Se sãos são os meus pensamentos...

 

Se meus filhos fossem cachorros, não lhes daria diferente tratamento; trato, naturalmente, dispensado a eles, o mesmo não poderia ser... Cachorros? Sim! Ainda que eu saiba: Se eles tentassem sê-lo, selariam uma grande frustração, pois, por maior desejo que tivessem, naturalmente, não alcançariam êxito, mas, por estranho gáudio seu, por tais, por traz de seus rostos humanos, muita vez, que de máscaras lhes servem, passam.

Se sãos são os meus pensamentos, sã está a minha mente, demente, logo não estou; a ser assim, logo mais, ou até neste instante - o que melhor haverá de ser - ou ainda em qualquer tempo que brevemente há de chegar, hei de admitir que aos olhos de quase todas as pessoas, tão somente sob o jugo do extremado ócio, ósseo parágrafo - o que antes deste está - poderia ter concebido.

Por ter domínio sobre este espaço onde deito minhas letras, ou antes, onde as deixo de pé e à ordem, antes que outrem ninguém possa rosnar, justifico-me pelo que já dito fora:

Tenho três filhos, ou para ser mais explícito, e de explicações maiores me livrar, digo: gerei três semelhantes meus. São dos dias de hoje, ainda que concebidos fossem há pouco mais de três décadas. Se não são esses de ontem, quando não ignoram, desprezam o que só do passado bem poderia sustentar o presente; a ser assim, se família e sociedade andam juntas, ou antes, se antes, vêm as famílias, e se se desmantelam estas em suas bases ruídas, ruirá a sociedade do provir que por vir ainda está...

Falemos às claras:

- Que é da sua bênção meu pai?

Pai pouco se ouve; houve tempo que mais se ouvia. Não se pede bênção - Deus lhe abençoe meu filho, com efeito, vê-se menos.

- Pai, o senhor...

Sumiu o senhor, desapareceu o papai; o pai está órfão, pois, se se perdeu esse pronome, até que adormeça no Senhor, não há quem possa  reencontra-lo.

- Pai, sê tá por fora há tempo; eu é que tô por dentro; dá um tempo!

Esqueceram-se, ou jamais souberam que “as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro*” que por eles passamos, e poucos não foram, quase nos cindiram o juízo, portanto, se para entrar em um canil estou por fora, de fora dele quero ficar...

- Canil?

Reveja o título deste texto, e veja, ao menos, os dois últimos parágrafos do mesmo, que se sequem:

Em respeito aos meus filhos pouco mais direi, pois, muita vez, destes ao receber suas visitas, abanam os seus rabos para mim... Quando então, por gosto, ao me fazer presente entre eles, lhes retribuo com o meu carinho; não só lhes ofereço carne boa, naturalmente, não desossada, a compor mesa farta, mas, mais fausta cama deixo-lhes à disposição; ainda assim, apesar deste fiel zelo que peso nenhum me traz, em situações semelhantes, contudo, não frequentes, meus rebentos a rosnar mostram-me os dentes, entrementes, não lhes jogo pedras, não lhes dou pontapés; pé ante pé, deles saio logo de perto...

Querem os incautos filhos, tratamento mais carinhoso que este, que aos cães é dado, pelos prudentes humanos?

 

* - Da pena do meu queridíssimo Cervantes, saíram estas referências ao meu amantíssimo “Cavaleiro da Triste Figura”.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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