Onde está Iaco?

 

Da fogueira queríamos, tão somente, a luz, pois calor, de sobra naqueles dias, às noites, dava o sol, ainda que velhas fossem.

Diante de nós, surgiram entre a fumaça, quando não, das sombras, duas outras pessoas, que por nós, antes não foram vistas; uma delas, quando bem já ao nosso lado, bem se fez notar, nos disse:

– Estou aqui para manter a fogueira acesa, e para que não se apague das suas memórias, a memória deste meu amigo, que para nós contará várias histórias, tudo farei.

O dizer “para manter a fogueira acesa” ainda que bem viva ardia em chamas, não nos chamou quase que nenhuma atenção, mas, para compreender “para que não se apague das suas memórias, a memória deste meu amigo...”, faltou-nos compreensão, quando não, compreender, não houve quem o fizesse... Assim, o grupo pensamos! Pensamos também, que à noite, os entes da floresta nos reservam suas brincadeiras que quase sempre, muito às claras, não ficam...

Entre todos os jovens que formávamos o grupo, só havia estranhas pessoas, portanto, entre todos os olhares trocados, olhos vistos agora, antes vistos, não foram; mas, ao pé das fogueiras, mais vivas são as vistas, mais atentos são os ouvidos, mais doces são os semblantes; logo, logo, ou de imediato, quase nada de calor se consome para consumar amizades aquecidas ainda que nas cinzas fiquem quando a última brasa se esvai...  

Quem nos contava as histórias era um estrangeiro – um suíço – que há anos estava a ser curtido pela úmida e quente selva amazônica; sua pronúncia mesclara-se, pois, sua voz carregava o alvo dos Alpes, ainda que um tanto desbotado, e já o bem corado verde da selva, no timbre das suas palavras, florescia.

Bem levados íamos ao seio das lendas pelo crepitar dos tições ardendo... insetos, pássaros e até outros animais maiores protegidos pela noite e escondidos entre os ramos ao seu derredor, não menos curiosos que sonolentos, iam temendo a mão do vento sobre a coivara acesa, enquanto admiravam o clarão que no grande escuro abria uma pequena clareira luminosa, antes não vista. 

Peter Yaacov – esse era o nome do nosso contador de histórias – ia falando... Falando... Falando... As chamas, como que entendendo as suas palavras, iam dançando... Dançando... Acompanhando... Acompanhando... A cadência do sotaque das suas suaves palavras...

Contou-nos várias lendas: a do Boto-cor-de-rosa* nos enlevou muito; a do Urutau** nos emocionou; a um, ou, a outro, fez até chorar; a do Curiango*** causou-nos muita admiração pelo seu conteúdo e não menos pela sua origem indígena. Finalmente, a do Uirapuru**** trouxe-nos tão grande encantamento que só poderia ser maior se pudéssemos ver, ao vivo, o mago cantor encantando com seu canto, todos os outros pássaros cantores.

Alguém entre nós, perguntou ao Iaco, assim chamavam-no o povo do lugar.

– Poderemos conhecer esse maravilhoso cantor?

– Se Deus permitir, respondeu-nos Peter, amanhã pela manhã, iremos encontrá-lo nesse lugar, ou em qualquer outro...

Surpreendeu-me a invocação que Yaacov fez a Deus; referiram-se as suas palavras ao Uirapuru, ou ao próprio Deus? Protegidos por Deus ou encantados por um pássaro, recolhemo-nos, ou antes, cada um de nós, se acomodou na sua rede, e todos bem dormimos, para acordarmos bem dispostos, em busca da famosa ave.

Pela manhã, logo após o café, reunimo-nos; em seguida, assim, nos falou Iaco:

– Vamos estar sempre juntos, pois, esse ente jamais nos abandonará. Há quem afirme que ele não exista; mas, estou certo de que vamos estar com Ele; digo-lhes que posso encontrá-lo sempre e para o sempre.

Essa afirmação do ruivo tostado pareceu-nos ainda mais enigmática, mas, paciência! Compreender a fala de uma pessoa estrangeira que vez ou outra, ou até quase sempre, ainda tropeça na nossa língua pátria, importava menos; o mais importante seria que víssemos o tal pássaro encantado.

Peter com sua voz sonora, quase cantada e parecendo estar com o siso trincado, mais confundiu os nossos juízos, quando nos disse:

– Para encontrá-lo, teremos que aguçar nossos sentidos, todos os cinco, e até poderemos despender o nosso sexto; nossos pés descalços hão de tocar o solo com a suavidade que pousam as abelhas sobre as pétalas das pequeninas flores, quando então, roubam-lhes o pólen; nossos ouvidos estarão atentos a perceber os passos do gafanhoto que se esconde entre as folhas; o cheiro da mata não nos parecerá único, haveremos de sentir e separar todas as suas doces essências; seremos capazes de perceber o gosto dos frutos silvestres antes mesmo de tocá-los. E os nossos olhos? Ah! Sim! Esses, ainda que alongados, por um menor descuido, não perceberão as nuances do verde que se confundem com as do Louva-a-deus mimetizado entre os verdes ramos.

Iaco, encantando-nos, curiosos nos deixou mais; mais ainda, queríamos ver o pássaro encantado.

A floresta parecia nos esperar: em renques entrelaçados estavam as frondosas árvores dando-nos o frescor de sua sombra; ao alcance dos olhos e até das mãos, longos cipós se compunham com delicadas raízes aéreas e desciam dos arvoredos como que em conjunto, a formar diáfanas cortinas para que mais bem protegidas ficassem as variegadas plantas comensais grudadas em seus grossos fustes seculares; o perfume da mata virgem, se não vinha de todos os lados, enchia todo aquele lugar; um emaranhado de folhas mortas ornado por musgos de todos os matizes, formava um tapete único que se estendia sob nossos pés; por fim, as vozes da floresta estavam em concerto: nos altos galhos trinados, chilreios e gorjeios, a compor um trio, harmonizam-se; um pouco além, urros e sussurros, em duo, quase nos assustavam; e ainda, silvos e zumbidos, guinchos e rangidos a formar um quarteto, que só por muito descuido, se desafinava.

Só agora, lembra-me contar quantos éramos: Iaco, os outros e eu formávamos um grupo de onze corações amantes da natureza.

Entendendo ou não o que nos dissera Iaco, adentramos pela mata, e o fizemos em fila indiana, sem deixar de manter à nossa frente, as suas nebulosas recomendações, as recomendações prévias que Iaco nos fizera.

A cada passo, a virgem mata ia acolhendo-nos mais e mais; de repente, se não para todos, mas, para quase todos nós, a voz do vento se calou; tornaram-se mudos todos os pássaros; não mais farfalharam os ramos; um perfume de um suave azul deu-nos uma grande paz, que se não viera do céu, no céu, em paz, deixaria todos os anjos; então, fomos percebendo que estávamos diante Dele, ou antes, Ele estava à nossa frente...

Foi difícil deixar a floresta. Iaco e seu amigo, conosco não saíram; cremos que logo em seguida, à nossa saída, sairiam...

Para que nossas pernas bambas nos levassem de volta à pousada, quase não foi possível; impossível foi compreender as palavras do recepcionista, quando a ele, de Iaco, alguém entre nós, pediu notícia:

– Onde está Iaco?

– Iago? Interrogou o recepcionista, e continuou:

– Quando você o conheceram?

– Ontem, à noite! Disse um outro entre nós.

– Não! É impossível que isso tenha se dado, pois, no mês que virá, fará um ano, que Iaco e seu fiel amigo já não estão entre nós; a Floresta os levou para sempre...

 

*       Boto-cor-de-rosa - Inia geoffrensis

**     Urutau - Nyctibius griseus

***   Curiango - Nyctidromus albicollis

**** Uirapuru - Cyphorhinus arada 

  

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