A sexualidade humana

 

Nos dias de hoje, mais do que em quaisquer outros do pretérito, e que seja menos do que aqueles que estão por vir no porvir, a inversão dos valores – valores absolutos que perenes hão de ser a sustentarem a humanidade – tornou-se muito “valorosa” em detrimento dessa humanidade; assim, quem sucesso alcança mais, menos valor a esses valores haverá de dar.

Muitíssimo do corpo fala-se, ou seja, entre as falas, o somático tem uma distinção nunca antes vista, que se expressa em três caracteres, quais sejam a beleza física, o desempenho atlético, e a atividade sexual; entretanto, há, certamente, algo de positivo ao se cultivar esses caracteres, pois além do seu valor por si, trata-se de uma reparação justa e necessária do ponto de vista platônico, maniqueísta e cartesiano que a sufocar a dimensão corpórea, maior destaque dera à alma, ao pensamento, e à razão; entretanto, essa mesma reparação, a perder o seu objetivo, ou a ganhar ilimitada dimensão, tornou-se uma distorção não menos grave e danosa que aquela precedente que dera causa a essa. Quando disse: “não menos grave e danosa”, pensara antes: “infinitamente pior, pois a visão espiritualista cometera o erro grave de identificar o homem tão somente pela alma, porém, a visão míope, materialista e sensista dos dias de hoje, comete o erro gravíssimo ao identificar o homem pelo corpo.” Com esta idolatria voltada ao corpo que se tornou a tônica da cultura atual, os entes humanos grande ónus estamos a pagar ao apagar do mundo, com a “morte de Deus”, os últimos rastros do espírito; assim, bem estamos cumprindo a funesta predição do profeta da “morte de Deus”, Zωροάστρης* – 0 contemplador de astros – quando disse: “Corpo eu sou, em tudo e por tudo e nada mais”. Assim, o corpo se tornou o paradigma usado para se fazer a distinção entre humano daquilo que não o é; portanto, é ele, o corpo nosso, o nosso fundamento da ética, logo, o que o contenta e o ajuda é bom, e é mau tudo aquilo que, de algum modo, o contraria, ou o mortifica.

Sendo a sexualidade um valor nobilíssimo e estando intimamente ligado ao corpo que menor valor não haverá de ter, façamos a seguinte consideração:

O homem somos naturalmente sexuados, isto é, a um dos dois gêneros dimórficos pertencemos, ao feminino, ou, ao masculino; esses gêneros, distintamente, nos dão as conformações orgânicas particulares que permitem a segura diferenciação entre quem é homem e quem é mulher, atribuindo-lhes um papel específico e primeiro à reprodução, ou seja, à mulher e ao homem está de forma necessária, imposto o compromisso que lhes leva à perpetuação da sua própria espécie; entretanto, há duas outras funções essenciais da sexualidade quais sejam a hedonista e a personalizante.

Permita-me você leitor que eu deixe aqui, pois se faz necessário, a definição sucinta de hedonismo na acepção que nos interessa, pois esta, se se desviar da sua origem, por consequência, ferirá o objetivo deste texto:

Hedonismo na sua forma inicial, quando lá na Grécia surgira pelas mãos de Aristipo de Cirene e Epicuro, quisera sustentar que o prazer é o supremo bem da vida humana. Não entremos no mérito dessa doutrina filosófica, contudo, podemos afirmar: não há prazer orgânico maior que suplante o do orgasmo, ainda que muito fugaz seja ele; contudo, por si, invariavelmente, não deixará de ser consequente.

À simples vista desse último parágrafo – o está antes daquele “À” – podemos afirmar que a sexualidade tem mesmo esta função de nos conduzir a uma sensação extrema de prazer.

O simples encontro entre duas pessoas de sexos opostos poderá despertar um senso de curiosidade, de interesse, e de prazer que não se percebe quando ocorrido entre pessoas do mesmo sexo. Evidentemente, que o intensidade máxima puramente orgânica, desse prazer – o orgasmo – se consome ao consumar o ato sexual que a gerou. Através deste ato e em consequência, ainda que não seja nosso intento, poderemos perpetuar nossa própria espécie. Foi para esta circunstância que a natureza previu este grau de prazer tão singular e de intensidade suprema; se tal recurso natural não houvesse, não estaríamos inclinados ao acasalamento, o que adviria em detrimento da perenidade da nossa própria espécie; portanto, esse prazer em si, não arrasta nada de negativo ou perverso, mesmo sendo acompanhado, muita vez, de uma passionalidade dificilmente controlável.

A outra função da sexualidade, a terceira, e última é a personalizante, que não é menos importante que as duas outras, e, com efeito, menor nobreza não haverá de ter.

Cada um de nós, quando nascemos tão somente somos projetos de entes humanos que, simultaneamente ao próprio momento em que à luz somos dados, entramos em execução; para tanto, já de início, nos tornamos dependentes da solidariedade e ajuda de outrem (inicialmente, as da nossa mãe, as do nosso pai, as dos nossos irmãos, as dos nossos parentes, finalmente, as de quaisquer outras pessoas com quem poderemos contar durante esse transe inicial de nossas vidas); assim vamos crescendo... E em dado momento de nossas vidas, nos é dado, quase sempre, o ensejo para encontrarmos uma pessoa do sexo oposto que nos desperte a um especial interesse; e quase sempre, a essa pessoa nos unimos (pessoalmente, penso que tal união deve se dar necessária e invariavelmente, através do matrimônio). Aí sim! Nada melhor haverá para a consecução desse nosso projeto-homem (evidentemente, que me refiro com a mesma ênfase, ao projeto-mulher). Assim, neste momento, nosso cônjuge nos dará a atenção, a compreensão, e nos despertará confiança, enfim, nos dará o amor incondicional e o fará de forma ímpar, pois, com ele – com o nosso cônjuge – dividiremos uma sexualidade que pode nos edificar de forma singular. Apreendemos e deixemos incrustada em nossa mente, a seguinte verdade: “os cônjuges para colherem os frutos da personalização mútua fundada na sexualidade, carecem de tempo, pois se exige deles, comunhão não só de corpos, mas, sobretudo, e especialmente, de almas.”

Podemos concluir que o ato sexual que é a expressão maior da nossa sexualidade haverá de se apoiar no mínimo em duas bases das três dessa mesma sexualidade, senão, vejamos:

Quando nosso intento é a procriação, vivenciamos os três caracteres da sexualidade, ou seja, o caráter reprodutivo, o hedonista, e, sobretudo, o personalizante. Nota-se que nessa circunstância, essas três funções são inseparáveis quanto ao dito intento, porém interdependentes quanto aos seus efeitos. 

Quando em situações até comuns, buscamos simplesmente o prazer no ato sexual, não podemos, ou antes, não devemos deixá-lo de se fazer acompanhado pelo caráter personalizante desse mesmo ato, pois, a conjunção desse caráter ao ato sexual, haverá de servir de base para que esse ato não se esvaia na sua própria fugacidade.

Finalmente, podemos concluir que se se expressar a sexualidade humana apenas através de seu caráter hedonista, inevitavelmente, ocorrerá o seguinte: ela tornar-se-á vazia ainda que prazerosa, pois tão somente atenderá aos anseios do corpo.

Diante do exposto acima, consideremos a leitura de um texto acompanhado do adjetivo “erótico” e façamos algumas interrogações, mas, antes, saibamos que “há textos que apenas terão isso dos seus autores - o “título” - alguns nem tanto” **. Já feita essa advertência, caminhemos às perguntas:

Os textos eróticos, ou quaisquer outros meios que nos chamem a atenção com igual natureza nos induzem à procriação?

– Não!

Inclinam-nos à personalização do nosso parceiro?

– Não!

Então, qual a finalidade que neles – nos textos eróticos – poderemos alcançar?

– Se formos capazes, indiscutivelmente, poderemos notar e até nos encantar com o caráter plástico literário desses textos, ou daqueles outros meios que se equivalham em “valor” a eles, mas, o que mais habitualmente ocorre, é sermos estimulados para a busca do prazer sexual puramente hedonista, e como tal, dito já fora, é um gáudio por excelência fugaz e sublime, porém, perpetuamente vazio.

Diante deste texto, para atenuar críticas maiores que inevitavelmente virão, deixo aqui a minha definição, ou melhor dizendo, para não estar só, pois só, seria muito difícil sustentar a bendita definição que outras tantas pessoas dividem comigo, sobre matrimônio:

“Matrimôniohaverá de ser entre dois entes humanos de distintos sexos, um nexo, ou seja, haverá de ser uma conexão estabelecida entre duas pessoas de SEXOS OPOSTOS, que de tão profunda, envolverá até suas almas. Comunhão tão ímpar, misteriosamente, preserva a individualidade dos cônjuges, ainda que os torne um só corpo. Para que tal singular fenômeno se dê, haverá de se fundar em um preceito necessário, indispensável, e suficiente, qual seja o AMOR INCONDICIONAL”

Neste texto, a custo, evitei, ainda que muito se fizesse necessário, falar de Deus, causa primeira de tudo, que tudo pode pôr a perder, se nos dias de hoje, diante de muitas pessoas perdidas que há, Seu nome Dele for pronunciado. A ser assim, abaixo, repito o que no início, fora dito, na esperança de que a repetição possa sedimentar o efeito desejado...

É mesmo nestes dias, mais do que em quaisquer outros do pretérito, e que seja menos nos do porvir que da inversão dos valores, nem mesmo Deus imune está; assim, para maior segurança e conforto nossos, haverá de se fazer presente entre nós, Moises, que haverá de gravar em nossas mentes, indelevelmente, o que quando às ordens do Senhor esteve, dispondo do seu cortante cinzel, bem exposto deixara entalhado na pedra, ocupando a segunda linha das dez outras ocupadas pelos dez mandamentos: "Não tomar seu Santo Nome em vão"

 

 * -   Zωροάστρης - Nome grego de Zaratustra do livro “Assim Falou Zaratustra” que falou por Nietzsche.

 

** - Fac-simile - Último parágrafo do primeiro capítulo de Dom Casmurro de J. M. M. Assis.

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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