E você, conta as estrelas?

 

Um velho beduíno, a viver nos ressequidos dias de hoje, em algum distante dia, que no árido deserto se perdeu, nascera; e por tanto tempo já passado, após ter ele visto a luz do sol pela primeira vez, perderam-se também, na imensidão da areia, até os seus sonhos que realizados foram... Assim, nem mesmo do passado vivia este ancião, pois, o vento sobre as dunas, ou antes, o vento, às ordens das dunas, tudo fez para que se lhe apagassem as pegadas da juventude, ainda que algumas poucas destas, deixadas na imensidão daquela infértil terra, suficientes foram à segurança das rotas de travessia, por ele traçadas... 

Agora, durante os longos e quentes dias, sob o sol, julgando que nada mais teria para fazer na terra, foi o decrépito beduíno, desesperando-se do mar, do mar de areia seca, que lhe secara as esperanças... Assim, buscando calor para o seu próprio ânimo, entendeu de esperar a chegada das frias noites, quando então, haveria de encontrar no céu, ou antes, no mar de estrelas, algum alento, que pelos menos, lhe aquecesse a alma, ou tão somente, revivesse a sua esperança de novamente poder revê-las - as estrelas - na noite seguinte.

O velho homem, por desilusões outras que tinha, não mais se deixava iludir pelo sono, que, muita vez, nos promete bons sonhos, para nem sempre, nos despertar suavemente, enquanto, a esperar por um novo dia, adormecidos permanecemos... Sua insônia era atroz, não lhe dava descanso; assim, durante as frias e longas noites, sob miríades de estrelas, o velho beduíno entendeu de perscrutar o seu mundo - o mundo das estrelas - Assim, pôs-se a contá-las, ou melhor dizendo, se dispôs a contá-las. Logo de início, grande dificuldade, por pouco não lhe quebrou o desejo de arrostar tão grande empreitada; pois, por vez, após identificar algumas tantas estrelas, para em seguida, contá-las com a segurança de não ter que recontá-las por engano, não podia contar em revê-las na noite seguinte... Esta dúvida corroia-lhe a sua já desgastada e contínua faina de continuar a ser... Pois, por pouco enxergar, ou por muito já não crer em seus próprios olhos, mais angustiado ficava... Não demorou muitos dias, ou antes, poucas noites foram suficientes para o velho beduíno concluir, que o número de estrelas caminha para o infinito, quando não, dele ultrapassa...

Não sendo, entre si, as noites muito iguais, ainda assim, com efeito, houve entre todas, uma que menos diferente não fora; logo, por assim ter sido, um diferente ânimo novo, ao velho beduíno trouxe:

Três jovens irmãos e amantes das noites velhas, ou antes, amantes dos passeios até às horas mortas, surpreenderam-no a questionar o mundo das estrelas.

Disse-lhe um deles:

- O que faz o senhor aqui, até a estas horas?

Respondendo-lhe o ancião, disse-lhe:

- Estou a contar as estrelas; muitas já contei; contar com a benevolência de alguma, penso que posso, pois, há algum tempo, a elas, fiz um único pedido...

- Se o senhor disse que conta as estrelas, quantas estrelas há? Quis saber o segundo jovem.

Sem dar resposta a este, ou a ignorar-lhe a pergunta, indagou ao primeiro jovem, o velho:

- E você, conta as estrelas?

Antes que este lhe respondesse, insistiu o segundo jovem, a cobrar-lhe a resposta pela interrogação que fizera:

- Diga-me! Depois de tantos anos vividos sobre a terra, o senhor pensa que terá tempo para contar as estrelas? Se pensa que sim, responda-me: quantas estrela há no céu?

A responder a este jovem, disse o velho:

- Quantas há, não sei, mas, mais que infinitas são; sei também que se considerarmos a infinitude do universo, algumas, quando não, um número infinito delas, não passam de insignificantes e acesos corpúsculos puntiformes.

Neste momento, o jovem - o segundo - entendeu de ficar calado por não entender a resposta do velho, ou para pensar em outra indagação, mais pertinente ao saber daquela velha criatura.

- Tenho uma grande manada de ovelhas; ando sempre com pressa; para divagar, em consequência, não tenho tempo; o tempo que tenho, reservo para contar os meus animais, assim, não me envolvo com outro rebanho, ainda que mais numeroso seja, ao meu alcance não está... Esta foi a resposta do primeiro jovem.

Até aquele momento, o terceiro jovem que nada dissera, disse:

- Eu também conto as estrelas! Delas, posso contar muitas coisas!

Por muito bem ter ouvido este seu irmão, que de pouca conversa sempre fora, voltou o segundo jovem a dizer, ou antes, a interpelar o ancião:

- Depois de tanto dias a andar pelo mundo, quis o senhor encerrá-los aqui na terra, a contar estrelas? Com efeito, depois de tanto esforço, quase que inválido, apenas concluiu o que nós os jovens concluímos, ou seja: “As estrelas são incontáveis, e por estarem à longa distância dos nossos olhos, se mostram como que pequeninos pontos luminosos”.

- Não! Não só isto concluí! Respondeu o velho beduíno, e continuou:

- Sei também que entre todas as estrelas, tantas há que ao alcance das nossas mãos, se pudéssemos alcançá-las, já não mais estão, pois vivas, podem não estar; tudo que delas vemos, são suas luzes que continuam a nos alcançar. Por assim entender, tornei-me mais feliz, pois, julgo que quando vida não mais tiver, ainda que não o queiram os ventos, alguns dos meus rastros nas areias do deserto, podem ficar...

 

Por mais uma vez, o jovem por deixar de entender o que dissera o velho, agora, ouviu de seu irmão - o primeiro que falara - as seguintes palavras:

- Que Allah nos guarde! Já vem nosso irmão com as suas histórias de estrelas, que são capazes de fazer dormir uma cáfila inteira.

Espantadíssimo por tanto contentamento quer teve, disse o velho:

- Ah! As estrelas ouviram-me! Meu pedido, finalmente, foi atendido; da minha tenaz insônia me livrarei, ao ouvir as histórias que este jovem tem para me contar...

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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