Falso evento, é o vento...

 

Aos dias de hoje, meu cunhado e eu conservamos uma amizade desusada, porém, muito comum ao passado, que pouco lugar dava ao fugaz... Nascera há quarenta e cinco anos quando éramos crianças das primeiras letras; estávamos lá com os nossos seis a oito anos de idade, quando germinou entre nós, a sementinha da fraternidade; essa, logo cresceu, não tardou a florescer, e bons frutos está a nos oferecer de contínuo.

Quando meu amigo – que seria no futuro, o meu cunhado – e eu estávamos a consumir os últimos dias da nossa adolescência, de sua irmã enamorei-me; por forte paixão dividida entre ela e eu, nos casamos logo. Ele – agora o meu cunhado – depois de dez anos desse meu bem-feito, afeito aos carinhos da sua jovem e bela namorada, quis levá-la ao altar, e para lá de corações dados, foram juntos. 

Apoiado pelo dom à terra, que lhe fora dado pela clemência da Natureza, e amparado pelo dote, que lhe fora dado pela benevolência do sogro, o meu cunhado tornou-se fazendeiro, ou antes, fazendeiro já nascera, assim, se ocupava com a sua linda e quase que sem lindas, extensão de terra; toda formada em pastos verdes aos seus brancos bovinos de corte. Eu desde jovem, me envolvi com as fazendas, e de tanto vendê-las de metro a metro, pude bem há pouco tempo, comprar uma fazenda de alguns e bons quilômetros quadrados. Por influência daquele cunhado, que há seis anos, também tornara-se o meu compadre – uma vez que minha esposa e eu levamos à pia batismal, a sua filha – entendi de engordar bovinos; e ao deferir o bom conselho que me fora dado por ele, ao próprio conselheiro haveria de me recorrer, pois seria seguro e oportuno em suas mãos, comprar a minha primeira partida de bezerros para ocupar meus pastos que de animais estavam faltos e fartos de forragens se encontravam; não tive dúvidas assim o fiz:

Você conhece bem o meu chão; está todo formado e desocupado; quantos garrotes lá posso pôr à engorda?

– Seu pasto está todo vedado; dentro de pouco tempo, perder-se-á o capim; a ser assim, ponha logo todos os animais que a área comporta; e essa não menos que 1500 cabeças suporta.

Não disponho de verba suficiente para comprar esse lote; está ao meu alcance, adquirir apenas umas 800 cabeças.

– Faça algum esforço! Dou-lhe prazo para me pagar o restante, e ainda facilito-lhe o preço, tudo que tenho disponível, é tudo que você precisa, ou seja, tenho 1500 cabeças; aproveite este momento!

Vamos ver a boiada, mas só comprarei o que posso. E isto se deu no dia aprazado.

Antes de continuarmos com esta história que envolverá também os irracionais, desses falemos, pois isso, necessário se faz:

Nelore é um raça zebuína, um tanto arisca, ou até arredia, ou para melhor ficar claro, suprimamos estes adjetivos, e deixemos em seu lugar a seguinte afirmação: essa raça não se envolve facilmente com os homens, pois sobre as nossas intenções tem dúvida, ou certeza tem de que somos os seus algozes; a ser assim, lidar com esses animais requer segurança e atenção ampliadas.

No dia que fomos separar os meus animais, para grande admiração nossa, à frente da garrotada toda irrequieta ainda que contida em um amplo curral, deu-se bem ao alcance dos nossos olhos um sucesso inusitado, qual seja surgiu do centro da manada, um determinado garrote – de aparência e porte muito semelhantes aos dos seus pares – e se aproximou devagar à nossa frente, quando então a uma pequenina distância do meu compadre, quase que ao alcance de suas mãos, ficou por um instante não tão fugaz, sem fazer movimento algum, como que se apresentasse a ele; em seguida, a passos lentos, se meteu de onde saíra. Tudo que meu cunhado disse sobre este quase que desprezível incidente foi o seguinte:

– Este bezerro é muito estranho! Que comportamento inusitado! Mas, deixe-o pra lá, pois, a narrar falso evento, é o vento quem tem mais a nos dizer...

Muito embora tal comportamento fosse incomum, não nos desviou do nosso intento, ou seja, retirar de toda a manada, um lote de 800 cabeças; para tanto fazermos, nem mais nem menos trabalho tivemos, ainda que separar 800 animais de um rebanho de 1500 espécimes, com todas as veras, requer disposição e cuidados intensos. Meus animais ficariam presos em pasto separado, até que os pudesse levar todos à minha propriedade.

Na manhã seguinte, bem pela manhã, fui rever minha boiada; quando estava a admira-la, surgiu do nada, ou antes, do pasto contíguo ao que continha os meus animais, surgiu da remanescente manada, o bezerro, o tal bezerro manso que no dia anterior, apresentara comportamento insólito a nos surpreender. Ele, tal qual fizera antes, a passos lentos, se aproximou de mim, até ser barrado pela cerca que estava de permeio entre nós; bem a cômodo em suas quatro patas, ergueu levemente a cabeça, e disse-me:

– O senhor bem conhece o pai da sua afilhada. Acate as ponderações do meu senhor; e tudo se acomodará.

Fiquei estarrecido, quando não, faltou-me forças para me ver sobre o chão; ainda assim, notei aquele formidável animal metendo-se no meio de sua manada.

Imediatamente voltei à casa do meu cunhado, busquei repouso no meu quarto, com o desejo de encontrar, o quanto antes, discernimento suficiente para me livrar daquela desconcertante alucinação imposta pela minha própria razão que enferma haveria de estar.

Neste momento, por imposição deste texto, abro um primeiro parêntese, que ao se justificar, justificará um segundo, ou até outros, caso necessários sejam; vejamo-lo:

“A abrir parêntese, amiúde quebra-se o texto que julgamos carente de reparo; e ao fazê-lo, muita vez, subestima-se o raciocínio de outrem, ou remenda-se o nosso próprio que fora puído”; sob esse, e não sob aquele efeito, é feito aqui, por ser necessário, um remendo; entre estas letras, o faço pela primeira vez, mas, já o fizera antes em outros lugares;  e caso seja imperativo, para conservar o hábito velho, de novo, em algures, fá-lo-ei; pois bem, sem constrangimento, tolere este parêntese que se segue, pois o faço por minha conta, logo, logo, ou desde já, estou a remendar o meu próprio raciocínio que fora trincado.

 “Minha afilhada, dito já fora, hoje tem seis anos de idade; é uma menina linda, inteligente, meiga, com os pais é por demais carinhosa, mas, mais atenção e zelo dispensa ao seu pai; quanto a mim, trata-me com uma certa reverência um tanto reservada; por vez, dá-me sinais de uma repulsa velada.”

Voltemos ao meu lastimável estado:

Ao sair do meu quarto, visivelmente atordoado, causei indiscutível preocupação ao meu cunhado, que com atenção singular ouviu-me dizer:

Devo voltar imediatamente à cidade, dependo de uma avaliação médica, pois, não me sinto bem... Tão logo ouviu-me, o meu bondoso amigo se dispôs a me acompanhar; entretanto, por temor infundado, tal obséquio dispensei com toda veemência.

Quis, o quanto antes, procurar ajuda médica; menos por sorte, e mais por necessidade premente, a encontrei nas mãos e na paciência de um psiquiatra que se encontrava entre aqueles poucos colegas seus que de seus pares não dependem de amparo... A expor as minhas queixas – razão única daquela consulta – encontrei muita dificuldade...

Doutor! Um bezerro insinuou que sou eu o pai de uma...

– Se lhe ouvi bem, o senhor disse que o filho de uma... Insinuou que o senhor é pai de uma...

Sim doutor! O que já dissera haverá de ser suficiente para que o senhor firme algum diagnóstico sobre uma possível afecção que está a me atormentar!

– Não, não basta, pois, depois dessa sua afirmação, o senhor deve dizer mais, ademais, mais um pouco haverá de dizer, para eu constatar que de veras, fizera aquela afirmação, disse-me o doutor.

O tal bezerro ao afirmar, ou antes, ao insinuar que sou o verdadeiro pai de uma determinada criança, está a caluniar-me.

– Ouvi bem, agora tenho certeza! O senhor esteve a conversar com um bezerro? O filho de uma vaca?

Sim doutor, por mais estranho que possa parecer, trata-se mesmo dessa estúpida pessoa, entretanto, com ela, jamais conversei, apenas dela ouvi essa injúria.

– Dessa pessoa? Redarguiu o médico

Não! Não doutor! Não é isso que poderia dizer, o fiz por falta de atenção, ou por excesso de aflição, pois, trata-se apenas de um despudorado bezerro.

– O senhor disse excesso de aflição; assim, pergunto-lhe: – o senhor está aflito, exatamente, por que?

Doutor! Tenho que estar aflito, pois, não sei de onde essa pessoa, desculpe-me, esse bezerro tirou base para essa infundada calúnia; doutor! Estou mesmo muito aflito.

– O senhor crê que esteve a conversar com um bezerro.

Doutor! Já disse! Não conversei com ele, dele tão somente, ouvi a calúnia.

– O senhor nesse bezerro está a acreditar, pois, a creditar-lhe atributo próprio à pessoa está, logo, doente creio que se encontra. Note bem as minhas palavras seguintes, e em seguida, queira guardá-las e apreendê-las: a Esquizofrenia é um mal que não acomete bezerros, ao menos até onde sei, entretanto, tantas pessoas há que estão aflitas por conta desta grave enfermidade. Quanto ao senhor, se se vê enfermo, certo está a pensar, pensado, com efeito, quase está o seu mal, pois um dos sinais seguro que exclui a esquizofrenia, torna-se explícito quando o paciente que está a ser avaliado, admite que está enfermo, entretanto, se este atribuir esta enfermidade a outrem, ou, o faz, muita vez, ao próprio médico com o qual está a consultar, temos um indício forte a corroborar a sua própria doença. 

– E mais, alvitro-lhe sigilo absoluto sobre esse episódio.

Sim doutor! De bom grado, acatarei por inteiro, as suas recomendações, pois tenho dois motivos para fazê-lo de imediato.

– Dois motivos? Quero conhece-los, disse o médico.

Não me interprete mal doutor! Entre os dois motivos aos quais me referi, está a sua recomendação, o outro é a minha inocência que se funda na minha consciência.

– Pois bem, a pôr fim nesta consulta, digo-lhe:

– Pelo efeito de alguma substância estranha, o equilíbrio metabólico do seu cérebro fora rompido – creio que por tempo determinado – por consequência ainda mais estranha, o senhor se viu diante de um bezerro que a falar estava. Vá! Fique tranquilo, tome este medicamento por quinze dias, e retorne aqui.

Saí daquele consultório disposto a não mais pensar naquela grotesca alucinação. No dia seguinte liguei para meu querido compadre, dando-lhe notícias sobre a minha boa saúde e a disposição que tinha para buscar em breve os meus bezerros. Dois dias depois desse expediente, por telefone, disse-me meu o cunhado:

– Por descuido de um dos meus servidores, mais uma vez, teremos que dividir os bezerros, pois encontram-se todos arrebanhados em um mesmo pasto.

Mais uma vez, lá vamos meu amigo e eu a dividir bezerros em dois rebanhos distintos; para tanto não teríamos, nem mais nem menos trabalho, ou seja, haveríamos de formar um lote composto com os meus 800 animais e formado deixaríamos outro a conter os 700 animais restantes. Tudo a contento seria resolvido, não fosse o tal bezerro que tanto me afligiu, aparecer diante de mim, quando já recolhido às casas suas, estavam o meu cunhado e os seus peões; e isto se deu da seguinte maneira:

A sair do meio da boiada que haveria de permanecer na fazenda, o bendito animal, a passos lentos e habituais aos bovinos mansos, veio de encontro a mim; deteve-se bem ao alcance das minhas mãos, fletiu discretamente a cabeça, e quase como que a sussurrar disse-me:

– Acate as ponderações do meu senhor; pois, se assim o fizer, com segurança e tranquilidade poderá concluir: a narrar falso evento, é o vento quem tem mais a nos dizer...

Pela segunda vez para ser a última, horrorizadíssimo, me afastei daquele maldito bezerro, com a reta intenção de compra-lo juntamente com o meu rebanho, e tão logo, chegasse à minha fazenda, daria a ele um fim sumário e imediato; por assim pensar, imediatamente, disse ao meu cunhado, quero muito comprar aquele bezerro “mansinho”.

– Mansinho? Qual?

Aquele que se aproximou de nós enquanto estávamos a dividir o rebanho quando aqui estive há três semanas.

– Ah sim! Pode levá-lo; volte ao curral e junte-o aos seus animais, o quanto antes; assim procedi, ou antes, assim tentei fazê-lo, pois separar um bezerro de uma manada de 700 pares seus, sem que para tanto, nenhuma distinção física tenha esse animal que o identifique dos demais, é tarefa quase que impossível até de ser concebida; por esta certeza, fiquei indignado; de imediato voltei ao meu cunhado, e disse-lhe:

Deixemos os animais juntos, ficarei com todos.

Meu cunhado por tão sereno que sempre fora, disse-me:

– Faça como quiser.

Ótimo! Já no início do próximo mês, iniciarei o transporte de todo o meu rebanho, pois tenho alguns poucos reparos a fazer na divisão dos meus pastos.

Questão de quinze dias, a contar dessa nossa conversa, quando os dois últimos caminhões conduziriam o restante dos meus animais, meu cunhado procurou-me em pessoa, para me dizer:

– Modifiquemos o nosso negócio: que fique na minha fazenda meia dúzia dos bezerros dos quais lhe vendi, pois aquele bezerro, o mansinho, desde aquele dia em que se aproximou de nós com tanta serenidade, quando estou na fazenda, sempre que é possível, ao alcance dos meus olhos ele quer ficar; e quando lhe dou maior atenção, ele se aproxima bem ao alcance das minhas mãos, toca-me suavemente com o seu focinho, e o que é mais notável, fixando seu olhar em mim, suscita a absurda impressão que tem algo a me falar; por tudo isso, ainda seja em parte, fruto da minha fantasia, ficarei com esse animal na minha fazenda até que ele morra de alguma causa natural, e até que chegue este momento, haveremos de tê-lo entre nós – você e eu – como se parente fosse um nosso. Diante desse transe terrível e ameaçador, só tive força para fazer a seguinte interrogação ao meu cunhado:

E o que ele lhe contou?

– Contou? Contou o quê? Só entendo essa tua pergunta, se a fizeste, por excesso de amizade que sempre te dei, pois, se és tu culto, estulto não queres se tornar, ao crer que bezerros falam?

Não fosse o alívio que recebi com essa resposta, cindiria o meu próprio siso naquele instante; mas, para maior alento meu, minha piedosa e fresca memória, lembrou-me recordar destas palavras: “Acate as ponderações do meu senhor; pois, se assim o fizer, com segurança e tranquilidade poderá concluir: a narrar falso evento, é o vento quem tem mais a nos dizer...

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua leitura; se os seus olhos alcançarem mais textos meus, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei do seu olhar.

 

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