Apanhei alguns puxões de orelha...

  

Hoje, pelo que vi, lembrou-me de não esquecer do que vivi ontem, quando fora aluno das primeiras letras; naqueles dias, apanhei alguns puxões de orelha, talvez de dois a quatro, mais que meia dúzia, é quase certo que não foram; uma certeza tenho: sem depender do número de vezes, cada puxão por sua vez, valia por mais de um, pois distendia e torcia tão bem uma das orelhas – quase sempre a direita – uma vez que a destra, era a mão da minha professora, usada com destreza para adestrar bem os alunos ao saber, e ensiná-los a bem suportar o “se portar” bem... Esse castigo muito rápido, prático e ordinário, e não menos sinistro tinha o nobre ofício de endireitar pela orelha direita, a postura restante do corpo, inclusive a da mente; muita vez, por efeito imediato, não deixava a orelha indolor e pálida, e amiúde, não ficava sem escoriações... Ao aluno, só havia um jeito para tal desfeita não suportar, só portar-se bem...

A reprimenda, por ser efeito de uma premente causa, causava grande preocupação, e não menor vergonha para ser eficaz; fugaz era a vergonha, não tanto quanto a preocupação, pois essa se fazia acompanhada pela mudança de cor da orelha... com isso a preocupação persistia, e cresceria para abreviar as consequências, pois tudo que me preocupava, pelo temor racional transido e trazido pelo pudor natural, era esconder da minha mãe, por tempo indeterminado, o ocorrido, e o lado doído; e por mais que tentasse fazê-lo, de vez, a orelha traia-me; e por conta dessa traição, a pena haveria de ser dobrada, e na maioria das vezes, o era executada à custa de vara de marmelo.

Ah! E a professora? Bem! Creio que não só a minha, mas cada uma entre todas, e de todos os educandos, às mãos, levava unhas grandes e tingidas por esmalte vermelho; os alunos pensávamos que de outra cor não se pintavam as unhas das mestras; e para tal consideração, a justificativa era simples, qual seja pela indisciplina do aluno, por menos calma que ficasse a professora, mais carmim ficaria as suas unhas, pelo sangue da orelha do aluno rebelde. Assim, diante de nós, tão crianças, nossas mentes carentes de disciplina e entendimento, entendiam que unhas grandes e vermelhas tão somente se ocupavam com algumas orelhas, mas, poderiam alcançar quaisquer outras, caso fosse necessário; e quando necessário, a professora, que tia não era, ao aplicar o correctivo, dúvida nenhuma tinha, ou antes, nenhuma insegurança afrouxava-lhe a mão; logo após a correcção, que logo após a indisciplina, não tardava a chegar, tudo que a mestra queria era que à mãe do insubordinado, chegasse o informe do ocorrido, e que fosse sem demora. Com essa segura expectativa, outra preocupação não havia; maiores detalhes do fato, por ser ordinário, pouca importância tinha; tanto bastava que a mãe soubesse isto:

Seu filho foi indisciplinado, a professora puxou-lhe as orelhas.

Benditas professoras!

Benditos alunos!

Benditas mães!

Benditos filhos!

Todos são daquele bom tempo, que no passado ficou...

Malditas são algumas professoras!

E mais malditos são quase todos os alunos!

Malditas são algumas mães!

E mais malditos são quase todos os filhos!

Todos são deste mal tempo, que no presente está...

 

PS - Naqueles dias, há décadas, por aluno que fora, muita vez, minha boca estava por lavar, assim, levar algum puxão de orelha fora inevitável... Já nos dias de hoje, não só palavra direita profiro, porém, prefiro antes de fazê-lo, proteger direito a minha orelha direita...

  

Aqueles que têm ouvidos para entender essas palavras, são benditos; aqueles que não os têm, por desgraçados que são, deveriam ter as orelhas, sempre às mãos de quem pudesse puxá-las...

 

PS - Fico-te muito obrigado por leres esse ou aquele texto meu; se os teus olhos alcançarem algum outro, ainda que seja por acaso, caso a mais, farei do teu olhar.

 

Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar