilante que haverá de lhe envolver, não conte as estrelas, conte apenas e sempre com seu fulgor delas, pois se infinitas não bastassem ser, infinitos brilhos há de não menor número delas, que já não mais existem... Ao amanhecer, tome uma das novas estradas, a da direita, ou a da esquerda; a sua escolha nenhuma importância terá, pois, ainda que pareçam desiguais, uma ou outra, ao seu ocaso, lhe conduzirá... Entretanto, diferente e renovado ficará este velho caminho, quando por ele você passar a deixar as suas pegadas...

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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