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Um Lápis e uma Borracha...

 

Alguns jovens, e são poucos, continuam solteiros até que jovens não sejam mais; outros, bem antes de se tornarem adultos, querem se casar; assim aconteceu com um especial casalzinho - um Lápis e uma Borracha - que por algum tempo, pelas minhas mãos passou.

Conheceram-se os dois, quando ele mal rabiscava as suas primeiras letras, pois, de criança, mal passara, quando não, sobre linhas retas, muito torto escrevia; ela que além de criança, não passara, hesitava em remover até mesmo um ponto, pois, ainda que fosse este mal definido, bem definia um final, que um novo início, poderia frustrar se apagado fosse... 

A paixão de um e de outro não fora contida; por este tão grande despropósito, uma sábia folha de papel, por não mais, há muitos anos, se encontrar em branco, e que à custa das velhas borrachas, bem escolhia as palavras a serem grafadas em si mesma, a julgar reconhecer de longe, os maus rascunhos do matrimônio, quis opinar à frente do romance dos dois jovens, logo, entre outras linhas suas, escolheu abaixo, estas para se expressar aos dois apaixonados:

- Quero que saibam: sempre tive a minha vida pautada na ética; sempre mantive uma linha de conduta coerente ao tratar com as letras; às claras deixei sempre a minha folha corrida, que nenhum borrão traz; jamais permiti às letras, em quaisquer circunstâncias, que ocupassem o espaço das minhas entrelinhas; assim, com a mais pura das retas intenções, digo-lhes, ou antes, faço-lhes duas importantes interrogações:

É possível haver união mais malfadada, entre estes dois jovens, que o matrimônio? Ambos não reconhecem a perene incompatibilidade de gênios que haverá de mantê-los unidos à infindável discórdia? Pois, você jovem Lápis, tem por ofício, o escrever; e você pueril Borracha, ao escrito dará fim com o seu apagar, logo, a pagar sempre estarão vocês por tão antagônicas ocupações.

Para estas perguntas, respostas ainda que houvesse, não houve suficientes para dissuadir o casalzinho deste propósito, logo, ao altar foi.

Se no início, tudo são flores, para melhor lugar, além de um jardim de infância, não poderiam ir juntos os recém-casados em busca de trabalho! Assim, por juntos que estavam, juntos foram ajudar crianças quando com as suas primeiras letras, tiveram o primeiro contato. Dúvidas não havia: quando saia um garrancho daquelas mãozinhas incipientes, da quase insipiente Borracha saia a correção. Se pelo Lápis, com uma nova tentativa, sucesso não alcançavam as criancinhas, pela Borracha, nova correção ao erro se aplicava. Assim, pelos cônjuges, um a escrever e o outro a apagar, por anos a fio, corrigidas foram as letras; retocadas ficavam as palavras; modificadas permaneciam as frases; por fim, moldadas as ideias se perpetuavam...

Por anos de bom trabalho, o casal foi promovido; foi ajudar alunos maiores de maior experiência com as letras, ainda assim, logo, houve as primeiras dúvidas...

Se entre o casal trabalho houve menos, mais dúvidas surgiram!

- Está errado! Vou apagar! Dizia a Borracha.

- Está certo! Não apague! Dizia o Lápis.

Depois de pouco trabalho e muitas divergências, o casal, por mais merecimento reconhecido, novamente foi promovido; foi ajudar alunos que quase sempre dispensavam ajuda.

Trabalho quase que nenhum, tinha para fazer o casal, logo, sobrava-lhe tempo. Por tempo por demais ocioso e trabalho de menos proveitoso, naturalmente, desencontros tornam-se frequentes, e assim, para o casalzinho, diferente não poderia ser:

- Se você apagar, não mais escrevo! Dizia o Lápis.

- Apago sim! Pois você quase nada, sabe escrever! Dizia a Borracha. E continuou: ultimamente, muito me incomoda continuar a carregar sinais indeléveis de suas agressões, perpetrados em momentos, em que você ocupando-se com a ociosidade, ou tão somente se envolvendo com a falta de inspiração, deixa em meu corpo o rastro de seu grafite; são sinais que não posso apagar, pelo menos de imediato, contudo, poderei perdê-los, se à idade bem avançada, eu caminhar.

Ao surgir a discórdia entre o casal, não se acomodou, antes, em um crescendo a tomar forma foi; e ao atingir corpo maior, ultrapassou as estremas do campo profissional; tal enlace, quase sempre, diferente não haveria de ser, pois, quase sempre, a discórdia, que não respeita limites de idade, quando não, com esta, a tomar mais força, se alastra e alcança a vida pessoal dos cônjuges.

Em dado momento, em um papel, para que ficasse mais bem apontado, disse, ou antes, escreveu o Lápis à Borracha:

- Você tem me desgastado muito!

- Desgastado? Respondeu a Borracha, se há desgaste entre você e eu, a desgastada sou eu; você ultimamente, ou até, há muito tempo, está a me desapontar!

- Desapontar? Disse o Lápis, quem está a desapontar com você, sou eu; para melhor lhe dizer, digo que por você, tenho sido desapontado há anos! E saiba mais, continuou o Lápis, para meu consolo, nada nesta vida é permanente; vejo que a nossa separação virá sem demora!

- Não fale esta palavra - permanente - disse a Borracha; e mais pálida, além da sua cor natural, tornou-se; dominada pela cólera, continuou:

- Pensa que me esqueci do seu envolvimento com aquela caneta? Pensa que não notei sua intenção, ao pensar que tornariam indeléveis seus escritos se os cobrissem com sua tinta dela? Se ela não tivesse sangue azul, ou antes, se não tivesse tinta azul permanente, teria levado em conta os seu grotesco assédio; ainda assim, naqueles dias, por lhe querer bem, ou por mal conhecer a sua índole, o que mais provável fora, estive disposta a perdoar o seu erro, finalizou a Borracha.

- Não fale esta palavra - erro - disse o Lápis; e com a ponta em riste, continuou: pensa que me esqueci do seu envolvimento com aquele maldito Errorex? Pensa que logo não percebi seu intento ao se unir a ele? Esperava ter êxito para se tornar capaz de apagar letras à tinta? Ledo engano cometeu! 

A Borracha muito desapontada, ou para melhor deixar escrito, muito agastada, disse:

- Tanto tempo ao seu lado, especialmente no início da nossa união, desgastei-me muito lhe prestando serviço; muito cedo perdi meus vincos; hoje me encontro disforme, de forma arredondada é o termo melhor; contudo, ainda que incorra em novo erro - Oh! Perdoe-me pelo termo - ainda que incorra em novo engano, penso que é melhor passarmos uma borracha em tudo...

O Lápis, agora furioso, respondeu:

- Veja! Que proposta inaceitável é esta sua! Você acha que é tão simples assim? É só passar uma borracha em tudo, e pronto? Estará tudo resolvido? Você deixa de ver que durante a nossa vida em comum, só coisas boas e certas escrevi!

- Nisto concordo com você, redarguiu a Borracha, mas, para tanto, devo dispor do sim e do não: pelo sim, digo: quando você acertava, eu por engano, vez por outra, apagava o seu escrito, assim, dava-lhe a oportunidade para acertar mais uma vez ao reescrever sobre o que fora apagado; pelo não, digo: quando você errava, eu com segurança, apagava, assim, dava-lhe a oportunidade para o certo grafar; por ter sido sempre assim, posso concluir: só lhe dei oportunidade para acertar, logo, errar - oh! Mais uma vez, perdoe-me pelo termo - graças a mim, não pode você! A ser assim, só resta-me dizer: outra solução não vejo a não ser que passemos uma borracha em tudo e recomecemos nossa vida a partir das primeiras letras.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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