Se meu criado-mudo falasse, mentiria...

 

Se de um texto, ou de outro, o título expressasse com mais sinceridade o que está a anunciar, não aguçaria tanto a indiscreta curiosidade, que só deixa de ser vulgar, quando não está ocupada a alimentar os curiosos reles. 

 

De poucos móveis se compõe o meu quarto de dormir; entre eles, há dois criados que nos servem - a mim e a minha esposa - ficam um ao lado do outro, tendo uma cama de casal de permeio; o que atende a minha esposa é mudo; se pudesse falar, por tão discreto que é, ainda que dela, seja eu um fiel e amante esposo, creio que dele, nenhuma confissão arrancaria; já quanto aquele que as minhas ordens se encontra, se tivesse o dom da palavra, a mim e a outrem, quando a sós estivesse, entre outros protestos, queixar-se-ia, reiteradas vezes, da falta de boas condições para o seu trabalho a mim prestado, quando então, sublinharia meus descuidos com a sua higiene; creio com segurança, que não deixaria de fazer com toda veemência, referências fastidiosas aos meus livros que estão sobre si, e olha que são muitos! Com certeza assim diria: - Não bastassem estes livros, poucos objetos, pois para mais, espaço não há, muito me sobrecarregam o corpo; e mais, mostrar-se-ia aborrecido por estar bem ao seu lado, todo aceso, o meu novo abajur, até noite velha; finalmente, se mais pacientes fossem os ouvidos de quem se dispusesse a ouvi-lo, e mais atenção lhe dessem, lamúrias de toda sorte, frequentes e diárias, ou antes, frequentes e noturnas, diariamente, ouviriam do meu criado.

Sempre, à hora de dormir, enquanto o eterno sono não me alcançar, ainda mais calado pelo silêncio da noite, meu criado-mudo, acordado ao meu lado, permanece com suas mudas queixas, disposto a me ouvir. Neste momento, ainda que do meu fiel servo, dependa, atenho-me tão somente aos meus bons livros; e são verdadeiramente, bons, e por duas vezes o são: em uma delas, de muito bom grado, mostram-me todo o seu interior cheio de sabedoria; permitem que eu perscrute as suas entrelinhas, quando estas a revelar-me seus segredos se dispõem; por vez, entre uma página e outra, deixam que eu veja algumas imagens suas; finalmente, para meu maior deleite, se ocupam meus livros enlevando-me com suas histórias. De outro modo, vejo a bondade destes meus solícitos companheiros, quando julgando que devo encontrar o sono, localizam-no para mim; e o fazem com uma notável habilidade. Veja quão eficientes se mostram: sempre me entrego aos braços de Hypnos, que me espreitando já se encontrava entre as páginas do exato livro que em minhas mãos se pôs - poderia o deus do sono se ocultar em outro livro ignorado por mim, ou pelo menos, que fora posto fora do meu alcance? Assim poderia ter sucedido! Mas, mais atento estivera aquele meu bondoso amigo que em vigília perene, a velar o meu sereno repouso, entre as suas páginas, deu àquele sonolento deus, abrigo prévio.

Bem sabemos que os deuses são eternos; eternos, entretanto, não são os sonhos de Hypnos, logo creio, quando cansado, para descasar, acordado haverá de ficar; em seguida, já descansado, volta ao sono que o conduz aos novos sonhos, quando então, com os mortais tem conjunções de toda sorte... Tais convicções adquiri, e por várias vezes, pude confirmá-las, quando também por várias vezes, estive entre a vigília e o sono, que em conluio, formam um nublado corredor... No entanto, outra convicção já tivera antes, prensada entre as paredes deste mesmo corredor, que bem clara ficou ao meu entendimento, qual seja não há muita consistência em nossas convicções, quando estas se atropelam entre si, ao cruzarem aquele espaço de pouca luz... 

Voltemos ao leito, pois já é noite velha, quando então, indispostos à vigília, nada diferente do repouso esperamos encontrar, ainda que neste estado, encontremos conflitos vários, uma vez que, ao cairmos nas garras do deus do sono, muita vez, a relutar desejamos continuar acordados. Com grande dificuldade, acordado também quer este deus ficar, visto que, só à custa de um esforço colossal consegue ele se manter desperto, pois por necessidade ou para se manter no inerte trono, sendo deus do sono, muito há de dormir...

Vigilante, esperando continuar alerta, ainda que conte com a sincera ajuda de um dos meus amados livros, aos poucos, vou deixando de compreender o que estão a me dizer as suas palavras, assim, para entendê-las melhor, às colegas suas, que mais recuadas na mesma linha estão, consulto três ou mais vezes; se não tenho êxito, volto ao início do parágrafo; se mais uma vez êxito não alcanço, por vez, tenho que recorrer até à página já virada, e assim, vou resistindo e insistindo, insistindo e...

Desgastado com minha impertinência, vem Hypnos e planta na minha mente, pensamentos e imagens bizarros e incongruentes, alheios ao texto que diante dos meus olhos está.

Menos vaga haverá de ficar esta minha onírica descrição com o exemplo que se segue, ainda que um tanto nebuloso, entre tantos que com semelhante natureza vivem no reino das brumas... Enquanto as letras vão mostrando-me borboletas de mil e uma cores, pousadas às margens de uma poça límpida e rasa, em uma descomunal altura, vejo-me no alto de uma cristalina cascata, que a galgar um dos seus lados, só alados entes podem ser vistos; ainda assim, lá estou a cavalgar a minha montaria que a cair está por pouco, pois por minha desídia, ou por decidir nela confiar, rédeas à larga lhe dou, enquanto descuidado sobre o seu dorso, tomo uma taça de vinho tinto. Diante desta enredada visão, não há jeito, não mais posso insistir, resistir não mais consigo, devo mesmo, nos braços de Hypnos cair. Cair agarrado ao medo, pois sei que em situação de resistência a favor da vigília, Hypnos, por sua vez, vencido e já bambo pelo sono, ainda que um tanto receoso, julgando o seu irmão gêmeo Tânato - deus da morte - mais habilitado para este ofício de nos levar ao sono profundo, cede a este, o seu lugar. Sei também, que por esta rara, quando não raríssima outorga de poder, se se descuidar Hypnos e cair nos braços de seu filho Morfeu, aquele seu irmão - o cruel Tânato - vendo-se livre de quem estava atento às suas intenções, pode até nos negar o sono profundo, para nos impor o eterno, assim, com muita resistência adormeço sem a esperança de mais uma vez rever a luz.

Quanto a você, ainda que em vigília esteja, não está livre de semelhante experiência; com efeito, haverá de acreditar nesta história, especialmente, quando a termino dizendo que em gratidão aos meus queridos livros, ainda que nem sempre possam ajudar-me durante os meus primeiros instantes de sono, por curtíssimo tempo, sou capaz de mantê-los seguros em minhas mãos; e se por mais tempo continuo a agarrar-me à escorregadia vigília, por menor tempo ainda, agora, por devoção aos meus amigos, e para lhes proteger, os entrego ilesos, aos cuidados do meu criado. Meu criado bem sabe que digo a verdade, mas, por não saber falar, ou quem sabe, por desejar ser fiel a mim, mudo continua; e espero que assim continue...

 

Hypnus - (Ὕπνος) - deus do sono, pai de Morfeu

Morfeu - (Μορφεύς) - deus dos sonhos, filho de Hypnus

Tânato - (Θάνατος) - deus da Morte, irmão gêmeo de Hypnus

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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