A lagartixa solitária

 

No teto de uma grande sala de jantar, morava uma pequena lagartixa; tomara posse desta área, quando ainda era bem jovem. Por tão grande espaço que lhe pertencia, fartava-se à vontade, com aranhas, moscas, pequenas baratas e grandes pernilongos.

O pequeno réptil, com patas e dentes férreos, sempre defendeu o seu vasto território, ainda que limitado a quatro paredes fosse. Quando a ambição não lhe tomava o tempo vago, as horas de folga consumia-lhe a vaidade, com efeito, durante muitos anos, especialmente os da sua juventude, por ter se tornado rainha absoluta e solitária daquela área tão plana, tornou-se a sua visão limitada pela própria topografia do seu reino; por tal sorte, o céu que acima de tudo e de todos está, ao seu alcance não se encontrava... Por falta de interesse, ou por lhe faltar imaginação, em tempo algum, se ocupou em descer pelas estremas do seu território, o que se fosse feito, lhe ensejaria, a preciosa oportunidade de galgar outros limites de outras terras, em busca de suas vizinhas. 

No último verão, pernilongos em nuvens e mais nuvens, a alcançar todos os confins daquele reino, pulularam acentuadamente; houve, assim, uma invasão acirrada por estes insetos, que muito rapidamente tomaram toda área sob a posse da absoluta soberba.

Para aquela poderosa senhora, durante as noites quentes, conciliar o sono era tarefa árdua, pois, pernilongos zumbindo, roubavam-lhe o sangue; assim, não menos inquieta, a rainha lagartixa passava as noites em claro, e com o claro dia, repousar não conseguia. Por morar sozinha, apenas a pobre monarca, haveria de encontrar a solução para livrar-se daqueles impertinentes invasores.

Após muito sofrimento a passar “as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro”*, ocorreu-lhe a seguinte ideia:

- Vou comer apenas pernilongos! Hei de devorá-los todos! Assim, sossego terei! Encontrada a solução, a soberana pôs-se a executá-la; com apetite voraz, consumia todos os dias, grande número dos intrusos insetos; tanto comeu, e tanto mais haveria de comer, que seu peso aos poucos, foi aumentando, e aumentando sempre, logo, nada demorou para pear-lhe os livres movimentos a sua obesidade. O ganho de peso crescente foi diminuindo-lhe a destreza, com efeito, o simples caminhar exigia-lhe cautela. O incômodo era contínuo; a situação agravava-se pelos muitos pernilongos presentes e pelas muitas gramas à custa deles, adquiridas pela sua gula dela... Seu território, dito já fora, era amplo; sua dieta forçada pouco mexeu com os folgados insetos invasores. A falta de sossego continuava; agora, desesperando-se do seu próprio território, a infeliz soberana caminhava à aflição, pois, o seu pequenino e achatado ventre, de quase transparente que fora, tornou-se globoso, e por conta de tantos pernilongos que ingerira, tomou a cor e forma da barriga de um sapo; sua situação era mesmo muito crítica; se continuasse devorando apenas os famigerados pernilongos, ganharia a desiludida lagartixa, cada vez mais peso, assim, tal expediente a levaria à obesidade, que jamais fora desejada, com efeito, suas patinhas, impedidas pelo seu dilatado abdome, mal poderiam aderir ao teto que de piso lhe servia; para emagrecer, se regime alimentar fizesse, tornar-se-ia, inevitavelmente frágil e insegura, assim, segurar-se àquele teto, com frágeis patas, seria risco grande.  Estas reflexões minavam-lhe o equilíbrio, e corroiam-lhe o ânimo.

Na tentativa de encontrar algum lenitivo para o seu mau, ainda que com pouca esperança, a angustiada lagartixa pensou em consultar suas vizinhas. Teve dúvidas, pois a elas, jamais se dirigira; sabia apenas que na sala contígua ao seu reino, havia semelhantes suas. Sua altivez buscou outra saída que encontrada não foi. Frustrada, não lhe restando alternativa, o jeito foi recorrer às moradoras ao lado. Na manhã seguinte, após mais um dia mal dormido e uma noite de tormento, bateu à porta de suas vizinhas. Foi recebida por um sorriso jovial no rosto de uma idosa senhora. 

A anciã admirada com a visita, que em época alguma fora esperada, desejando-lhe bom dia, disse-lhe:

- Em que posso servi-la?

Nossa sofredora catenga muito desconcertada, respondeu:

- Moro ao lado desta sua casa; tenho sido atormentada implacavelmente, nos últimos dias, por uma nuvem de pernilongos; quero saber: de que forma a senhora tem convivido com este flagelo? 

A vizinha não dissimulando a surpresa, deu-lhe a seguinte resposta:

- Minhas companheiras e eu dividimos juntas, este teto há muitos anos, nunca fomos importunadas por nenhum inseto. Pernilongos apenas compõem a nossa dieta.

A velha lagartixa, com voz agora mais firme, completou a sua resposta, dizendo:

- Creio que pude ajudá-la, espero revê-la em breve.

A visitante muito confusa com a resposta, e não menos embaraçada, por não saber o que fazer, agradeceu à vizinha pela atenção, e foi-se embora carregando mais um peso, o da sua consciência...

 

* - Da pena do meu queridíssimo Cervantes, saiu esta inferência ao meu amantíssimo “Cavaleiro da Triste Figura”.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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