Nossos cabelos brancos

 

 Fui visitar um amigo! Entre as trocas de novidades, ou antes, depois delas, em dado momento, disse-me ele:

- Fala-se que há boas mulheres em um lugar bem distante daqui; se não me falha a memória, chamam-no de Grécia, a este lugar; quanto a ela, a Grécia, não a conheço; quanto as mulheres, as de cá - as do nosso Brasil - sobretudo, as dos dias de hoje, tenho informações pouco precisas, mas, por precisar apenas de uma, a tenho muita vez diante dos meus olhos, e nunca fora do meu coração.

Logo percebi: este amigo, tanto senhor de si, e da sua esposa, senhor pela metade, se tanto, se referira ao meu casamento que estava para sair, ou digo melhor, estava para entrar na minha vida, há anos. Com esta conversa de viés, quisera ele saber se eu continuava solteiro? Tive pequena dúvida ao conceber esta interrogação! Logo veremos se fundamento para tanto, houve!

Meu amigo era mesmo assim: amiúde, falava de forma oblíqua, contudo, por tanta vaidade que tinha, para as suas palavras, compreensão aprumada exigia sempre. 

O casamento deles - o do meu amigo e da sua esposa - já era velho; tinha pra lá de trinta anos bem vividos; e bem continuava vivendo, pois se remoçava sempre pela força do amor eterno, que necessário jamais deixará de ser, contudo, embaraçava-se na dificuldade para eternizar a submissão, que sempre há de ser contingente, dela a ele...

- Se você pensa que é difícil ir à Grécia, continuou ele, dê mais ânimo às suas pernas, e caminhe por aqui mesmo...

Percebe que solteiro continuo! E continuei: não fiz esta opção, creio que é uma imposição do destino; talvez haja tempo!

- Sim, há tempo, continuou o amigo, para tanto, basta que você descruze os braços, estenda-os e disponha-se a abraçar.

A intenção dele talvez fosse boa, contudo, naquele momento, para mim, ele tentava unir não duas “pessoas”, antes três - o matrimônio, a indiscreta inconveniência e o enfastiado tédio - mas em nome dos casais felizes, o perdoei, ou melhor, o tolerei.

O desconforto poderia ter sido passageiro, mas, o amigo para deixá-lo por mais tempo a gerar incômodo, prosseguiu; prosseguiu, contudo, não me trazendo menos conforto, antes, dando-me o seguinte e grande exemplo de viva em comum, que sob a égide do matrimônio, serviria de exemplo para quaisquer pessoas solteiras, e até para algumas já casadas, se untadas pelo mel da lua ainda estivessem.

- Dias atrás, pensei em comprar um novo pente - um daqueles que se usa para pentear os cabelos - cansara de dividir o velho que tínhamos em comum, minha esposa e eu. Usando-o sempre, a princípio, ela - a minha esposa - ainda que lhe caíssem escassos fios de cabelos, um ou outro, todos pretos, agarrava-se ao nosso escuro pente, e assim, despercebidos passavam; e passaram assim, por bons e muitos anos. Mas, ao passarmos, inevitavelmente, pelo tempo que antes de, de vez, tudo aniquilar, tudo desfigura, aos poucos, mudaram-lhes a cor; com efeito, tornaram-se prateados e fora da cabeça abundantes ficaram. Os meus - os meus cabelos - curtos, ainda que bancos, se caiam alguns, nenhum ficava pendurado no pente. Foi assim, que ao Julgar poder me livrar deste aborrecimento, comprei o tal pente novo; porém, do velho, respeitando o seu direito adquirido, o deixei junto ao novo. Suficientes foram poucos dias, para que muitos cabelos brancos se grudassem no meu novo pente. Protestando, aborreci a minha querida esposa dizendo:

Até quando vou aguentar essa sua cabeleira?

Ela sem graça, respondeu-me:

- Com certeza, não sei; mas, penso que há de tolerá-la até o dia da minha morte.

Assustei muito, não menos fiquei arrependido; pouco me faltou para chegar ao choro. Esperei minha querida esposa dar-me as suas costas, e quebrei o pente novo, mas, não antes de pensar:

- Como é bom ver os cabelinhos brancos da minha amada esposa, agarradinhos aos meus, ainda que menores sejam, têm alguma chance de corresponder a estes abraços que nos proporciona o nosso velho pente!

Depois de ouvir do meu amigo, esta pequenina história, ainda que enviesada, fiquei encantado; sem demora, me dispus a tomar uma grande decisão, casar-me-ia tão logo encontrasse alguém que não tivesse menor disposição. 

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

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