Os olhos de Lucinda - um conto de Natal...

 

Há bons anos tornara-me padrinho de batismo de uma pequenina e frágil recém-nascida, Lucinda é o seu nome.

Enquanto a minha afilhada está a crescer, deixemos aqui grafados outros capítulos de um tempo que bem no passado ficou; estes sustentarão outros pares seus que a esperar ficarão...

Quando tínhamos sete anos de idade, o pai de Lucinda - que naturalmente, ainda não o era -  e eu, nos tornamos colegas das primeiras letras; estivemos juntos por três anos consecutivos; depois deste tempo, nos separamos; ele continuou na mesma escola, e eu me mudei, inclusive de cidade. Depois deste tempo passado, passados trinta anos, e há vinte anos, nos reencontramos. Naquele momento, ele estava casado há sete anos; tornara-se marceneiro de mãos cheias, mas, vazia estava a sua casa, uma vez, que filhos não concebera a sua esposa, muito embora, para tê-los, a medir esforços não estavam.

Estreitamos o nosso convívio, meu ex-coleguinha de escola e eu; pude então, acompanhar de perto o grande desejo e esforço do casal para se tornar pais. Depois de muito empenho, uma sentença médica, de vez, frustrou-lhe a esperança, pois, à esposa disse de forma intempestiva e inconsequente, um médico:

- A senhora jamais poderá se tornar mãe!

Ledo engano fora tal afirmação, pois, tantas mães há, sem nunca ter parido... Estas foram as minhas palavras diante do desânimo daquele casal amigo.

Para grande alegria de todos, quase nada demorou; naquele lar, ouviu-se o choro duma criança recém-nascida; meus amigos adotaram a linda Lucinda de olhos verdes...

Se ao tempo pretérito voltamos, agora, ao presente retornemos:

Nos dias de hoje, minha afilhada tem dezoito anos de idade; os completou em setembro próximo passado. A cada ano desde que nascera, com todo carinho, dou-lhe no mínimo três presentes em três momentos especiais, quais sejam no dia do seu aniversário, no dia das crianças, e no dia de natal.

Dias antes do último natal próximo passado, meu compadre Olimar - este é o nome do pai de Lucinda - disse-me:

Tenciono dar a minha filha e afilhada sua, neste Natal, um presente de grande valor, para tanto, não disponho de verba suficiente; penso que você poderá ma emprestar.

Respondi-lhe:

Para este fim, dou-lhe o quanto você precisa; e a mim nada ficará a dever; também eu, no dia de Natal, em sua casa, estarei presente, a levar o meu presente, porém, de valor bem menor.

Deu-se aquela noite de natal - a do ano próximo passado - e lá, não fosse um imprevisto, vistos seríamos, minha esposa e eu, entre muitos das famílias dos pais de Lucinda: avós de um lado e outro, tias e tios, sobrinhos, enfim, por conta do bom velhinho, a casa tornara-se cheia.

Só ao terceiro dia deste ano, o que está a se findar, para dar lugar ao próximo, pude me encontrar com a minha afilhada. Sim! Aquela menina de olhos verdes que por tanto gostar de se ver, se visse nesta tela, alguém a descrever-lhe a imagem, mais vaidosa ficaria... 

A ser assim, vejamo-la:

Lucinda tem dezoito anos de idade - dito já fora - cultivados sem estremas, sob o carinho e desvelo dos pais, do pai, especialmente.

É meiga, é inteligente, é muito estudiosa, contudo, não menos vaidosa. Quanto ao seu olhar, ou antes, quanto aos seus olhos, tenho isto para falar: seus olhos são capazes de encantar o olhar de quem os vê, para em seguida, atrai-lo para dentro de si, desbota-lo, e por fim, pôr fim às esperanças suas...Talvez, para descrevê-los, já deveria mudar estas últimas palavras, e o farei, se mas emprestar dentre as suas, o meu amigo Joaquim:

Seus olhos “traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.” *

Entreguei-lhe o presente - um smartfone, o mais novo lançado, se velho e desusado não se tornou na semana que o comprara - em seguida, lhe perguntei:

Que presente seu pai lhe deu?

- Você sabe, meu pai é aquele antiquado de sempre, para não dizer imbecil, pois, na noite de Natal, disse-me:

- Pelos seu lindos olhos verdes, Papai-noel pediu para eu lhe entregar este par de brincos de esmeralda.

 

* - Estas palavras entre aspas, são do meu queridíssimo amigo Joaquim Maria Machado de Assis

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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