Hoje, acordei com o pé esquerdo

 Eugene Grael

Essencialmente, o ser humano, ao se despertar, o fazemos sobre os nossos dois pés. Hoje, não sendo diferente de todos os meus dias passados, acordei apoiado sobre o meu pé esquerdo; para ser mais explicito, digo que me despertei com o meu pé esquerdo, e de tê-lo feito diferente em diferentes dias, não há quem tenha presenciado... Quanto ao meu pé direito, ignora-lo, não me é possível, ou o que é mais certo, dele, não devo me livrar, sendo assim, hei de caminhar à vigília nossa de cada dia, sempre com ele à frente.

Antes de continuarmos com este assunto que tem pé e cabeça, faço-lhe um pedido, ou antes, com insistência, insisto que me atenda ao lhe pedir o que se segue:

Olhe sob o seu pé esquerdo! Veja a sua face plantar; e não queira perder tempo ao olhar, ainda que a curiosidade torça-lhe o tornozelo direito, a face que este usa para se apoiar habitualmente no solo, pois já a vira por ter visto a sua homóloga no seu pé esquerdo. Veja! Se insisto para que você veja apenas uma das faces dos seus pés - a do esquerdo - e deixe de ver outra, há uma razão de ser tal pedido, qual seja, indistintas entre si, são estas, entretanto, você verá que indistintas não são as funções dos nossos pés; além do quê, tenha grande certeza, pois ainda maior, a tivera eu, ao lhe pedir o que peço, pois, em quaisquer circunstâncias, não há necessidade de procurar o que encontrado não será. 

Nesta singular circunstância, em que não lhe recomendo uma visão e peço-lhe que tenha outra, bem justificada está a razão, pois, ressalvando alguma pequeninas e insignificantes diferenças anatômicas que entre os nossos dois pés há, tudo diferente que um apresenta em relação ao outro, não passa de suas posições trans, que são essenciais para ambos, e em benefício de um só dono, têm razão de ser.

Agora, levemos a sério este assunto - se é que você ainda, não o fez, pois eu o fiz já quando dera meus primeiros passos - e consideremos um grande e inconsequente paradoxo criado entre os pés dos bípedes, especialmente, os dos humanos.

Nós os destros, temos em mente, que entre os nossos pés - o direito e o esquerdo - dúvidas não há, quando este é preterido por esse. Pois sempre, há de ser o mais forte, o membro direito, diga-se de passagem, é ele comandado pelo lado esquerdo do cérebro; sendo assim, este todo poderoso e senhor de si, tão logo desejemos executar o mais elementar movimento ao caminhar, dará ele o primeiro passo; e o faz com firmeza, com segurança, com equilíbrio, enfim, com grande determinação e confiança em si mesmo. Tão eficiente desempenho, que nem sempre é o mais adequado, resulta da anuência às ordens superiores, dadas pela cabeça a este membro inferior; ou, pela menor atenção que ele - o pé direito - dá à parte superior do corpo. Por consequência deste tão exemplar movimento - o do pé direito - chegou-se, fundada em má interpretação daquelas paradoxais asserções, quando não equivocadas, à conclusão que embora seja falsa, ensejou outra que se tornou verdadeira.

Eis o paradoxo:

Quase sempre, ou melhor dizendo, de contínuo, o nosso pé esquerdo não podendo evitar, pois nenhuma prerrogativa fora-lhe dada, uma vez que o consideramos o mais fraco, e por fraco todos o veem, direito vai seguindo o seu irmão direito, que por direito, indevidamente, adquirido, passo a passo, vai sempre à frente, ainda que tropece. Mas, se já no primeiro passo, antes de uma caminhada, consentirmos que pelo nosso pé esquerdo, a iniciativa seja tomada; forçosamente, terá ele que fazê-lo com mais cautela; haverá de avaliar com mais atenção o terreno a ser pisado; analisará os seus movimentos com mais prudência, ainda antes de executá-los; julgará a nossa postura corporal com mais critério; recomendará que deixemos livres as nossas mãos, pois a elas, ele poderá recorrer, caso necessidade haja; finalmente, haverá ele - o pé esquerdo - de julgar serenamente, a conveniência da jornada empreendida pela cabeça que lhe dá ordens; e ainda, depois de tanta prudência, ainda que não o queira, pois outra escolha não há, haverá de contar com o apoio do seu irmão, o pé direito...

Note bem! Tão somente este nosso pé - o esquerdo - e apenas ele, nos oferece esta prévia e mais acurada reflexão antes ser dado o primeiro passo; pois, ao atendê-lo, muita vez, mudaremos o curso do nosso trajeto, antes que o nosso destemido, quando não inconsequente pé direito, desastrosamente, possa trilhar o caminho incerto...

De outra forma, afirmo:

Tendo sido revelado este paradoxo entre os nossos dois pés, deixemos, em nome da segurança assegurada pela fisiologia, e em nenhum momento, em nome da anatomia recomendada, a chance de dar o primeiro passo, ao iniciarmos uma caminhada, ao nosso pé esquerdo, pois, aonde este pisar direito, o direito, seguramente, não pisará errado.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

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