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O rolo de um rolo de papel


Passa de meio século que estou a usar papel higiênico! De início, por ser criança, logo quis assumir este hábito, pois, assim a agir, estaria a cumprir o papel de quaisquer meninos que boa educação hão de ter; por ter sido assim, nenhuma importância dera à cor cinza pálida daquele papel; nenhuma atenção dispensara a sua superfície lisa por ausência ou de baixos ou altos-relevos; nenhum incômodo trouxera-me a sua tessitura áspera pela presença de farpículas de lenho (se este vocábulo destacado em itálico, não há, não há importância, pois nos dias de hoje, não há papeis higiênicos com partículas maiores de celulose). A ser assim, de lá para cá, por imposição fisiológica, não me falta este hábito, uma vez que o meu hábito intestinal não é falho; por enquanto, não desistirei deste intento, mas, para poupar papel, muita vez, com vantagem, uso a boa água que de leve lava, e leva depois... De tanto depender dessa ou desse, que só asseio promovem, tenho uma límpida certeza: antes que finde este século, meus dias findarão, logo, fim darão a todo e qualquer papel que estava a minha disposição, e por falta d’água, não ressuscitarei...

Há poucos dias, livrei-me de um conflito que fora gerado há quarenta anos - logo no início do meu casamento - por um primeiro rolo de papel higiênico que deveria se dividir entre o novel casal que formávamos minha esposa e eu. E que arraigado e arrastado conflito foi este! E este se deu da seguinte maneira:

Minha esposa ao dispor do nosso primeiro rolo de papel higiênico para o nosso uso comum, entendeu de fixa-lo em seu porta papel dele, de tal maneira que a aba inicial da folha de papel que é o único componente daquele invento, deveria ficar sobre este; a ser assim, quando puxada e destacada, imporia sobre si mesma, uma vez que enrolada ainda estava, um movimento no sentido horário; melhor seria, se tal movimento fosse invertido, pois ao ser anti-horário, suscitaria maior estabilidade ao próprio rolo sobre o seu próprio eixo. Tão logo notei estas disposições, quais sejam, a do rolo em se envolver em faina tão árdua, e da minha esposa em assim mantê-lo, contestei, pois julguei - e o fiz corretamente - que a forma mais correta para se fixar um rolo de papel higiênico deveria propiciar a ele, um deslocamento no sentido anti-horário, quando estivesse este a se oferecer ao uso a que se destina. Tantas e tais ilações, conforme já dissera, ocorreram há quarenta anos. Daqueles distantes dias até aos atuais, se não houve acordo sobre a posição do tal papel higiênico em seu próprio porta papel, não houve maior constrangimento entre os seus usuários, contudo, entre todos os envolvidos, houve desassossego pois ora encontrava-se o dito papel em uma posição, ora em outra; mas, entre os dias mais recentes, houve um especial, em que assumi outro papel, ou antes, outra postura diante do bendito papel higiênico, tomei:

Em dado e inevitável momento, quando dele estava a depender, quis mais uma vez, muda-lo de posição; contudo, antes de fazê-lo, pensei: até quando me incomodará antes de me servir, este teimoso papel? Ocorreu-me a seguinte resposta, que de onde saíra mal soube dizer, pois bem sei que papel só se expressa por palavras impressas em si...

- Antes de me ocupar, não se ocupe com a minha posição, pois enquanto vida tiver a sua pertinaz esposa, em meu lugar, não terei paz!

Voltando-me ao rolo de papel higiênico, fiquei um tanto embaraçado ao conceber a seguinte réplica:

Haverá de ficar para sempre, na posição que a senhora do meu amor desejar!

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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