O vaso de porcelana

 

Já noite alta, bateram à minha porta; bateram forte, forte para acordar, forte para assustar, e forte par forçar sem demora, alguém, senão qualquer um que na casa dormia, a atender ao chamado, quando não aos gritos. Eu não dormia, estava em campanha; pelejava contra a vigília, e o sono negava-me auxílio. Ao abrir a porta, ou antes, ao entreabrir a porta, criei uma fresta, que se menor qualquer tanto fosse, não daria passagem ao senhor Leôncio; homem avaro, que entre os vários credores meus, haveria de ser o menor com menores haveres em minhas mãos para receber. Não justificou a impertinência, se tentasse fazê-lo, passaria por cínico, logo foi dizendo:

Fiquei sabendo que você está de mudança; seu débito está por vencer, quero lhe poupar trabalho, é melhor acertarmos ainda hoje. Não soube o que lhe dizer, fiquei estarrecido; amenizada a surpresa, disse-lhe:

Volte hoje pela manhã, faremos nosso ajuste. Se meu credor saiu muito preocupado, não menos fiquei sossegado. Nos últimos tempos, não esquentara cadeira, não provara travesseiro, não folheara livros, tão somente curtia uma insônia atroz.

Meu negócio arruinara-se, a loja caminhava a passos largos rumo à falência, meu crédito esvaíra-se. Ao bolso de vários credores meus, meu débito era pequeno, quando não, insignificante; mas, pelas minhas posses, a metade de toda a minha dívida, já passava de uma pequena fortuna, com efeito, a miséria, ainda um pouco afastada, já me espreitava enquanto observava a pobreza que sitiando a minha casa, arrumava-lhe acomodações perenes.

E os amigos? Ah! Entre tantos que pensava ter, não muitos seriam necessários para valer-me, bastavam poucos; poucos, ou antes, nenhum me deu socorro. Vendo-me refém das dívidas, bem sabendo do meu cativeiro, ignoravam minha angústia, negavam-me resgate.

E os bancos? Ah! Sim, são eles fieis amigos de quem pode sustentar a amizade com fidelíssimos investimentos; não sendo assim, não concedem novos créditos garantidos por velhos débitos.

Diante da situação, ou melhor, à frente da calamidade, fugir era risco grande, honrar os compromissos era possibilidade nenhuma.

Quando já entrava nos limites do desatino, lembrou-me rever nosso vaso de porcelana. Fina, delicadíssima e antiga peça, há anos fora enclausurado em uma segura e aveludada caixa de madeira; minha esposa herdara-o da mãe; minha sogra recebera-o como presente de casamento; a avó de minha esposa não sabia ao certo da sua origem, mas garantia que ele estivera nas mãos de sua bisavó dela. Naquele momento, só enxergava na velha relíquia o quê a necessidade fazia-me ver, ou seja, “uma peça extraordinária não tem valor ordinário”.

Na memória, dando-me com a imagem do vaso, encontrei também um “retrato” já um tanto antigo, do senhor Roberto Chang. Sem demora, fui buscar este em carne e osso. O experiente vendedor e sagaz comprador de porcelanas, negócio nenhum fazia, sem antes bem analisá-los; por não ser diferente do que sempre fora, à vista de mais um negócio, mostrou-se indiferente diante do vaso, contudo, disse-me:

- Retire-o da caixa, e coloque-o ao centro da mesa; faça-o com todo cuidado, pois se trata de peça valiosíssima, suponho!

Antes de me voltar à ordem dada - esta deste “mestre” - no ânimo que me deu o superlativo de valor, me ative para sintetizar na ponta dos meus dedos a absolutíssima certeza que faria bom negócio.

Sem tocá-lo, o expert das relíquias de grande valor, continuou dizendo:

- Você tem em suas mãos uma peça raríssima, confeccionada durante o reinado de Kangxi por volta de 1680, portanto, pertence ao período King, ou seja, período da dinastia King. O chinês pediu-me que novamente a acomodasse em sua caixa; em seguida, esfriando ainda mais a voz que já era quase gelada, falou:

- Esta obra de arte vale uma fortuna, queiram você e seus descendentes conservá-la. Espero que não haja motivos para vendê-la...

Despediu-se e foi-se. Aquelas palavras redimiram-me; fui procurá-lo, já no outro dia, pela manhã, quando lhe disse:

Quero vender-lhe o vaso. Ele respondeu-me:

- Voltarei à sua casa brevemente.

Fui disposto a fazer o negócio e voltei indisposto para emendar mais noites aos dias. Cinco dias depois, chegou o senhor Chang. Pediu-me que colocasse o vaso sobre a mesa. Prontamente, o atendi. O chinês observou-o atentamente, inclinou o corpo levemente sobre a valiosa peça, virou a cabeça para o lado esquerdo, e aguçando o ouvido, fletiu o dedo indicador da mão direita e deu vários e suaves piparotes no corpo da relíquia. Se mudara a opinião sobre o vaso, conservava as feições que jamais mudavam. Logo, surpreendeu-me ao dizer:

- Seu vaso valeria muito, mas está trincado; perdeu-se uma singular obra de arte, perdeu-se uma fortuna; ainda assim, é possível que encontre alguém que tenha algum interesse por ele; não se preocupe! Esta peça vale algum dinheiro, talvez surja algum interessado que queira adquiri-la... Até breve! Estarei à sua disposição.

Despediu-se, saiu cheio de confiança e deixou-me vazio de esperança.

Meu infortúnio que já era grande, ainda a crescer, trouxe-me à lembrança o meu grande amigo Heitor.

Antes do remate desta história, peço-lhe que considere a seguinte reflexão:

O desespero permite germinar entre seus malefícios, uma boa semente, que logo cresce, torna-se arbusto frondoso, floresce e perfuma nossas lembranças. Aí, vão surgindo as recordações, uma após a outra; as mais incrustadas no esquecimento, só se despregam para vir à tona, quando já não estamos mais tomando pé no grande poço da existência, ou quando já nos encontramos nos instantes finais da vida, ou quem sabe, nos iniciais instantes da morte...

Querida leitora! Dê-me mais uma fração do seu tempo, e conhecerá o porquê desta reflexão... Portanto, voltemos à nossa história, pois já é tempo.

Meu amigo recebeu-me. Nossa amizade estava morna, por conta da distância que nos separava, e sobretudo, por conta do longo tempo em que estivemos afastados um do outro. Ainda assim, ouviu-me com toda a paciência - paciência de Jó - então, voltando-se para mim, falou:

- Meu caro amigo! Empresto-lhe a soma de que você precisa para saldar todas as suas dívidas; volte para casa! Seu vaso está perfeito, só ficou muito tempo guardado. Conserve-o!

Quis beijar-lhe as mãos, contudo, não passou da vontade, pois o acanhamento bambeou-me o desejo, ainda assim, meus olhos denunciaram minha gratidão...

De onde você tira tanta compreensão? Perguntei.

- Compreendo apenas que nossa amizade jamais esteve trincada...

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

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