Olhos verdes

 

 Florêncio de Carvalho - prenome mais conveniente, não teriam lhe dado seus pais; estirpe mais apropriada para lhe servir de empréstimo para se tornar seu próprio nome, encontrada não fora pelos seus antepassados. Este era o grande amigo do meu pai.  Conheceram-se quando nenhum, nem outro me conheciam. Creio que se fizeram amigos algum tempo depois que este fora aluno daquele.

Naquele tempo, lembra-me, cursava o primário. Quando passei de ano da segunda para a terceira série, mudamos para bem próximo da chácara do senhor Florêncio, que já estava bem entrado em anos de idade.

Lá o conheci, lá passei a frequentar, ora atrás de frutas, especialmente das mangas, ora atrás de escutar as histórias do velho professor.

Ele, já quase deixando de ser sexagenário, era um homem pequeno e magro. Tinha cabelos vastos e alvos; por mantê-los curtos, não deixavam de ser um tanto espetados. Trazia um par de óculos grossos para enxergar as coisas mais finas. Oferecia a todos, um olhar sereno, ainda assim, não conseguia conter seus inquietos olhos azuis, que lhe ficariam mais apropriados se verdes fossem... Estes, quando no quintal, caminhavam desde um mirrado arbusto até ao cume dos frondosos arvoredos.

O bondoso mestre da botânica amava mesmo as plantas; seu coração enraizara-se ao lado de cada uma de suas mil e tantas orquídeas.

Em uma das vezes em que o visitei, perguntei-lhe sobre a fotossíntese; quis saber o porquê das árvores altas com suas pequenas copas e o porquê das árvores baixas com suas enormes frondes; finalmente, talvez, com a intenção de testá-lo, pedi-lhe a justificativa de ser tão maravilhosamente lindo o Ipê amarelo quando florido estava. Ele, com a sabedoria de uma sequoia, respondeu-me...

Querido leitor, antes de irmos logo adiante, para que não fiquem por muito tempo, curiosas as perguntas, desejo que conheça o feitio das respostas moldado pelo professor Florêncio.

Ao ser interrogado, sobretudo, a respeito de sua paixão - a botânica - ele ouvia toda a pergunta, mantendo-se em silêncio absoluto; e redobrada exigia que ficasse a sua própria atenção. Depois, esboçava um sorriso bem miudinho, que era já um sestro seu, para logo em seguida, dar ao interlocutor uma curta resposta; novamente recorria ao sestro, e aí sim, sem a menor afetação, dava a maior e mais completa resposta sobre a matéria. Ao falar, vez por outra, deixava escapulir uma pontinha de vaidade, mas mantinha sempre à mão o entendimento de quem a ele recorria.

Vamos às respostas?

- Meu querido pupilo, você é muito jovem para compreender inteiramente um fenômeno tão antigo! Ainda assim, vou lhe contar hoje, uma pequena história, e então, aguardaremos que passem alguns bons anos, quando então, novamente, vou repeti-la - esta mesma pequena história - que lá, já estará velha, mas, o farei com novas palavras.

Vi logo que o velho mestre queria antes, respeitar minha quinta série do curso primário.

Mais uma vez, o sestro antecedeu a resposta:

- Todas as árvores gostam e precisam do sol. Algumas, mais afoitas, ignoram que ele nasceu para todos os viventes; querem alcançá-lo logo, para tanto, crescem rapidamente, não se preocupando com a formação de seus ramos, logo, têm poucos galhos e escassas folhas. Outras, mais comedidas, crescem mais devagar, dando tempo para que cresçam também os seus galhos.

Mais um último sorrisinho, e continuou o professor:

- As árvores que têm suas folhas escassas, respiram mal, pouco gás carbônico lhes são suficiente, dão-nos menos oxigênio, oferecem-nos menor sombra. Diferentes são as árvores que deram tempo para que seus galhos crescessem, ganharam folhas abundantes, portando são as que mais respiram, consomem mais gás carbônico, com efeito, ofertam-nos mais oxigênio, e dão-nos maior sombra.  

Meu bondoso amigo de meu pai ainda me disse:

- Tudo que uma frondosa árvore fez, ainda quando jovem, foi reconhecer que o sol nascera para todos os viventes.

E ele continuou:

- Quanto ao Ipê florido, por agora, digo-lhe que as flores são os órgãos reprodutores dos vegetais mais evoluídos. Tantas árvores há com suas flores discretas e destituídas de beleza, que diante de nossos olhos, despercebidas passam; porém, entre muitas outras, está o Ipê que nos deixa deslumbrados com a sua áurea copa, quando se prepara para reproduzir. Tão grande exuberância de cor e forma, que nos expõe à frente, de uma gigantesca pepita de ouro, é dispensável para uma reprodução eficiente; contudo, a razão única para justificar esta maravilha, é o simples desejo do Criador. Ele quer que reflitamos sobre o passageiro valor que há de ter o dourado metal...

 Fiquei encantado com as palavras do velho mestre, ainda que tão jovem discípulo fosse...

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar