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Um cofre sem segredo...


Desejei muito ter mais uma lembrança do meu finado avô! A este fim, por tanto insistir, deram-me o seu velho cofre; cofre sem o seu devido e necessário segredo, quando não, em segredo, fora este levado à sepultura, para que fora do alcance de outro ninguém, no antes do além-túmulo, não mais fosse encontrado...

Ainda que estivera a esperar pela entrega daquele grande presente, quando este chegou, encontrava-me ausente, logo, não pude recebê-lo, assim, mo entregaram sem o menor zelo, ou antes, com maior zelo para deixá-lo o mais próximo possível do seu lugar definitivo, deixaram-no bem à porta de entrada da minha casa; tanto assim o fizeram, que deveria eu, ou qualquer outra pessoa saltar sobre aquele presente a qualquer futuro alcançar no interior do meu próprio lar... Passados dois ou três dias após a dita entrega, quando com efeito, para recebê-lo, tive antes que arrostá-lo, notei logo, que a peça era mesmo pesada, contudo, dois homens dispostos ao trabalho árduo, a unir suas forças, poderiam removê-la com certa facilidade; se é que com facilidade, remove-se um paralelepípedo reto, feito de ferro, a pesar oitenta quilos, quando deste peso não passa, para maior pesar àqueles que deveriam arredá-lo de um lugar a outro; e a fazer tão grande esforço, com pequena força, não seria possível, pois, tão somente, poder-se-iam contar com apoio das mãos, ainda assim, desviando-as de uma ou outra farpa resultante da inexorável eversão do tempo que tudo corrói, até quando os ferros urgem ao vento a pedir que os livre da ferrugem...

Maior decepção tive com aquele ganho, quando soube que o tal cofre não tinha segredo, ou antes, ninguém entre os vivos, o conhecia; diante do peso e da inutilidade daquele maciço, pensei: ainda que eu revela a minha última gota de suor para revelar o segredo deste estorvo, não desistirei... E para começar, vou deixá-lo em seu devido lugar; e a esse intento, tanto fiz força que experimentei um severo desconforto respiratório, que se mais prolongado, teria encurtado a minha vida, não fosse a pronta interversão da minha esposa, quando, um tanto irritada, disse-me:

- Você não se emenda! Tantos pesos menores tem para remover em sua vida, e está a perder tempo com este, que pode até ceifá-la...

Interrompi o descomunal esforço e pensei:

Minha esposa de cinquenta e poucos quilos merece mais a minha atenção, se é que meu coração, para tanto, me dará tempo... 

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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