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Um demente de mente sã

 

Sem falta, falto de raciocínio está aquele que tem oportunidade a observar uma coruja, se em seguida, nada dizer, pois ainda que não tenha farto discernimento, de modo natural e esperado, por vê-la em seu comportamento usual, haveria de dizer estas pertinentes palavras:

- Coruja é uma ave muito inteligente!

Se a observar aves, fora inteligente bastante, aquele que fez esta afirmação, nenhum engano cometeu, ou pelo desejo de observá-las, ou por ter expresso tamanha verdade sobre as corujas.

Eu, não a estar só a dizer isto, digo que também tive experiência com estas lindas aves, as corujas. Isto se deu, ou antes, isto iniciou-se há três anos, da seguinte forma:

Por razão que será notada mais à frente, assim dou início a esta narrativa:

Naqueles dias ainda contávamos com meu avô; nos dias de hoje, entre nós, já não mais o temos; que o tenha Deus!  Ele - o meu avô - após o seu jantar, que das dezenove horas não haveria de passar, por recomendação médica, fazia a sua sesta bem acomodado em uma confortável poltrona que compunha a ampla varanda que se estendia, voltada para um grande jardim interno a compor a nossa casa. Lá, ou seja, neste espaço, em um dado momento, fora notada uma pequena coruja interessada nos insetos que ali em paz viviam. Por longos dias, em detrimento à sesta habitual que tanto meu querido vovô prezava, pôs-se ele a observar aquele furtivo visitante, e o fez com grande zelo, e não com menor discrição, que nada tardou para que a pequena ave trouxesse para junto de si, o seu par, par que seria o seu companheiro, se fêmea fosse essa... Em pouco tempo, pela fartura de alimento e segurança que aquele espaço dispensava ao pequeno casal, este assenhoreou-se daquele habitat. Meu avô a notar esta posse definitiva, passou a tratar ainda com mais carinho os novos hóspedes, tanto o fez, que lhes deu nomes próprios, a saber, Biloca e Chumbinho; Chumbinho haveria de ser o macho, se já antes o era, aquele que menor porte tinha. Fora este o primeiro a explorar tão aprazível território, ora transformado em seu doce lar, ou ao menos, por farta e segura praça de alimentação interpretado. Não houvesse inconstância das visitas do bem aceito casalzinho, dúvidas à denominação definitiva daquele dito lugar não haveria, pois se neste, efetivamente morassem as pequenas e bem vindas aves, lar seria a palavra apropriada a denomina-lo, mas, se só a buscar - ainda que de contínuo - alimentos estivessem as tão bem aceitas corujas, praça de alimentação melhor calharia a nomear aquele ambiente... De uma forma ou outra, ou seja, a residir, ou só a comer, as corujinhas estavam sempre presentes naquele sítio; assim, meu avô, para grande deleite seu, diariamente, ou antes, tão logo chegava a noite, muito à vontade, ficava ao lado dos alados animaizinhos; por tantas vezes que isto se deu, meu vovô sem a mínima intenção a cativá-los, a cativá-los mais, entendeu de lhes deixar à disposição um tentador complemento alimentar, qual seja, grilos; assim, por este intento, pôs-se a criá-los, e o fez com a ajuda do seu querido neto - que em tempo futuro, haveria de narrar esta história - Aquele expediente - o de criar grilos - ensejou bons frutos às corujinhas, que agora mais afáveis, tornaram-se mais assíduas e fieis ao horário do jantar.

Quando tudo estava a andar e a voar bem, entre meu avô e as suas corujinhas, revelaram-se-lhe os primeiros sinais e sintomas de uma enfermidade grave que já o acometia silenciosamente. A memória se lhe definhara de forma brusca; o interesse por quase tudo se lhe esvaíra, e a até seu bom humor, sempre estampado em seu rosto, esmaecera; tudo nos levava a crer que em breve, ele estaria demente, pois, de mente sã, já não se encontrava-se, posto que tudo esquecia, e quase nada compreendia...

Neste momento, por imposição deste texto, abro dois parênteses; o primeiro ao se justificar, a justificar o segundo está; vejamo-los:

““A abrir parênteses, muita vez, quebra-se o texto que carece de reparo, para tanto fazer, subestima-se o raciocínio de outrem, ou remenda-se o nosso próprio que puído fora”, a ser assim, sob esta ou essa justificativa, aqui abrirei um deles, e não o farei pela primeira vez, pois vezes por outra, o fizera antes; logo, se necessário for, para conservar o hábito velho, de novo, em algures, fá-lo-ei; pois bem, sem constrangimento, tolere estes que se seguem, pois o faço por minha conta, logo, logo, ou desde já, estou a remendar o meu próprio raciocínio que fora trincado”

“Demência senil é uma afecção que acomete pessoas, quase que sempre, a partir dos seus 65 anos de idade; com maior frequência, alcança o sexo masculino. Tal enfermidade se caracterizada pela perda progressiva e irreversível das funções cognitivas, tais quais: alteração de memória, de raciocínio, de linguagem; incapacidade para reconhecer ou identificar objetos; e ainda, o portador desta doença, cada vez mais, perde a capacidade de realizar os seus próprios movimentos físicos. Esta doença é uma das principais causas de incapacidade aos idosos, pois, em especial, a perda da memória torna-os cada vez menos capazes a se orientarem no tempo e no espaço, logo, não entenderem o que se passa ao seu redor, não reconhecerem as pessoas, ainda que sejam estas as mais próximas de si; por tais consequências, as vítimas desta enfermidade, não se orientam a contento, logo, se perdem com frequência em seu próprio ambiente, com efeito, tornam-se ansiosas e agressivas, contudo, talvez, não sofram tanto por conta desta moléstia, uma vez que mal percebem a perda da sua própria autonomia”

Voltemos logo depois do primeiro “vejamo-los”, mas, para fazê-lo, a partir daqui, continuemos:

Ainda que pouco a compreender, e muito a esquecer, meu vovô continuava a atentar na doce faina das suas amigas corujas; delas falava com frequência; assim a agir todos os dias, em um especial entre estes, para minha surpresa, ou antes, sem nenhuma estranheza me causar, pois em virtude da sua enfermidade, bem aceitas, quando não bem toleradas, eram quaisquer palavras suas, disse-me:

- Minhas amiguinhas, amiúde, falam de assuntos pertinentes a nossa família, máxime, daqueles que lhe dizem respeito!

A esta assertiva, não fosse pelo singular plexo da sua forma, pela falta de nexo do seu conteúdo, nenhuma atenção haveria de dar, ainda que o bom senso permeasse-me com um profundo sentimento de pena e admiração, uma vez que, ilógico a falar estava há meses, o meu avô.

Dias depois deste formidável incidente ter ocorrido, disse-me meu vovô:

- Minhas amigas (com estas palavras, referia-se ele às corujinhas), estão sempre a falar aos meus ouvidos. Posto que com clareza as compreenda, não lhes ofereci em tempo algum, nenhum comentário, a propósito de suas palavras dirigidas a mim, pois, muita vez, receei não me fazer compreendido, mas ontem, à noite, tornaram-se infundados todos os meus temores, quando Chumbinho dirimiu todas as minhas dúvidas, ao me assegurar que na próxima semana, em sua companhia, haveria de estar uma grande amiga sua, muito sábia, muito hábil, e não menos capaz a ler pensamentos humanos, e em seguida, modulá-los à linguem da sua própria espécie.

Mais uma vez, estas palavras do meu avô, lembraram-me recordar dos seus contínuos e inúmeros anos de vida, em que de mente sã e brilhante, a tratar de quase quaisquer temas concernentes ao interesse das sábias e sensatas pessoas, o fazia de forma escorreita e encantadora; agora - pobre coitado! - sem ter mãos às rédeas da sua própria razão, ainda assim, por um grande mistério, só explicado por outra razão maior, se expressava de modo tão coerente, a narrar tão extraordinária fantasia. Diante dele, um tanto comovido pela sua miséria, limitei a perguntar:

Em que dia exatamente, nos visitará a sábia coruja?

Prontamente ele respondeu-me:

- Quarta-feira próxima, às 20 horas e 27 minutos, em ponto. E continuou: digo-lhe mais, ou antes, menos não lhe peço: esteja ao meu lado a recepcioná-la, quando então, por pensamento, você haverá de lhe fazer alguma pergunta, de antemão elaborada e guardada em sigilo, em sua própria mente; ao ler esta, a sábia coruja, a pronto, dará conta de transpô-la à língua de seus pares, que presentes também estarão, em seguida, uma ou outra das minhas amigas, sem demora, me devolverá a sua interrogação, e eu, de imediato, lha entregarei em mãos, assim, sem nenhuma dúvida, por minha palavra e pelo seu são discernimento, ficará constatado este inusitado, quando não jamais visto, fenômeno.

Diante desta insustentável descrição, teria ficado mais estarrecido, se menos confuso estivesse, contudo, por uma inexplicável razão, me dispus a esperar a próxima quarta-feira, e o fiz com certa ansiedade, pois deste dia distante estava, uma vez que em um sábado, tomei esta resolução.

Três dias depois deste sábado, à noite, meu avô instou-me com estas palavras:

- Advirta na importância da próxima quarta-feira!

Compreendi a sua intenção, e mais agucei minha atenção às indolentes horas que se arrastavam...

Ao amanhecer do esperado dia, já aguardava o seu anoitecer, logo, tive tempo, antes que a noite chegasse, a fazer estas duas reflexões:

Meu avô, para incompreensão de qualquer pessoa que o conhecia, encontrava-se entre dois mundos, um deles - aquele onde qualquer ente vivo pode se acomodar - lhe incomodar não mais conseguia, pois, nada mais lhe dizia, nada mais lhe oferecia, enfim, neste mundo, ele já não vivia; o outro mundo - o criado por um casal de corujas - o acolhera de asas abertas, pois lá, ele contava com suas amigas, ainda que de duas, jamais passara; delas ele falava sempre, com carinho e  nexo esplêndidos, só notados, quando naquele outro mundo ele vivia em paz com os semelhantes seus...

Quanto a segunda e última reflexão, a concebi a me dar alívio, pois, vendo-a em execução, tudo ficaria às claras... Ei-la:

Nesta quarta-feira, à noite, irei ao encontro da tal coruja - aquela que tem capacidade a ler pensamentos humanos - isto farei tão somente, a contentar meu avô, pois semelhante disparate, em sã consciência, não haveria de cometer. Se isto não passa de fantasia, se lhe der complemento, qualquer que seja este, não a levarei ao real, logo, deixo aqui grafado, uma asserção, que não haveria de ultrapassar as estremas do meu pensamento, se diante daquela coruja estivessem este e eu. Eis a asserção:

“Entes não afins, fim nenhum têm a trocar mensagens entre si”

Veja leitor amigo! Este pensamento que apenas, à sábia coruja, aquela que tem a singular capacidade a lê-lo, deveria ser revelado, entretanto, confiante na sua absoluta discrição, deixo-o ao seu alcance, mas, não sem antes lhe pedir:

Depois de lido, delido haverá de ficar para sempre!

A esperada noite de quarta-feira chegou; cheguei às 20 horas; lá já estavam há tempo, meu avô e as suas duas amigas por mim a esperar. Esperar o que? Pensei! Muito comovido com a esperança sem nexo do meu avô, um tanto constrangido, aguardei mais 26 minutos. Antes que o próximo minuto expirasse, suavemente, a cruzar os ares daquele mistério, deu ares da sua graça a sábia e idosa coruja; tão posou, tomou seu lugar entre as suas duas amigas, voltou-se para mim, mas não sem antes menear de forma muito sutil a sua flexível cabeça ao meu avô. Fiquei atônito! Entre pensamentos desordenados, tentei modular o único que o momento exigia a consolidar, ou a dar fim a tão formidável sena; e assim o fiz, pois assim pensei, ainda que à custa de grande esforço:

“Entes não afins, fim nenhum têm a trocar mensagens entre si”

Tão logo saí do “si”, a sábia coruja fitou-me; seus olhos, pelos meus, como que um par de agudos punhais, penetraram meu ser, escindindo-me em dois entes; um deles, atado por um fugaz instante, logo se reencontraria, o outro, preso para sempre ao mundo virtual, sem poder para vir a atual realidade, haveria de ficar...  

Quando voltei a mim, voltei ao meu quarto, disposto a esquecer para sempre, daquela grotesca noite.

Por vários dias, preferi não falar ao meu avô, sobre aquela funesta quarta-feira, mas com o severo agravo da sua enfermidade, em um determinado dia, ou antes, em uma determinada noite, por curiosidade, ou por pena do seu penar, diante das suas duas amigas corujas, lhe fiz esta pergunta:

E a sua terceira e sábia amiga, por onde anda?

Ele, com dificuldade até para mover seus olhinhos quase que apagados, com voz sussurrante e arrastada disse-me:

Meu netinho! Naquela mesma quarta-feira, quando a vimos a primeira vez, de vez, ela nos deixou, para não mais voltar, mas antes pediu-me que lhe entregasse estas palavras, “Somos entes afins, a ser assim, um fim único nos leva ao Ser”

Neste mesmo dia, em que ouvi de uma sábia coruja estas palavras, ou pelo meu queridíssimo vovozinho, as recebi, às 3 horas, de vez, ele nos deixou, para não mais voltar.


 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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