Meus cães de Gnaisse*

 

À porta de entrada da minha casa, que saída à rua dá, encontram-se, sobre duas colunas, meus dois cães; são de pedra – de pedra Gnaisse – a ser assim, pétrea haverá de ser a fidelidade que esses meus fieis amigos, devotam a mim. O escultor que os concebera, tão somente, dispôs de um cinzel e de um maço, para torná-los semelhantes entre si, quando não, idênticos, todavia, só depois que os entregou à luz, melhor esse artífice pode vê-los tão afins entre si, logo, sob tão grande par de perfeições artísticas, o seu próprio genitor não mais conseguiu ver neles dois indivíduos, ainda que muito desejasse identificar o seu primogênito;assim, para mais consolidar o seu êxito, por tê-los concebido em formas estritamente análogas, quis batizá-los com os nomes, White e Branco; tais nomes não seriam mais adequados, pois tão logo que o Branco recebeu seu nome, o outro – o outro cão – só se contentou, quando seu genitor lhe dera  White, por nome próprio, portanto, por tanto desejar vê-los distintos um do outro, se alguém quisesse encontrar, ainda que fosse muito grande o seu querer, sequer uma mínima diferença que pudesse separar um do outro, não encontraria. A dificuldade para descobrir quem era quem, quando lado a lado se postavam essas duas criaturas, não foi menor que o capricho e gosto que têm dois cachorros disputando um mesmo osso.

A rua onde está a minha casa é larga e plana, assim, bem se presta à infestação de carros e motos desnorteados, logo, logo, ou antes, às noites altas, são reservadas, vez por outra, às exibições inconsequentes, quando então, os de quatro rodas dispensam duas, e os de duas, como que loucos, a se mover, usam apenas uma; ainda assim, ao dia seguinte, deixam espaço um tanto íntegro à caminhada para muitas pessoas que de vez em onde, em dois pés, como se quatro tivessem, não caminham consequentes...

Conforme já dissera, à porta da minha casa, há a montar guarda os meus fieis guardas – os meus cães de Gnaisse – ocupam-se em me resguardar daqueles que sem convite, querem se adentrar pelo meu espaço, e daqueles que pensam poder esquadrinhar o meu mundo; com essa ou aquela intenção, tanto àqueles que querem, ou àqueles que pensam, meus cães não dão confiança, pois confiam em poucos, ou até em menos...

Entre algumas pessoas, que à rua da minha casa vão a dar algum trabalho às pernas em benefício ao coração, e toda liberdade à língua em detrimento à vida alheia, há ladrões; por tantos que há, o ladrar para denunciá-los, não consome mais tempo dos meus cachorros.

Por muito perceber quão indistintos são meus cães entre si, nem um pouco, esperaria eu ver cada um deles, ver de forma indistinta, duas diferentes pessoas; contudo, a contrariar-me estão eles, pois dá-se uma situação inversa, qual seja cada um desses meus adoráveis animais, tem olhar diferente a cada pessoa ímpar, logo, diferentes são eles entre si, com efeito, essa singular postura, não permite, diante de alguns movimentos delas – das pessoas – que seus olhos deles – dos meus cães - fiquem, por inteiro, indiferentes aos entes humanos, contudo, muita vez, com muita facilidade, conseguem desprezá-los, pois prezá-los por presas jamais conseguiriam, por tão indigesta que é a sua carne... ainda assim, por tantos músculos em movimento que vêem meus cães, no caminhar das pessoas, movimento para as suas mandíbulas deles, desejam dar; mas, para o bem de todos, não se mantêm hirtas, somente, as bocas dos transeuntes...

Do alto de suas torres – as dos meus cachorros – ao vento, que para ser digno de ser, em movimento deve estar; ou a esperar que se aquiete o ar; ou sob o calor; ou envoltos pelo frio; ou ainda, debaixo de chuva, e mais ainda, expostos à seca, entre eles – entre os meus cães – o assunto é constante e diverso, contudo, não deixa de ser invariável, pois, protestam contra a obesidade que sempre se vê; enaltecem a magreza que escassa está a se tornar; condenam a gula; elaboram dietas; mofam dos tornozelos; elogiam joelhos; julgam as cabeças humanas, pelos seus dois pés, ou antes, pelo caminhar desses, julgam aquelas que escolhem as trilhas àqueles... Amiúde, afligem-se meus cães pelo faro que têm, por tantos flatos que detêm, visto que, de baixo a cima, ou antes, para todos os lados, são os odores capazes de alcançar todos os ares; esses, por sua vez, alcançam o apurado olfato canino...

Não só más visões despertam os meus cães; uma vez que, vez por outra, entre as más, as boas estão a ser suscitadas pelos seus não tão perfeitos semelhantes, que a caminhar ao lado de seus donos estão, ainda que contrafeitos... 

Às mãos de outros “viventes”, esta faina de cães de pedra seria enfadonha, contudo, às patas dos meus cães, jamais poderia sê-lo, pois se o fosse, por uma danosa consequência padeceriam eles, qual seja seriam expostos a um sofrimento eterno, visto que quase eternos são eles, pois, a sua matéria prima – as pedras – são testemunhas oculares da história desde o nascimento dos inanimados entes; por ser assim, assim tiveram meus cachorros a sua origem: a lava vulcânica que originou a rocha que os originou, quando ainda presa nas entranhas da terra, a querer ver o calor do sol, ao se derramar na superfície daquela que a prendia, aprisionou em sua garganta incandescente, para alimento próprio, o ar; então, o vento, desejando resgatar seu irmão menor, começou o seu lento e eterno trabalho de corroer aqueles blocos malconformados; a rocha, bem querendo aquele afago, ainda assim, não o desejou logo, pois, preocupar com o tempo, não deveria, pois bem sabia ela: quando o vento chegava, por ele, ela estava esperando, quando ele partia, ela ficava tranquila; pois, brevemente, ele haveria de voltar...

A ser assim, por serem meus cães perenes, perecer em qualquer uma das próximas estações, ou até durante este verão, verão eles um ou mais dos entes vivos, que à porta da minha casa passam...

 

* - Gnaisse - Rocha metamórfica feldspática, nitidamente cristalina, e de composição mineralógica muito variável.

  

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua leitura; se os seus olhos alcançarem mais textos meus, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei do seu olhar.

 

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