Entre quatro paredes...

      

Entre as quatro paredes de uma caixa de fósforos, em assembleia, todos os seus ocupantes - os palitos - encontravam-se reunidos. Relembrarem os seus primórdios na história da humanidade e avaliarem o seu próprio destino, eram os objetivos primeiros, quando não, únicos; durante aquele encontro, entretanto, para não perderem a ocasião, comentariam sobre as suas façanhas como genitores da pirotecnia, e, sobretudo, não poderiam deixar de discutir sobre um incômodo que já há algum tempo, lhes afligia, qual seja deveriam falar sobre as causas da angústia que os acometia.

Para melhor discutirem os temas postos em pauta, dividiram-se em quatro grupos; para cada um destes, entre os seus membros, fora escolhido um representante; após longas considerações, o líder de cada um dos quatro blocos, deveria ocupar a tribuna, quando então, apresentaria suas conclusões.

Deu-se o que proposto fora! Após cada grupo discutir separadamente e por tempo hábil, as devidas proposições, o representante do primeiro, voltando-se aos seus colegas, disse-lhes:

- Meus prezados senhores, ao relembrar nossos ancestrais, concluímos que não fosse a nossa estirpe ígnea, o homem estaria ainda hoje, atritando madeira ou à mercê dos raios que ficam à mercê de tantas outras variáveis; e entre estas, está boa vontade...

Após falar, agradeceu; foi muito aplaudido, pouco contestado, e um tanto incompreendido.

Falando o segundo líder, assim expôs as convicções de seus pares:

- Somos a alma da dinamite, podemos edificar ou destruir; a escolha foge ao nosso controle, pois está nas mãos dos homens...

Quando este orador terminou sua fala, foi muitíssimo elogiado pelos seus colegas. 

Logo em seguida falou o terceiro:

- Quando fomos criados, nos recomendou Prometeu* - Fiat lux** - Acatamos este preceito, e estamos continuamente cumprindo o que prometêramos, e queremos que assim seja para sempre.

Esta explanação foi um tanto vaga e morna, mas, por não deixar de ser um tanto patética, não deixou de ferir a alegria de muitos; com efeito, pouco calorosos, foram quase todos os ouvintes...

Ao falar o último líder, que era também o presidente da assembleia, assim se expressou, voltando-se aos seus colegas:

- Somos fósforos de segurança! Incerto está o nosso futuro; o uso amplo da eletricidade nos deixou em estado de choque; a disseminação dos isqueiros queimou o nosso porvir; o uso crescente da energia solar está esfriando as nossas esperanças; creio senhores, que de maneira, ainda que sucinta, estão bem expostas as causas irremediáveis da nossa angústia.

Após esta confrangida fala, despediu-se o orador, mas não sem antes deixar estas funestas e últimas palavras:

Estamos perdendo a razão do nosso viver, pois a sociedade a quem durante tanto tempo, com prudência, aquecemos e oferecemos a luz, por tanto calor que a gerar está, está incinerando o seu próprio corpo e congelando a sua própria alma, com efeito, esfriando-se a vida sobre a terra, dentro em breve, os humanos consumados em cinzas, estarão.

Com esta prática lastimosa, a plateia se rebelou. Tomando a palavra, um dos ouvintes, ainda que não inscrito estivesse para falar, falou:

- Não esquentemos nossas cabeças, pois, as consequências serão funestas; entremos em recesso por duas horas; e assim, refrescaremos nossos ânimos.

Entendendo a prudência do colega, todos evacuaram o lugar, ou antes, a caixa.

Do alto de um aparador, um palito de incenso observava aqueles quatro grupos cabisbaixos andando sobre uma grande mesa de jantar, onde se encontrava a caixa de fósforos. Por curioso que ficou, senão comovido, dirigindo-se a eles exclamou:

- Tenho uma oportunidade singular vendo-os todos juntos; em tempo passado, estive a sós algumas vezes com membros desta família; naqueles breves instantes, esvaindo-se em cinzas, um dos seus, deu-me a vida; graças a tão exígua e efêmera chama sua, eu pude perfumar por longas horas todo este recinto. A vocês, mártires da luz, agradeço; faço-o também em nome de todos desta casa: do fogão a gás, dos castiçais, da lareira e, sobretudo, falo em nome da solitária vela que suavemente ardendo vela por todos nós para que não percamos a esperança. Os palitinhos ficaram comovidos e recolheram-se tranquilos, à sua caixinha.

 

* - Gênio do fogo, que aparece na mitologia como o iniciador da primeira civilização humana. Formou o homem com barro e, para dar-lhe vida, roubou o fogo do céu.

 

 ** - Fiat lux = Faça-se a luz.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

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