Com fusos, confusos nossos sentidos...


Muita vez, enquanto sentinelas que somos, a impedir em vão, que se encontrem o sol e as estrelas, a quebrar a nossa vigilância, vem o sono; assim, cegos por conta de suas escuras vendas, podemos ver a liberdade em sonhos; com efeito, neste momento, livres dos grilhões da vigília, raramente dormir estamos, ou antes, enquanto estamos a sonhar, raramente, nos vemos em sonhos, a dormir; neste momento, é como que, algo ou alguém estivera a deixar com fusos, confusos nossos pensamentos.

Esta confusa ilação, creio que fora concebida durante uma longa vigília, que me torturou durante os meus cinco dias em que passei “as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro” *. Assim, “do pouco dormir e do muito ficar acordado” *, fui mesmo ficando confuso, de tal forma, que quando consegui dormir, me vi em sonhos dormindo, ainda assim, não perdendo a esperança de tudo ver às claras; se é que, possível é, em sonhos assim enxergar...  O certo é que quando me despertei, quis entender que cada uma das minhas vigílias futuras, nada mais seria que um período de tempo que se bem tolerado, ainda que longo fosse, ensejaria a minha oportunidade de contrair o direito de receber em recompensa pela espera, ainda que curta fosse, novas ilações pertinentes ao mundo dos acordados.

Com frequência, em vigília ignoro o que faço e esqueço o que fiz durante o sono, assim, surgem confusões; ainda que pequenas sejam estas, arrastam consigo outras, que por vez, grandes são, com efeito, acordado em sonho, enquanto dormia, ou talvez, acordado esperando o sono, concebi estes versos:

 
Pode ludibriar nossos sentidos uma suave essência?

Sim! Pois ao ouvir o perfume da tua voz, não me contive!...

Ou confuso fiquei, por momentânea perda de consciência.

 

Se confuso estava, poderia sentir o doce gosto de tua pele, se pudesse tocá-la!

Não! Confuso não estava; pois, sei que dos sonhos, tu não vens!

Mas, se dominas o meu sono, o que contigo devo fazer, em vigília, para ti dominar?

 

Assim tenho vivido, ou antes, quando acordado não estou, assim tenho sonhado.

Resta-me para sair deste desarranjo mental, consultar meu coração.

Mas, só posso fazê-lo, ou antes, só poderia fazê-lo, se ele não estivesse deprimido!

 

Inertes, desanimadas, indiferentes, são as vítimas da depressão!

Assim não estou, logo, hei de me ver reagindo.

Sinto que meus sentidos, ainda que desorientados, não fazem calar meu coração.

 

E ele, tão forte pulsando, adormecido não pode estar.

Pois, que valha por regra!

- Um coração que não se rende ao sono, motivos tem para querer nos despertar...

 

Pois que assim seja, estou de olhos bem abertos, para senti-lo no meu peito, falar.

Que fale, pois, para ouvi-lo com atenção, atentos estão meus ouvidos.

 

Mas, se possível for, que fale antes, o coração da minha amada, pois, em seu peito, dúvida nenhuma hei de encontrar.

 

* - Da pena do meu queridíssimo Cervantes, saíram estas inferências ao meu amantíssimo “Cavaleiro da Triste Figura”.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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