Entre os vivos, morto que fui, estou entre poucos...

 

Entre os vivos, morto que fui, estou entre poucos, que do outro mundo, podem falar.

Tantas coisas há, que de lá sei, pois, morto, por tão longo tempo, permaneci.

Entender-me-á algum vivente, que possa dizer: vivo, nem sempre ser, consegui!

 

Éramos muitos, e de ser, não deixamos, pois, mortos sempre há.

Despediam-se, entre si, todos os dias, todos os que partiam.

Os temores, não só nas despedidas, havia, pois, ao lado de cada recém-morto, já nasciam.

 

Entre os mais idosos, alguns, ou até todos, não deixávamos de falar:

- Estou cansado de morrer, não temo o nascimento, quero logo, desta morte, partir!

Ainda assim, para quase todos entre nós quando mortos, nascer, era um grande afligir!

 

Um grande grupo constituído de jovens, falava:

- Por tanto medo que tenho de nascer, quase nasço antes de morrer!

Assim, de lá, são os desiludidos idosos mortos, assim, de lá, são os iludidos jovens antes

de nascer!

 

Havia entre nós, alguns poucos mortos, que tínhamos as consciências mais mortas...

Logo, fazíamos nossas reflexões. Deixo aqui, as que não foram ceifadas quando

alcançamos a vida:

Mas antes, saibam que estas não diminuíam em nós, o desejo da partida...

 

Aqui, no reino da morte, só cultivamos o bem!

Em outra seara, há cultivar mais produtivo que devemos semear?

Se não há, sentido não há ao perder a morte, para a vida encontrar!

 

O que nos reserva o nascimento?

Qual o sentido do nascer?

Por que estamos aqui? Outro lugar, melhor sorte pelo nascimento, pode nos oferecer?

 

Morremos e nascemos apenas uma vez?

Há, verdadeiramente, algo que nos espera após o nascimento?

Sabíamos que bem respondida uma das interrogações, as outras nos trariam algum alento...

 

Ainda assim, uma, ou antes, todas as dúvidas, a uma conclusão a todos, conduziam:

Se certezas há, há no mundo dos mortos; pois, no dos vivos, só dúvidas haverá,

Assim, creia em mim, pois aqui estou e estive lá, então, digo: lá, eterna morte, ninguém terá!

 

PS - O autor por vivo que está, teme a morte; mas, por morto que estarei, já receio temer o nascimento, pois, dúvidas tenho sobre a existência da eterna morte.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

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