O Ermitão Berthier

 

Conta-se ainda hoje, em certa região, onde estive há tempo, que há trinta anos, pouco mais ou menos, apareceu por lá um homem com seus quarenta anos de idade ou até mais. Era de pele clara; alto; muito magro; cabelo e barba longos já com alguns fios de prata. Tudo que trouxera de pertences, não passava das roupas que no corpo usava naquele dia, ainda assim, rotas algumas e sujas todas. Se portava algum documento, ninguém deu com olhos em cima; se tinha alguns trocados, gastou-os todos, pois, tão logo chegou àquele lugar, muito comeu, não menos bebeu água, e tudo pagou. Em seguida, refugiou-se em uma grande lapa que se encontrava localizada em um sítio bem próximo daquela povoação. Esse homem estranho, de nome desconhecido e origem ignorada, ao embrenhar-se naquela gruta, ali permaneceu por nove dias, sem mais comer e nada beber. Por não dar sinal de que ainda vivo estava, foi procurado, e encontrado desfalecido.

De início, tomado por morto, em seguida, foi reagindo aos poucos, e quando novamente encontrou a vida, de novo, quis voltar à gruta à procura da morte. O povo, para afugentá-la, foi depositando do lado de fora da caverna, toda a sorte de víveres: frutas várias, bolacha, salame, ovos crus e cozidos, leite e queijo, latas de doce, e ainda outros alimentos. Nenhum cheiro, nenhuma cor desenfurnava o homem. Novamente, quando a morte já lhe comera quase toda a carne e disposta a lhe roer os ossos estava, a vida, mais uma vez, o despertou; então, ele aos poucos, foi lambendo algum tanto de leite, mastigando alguma fruta, e bebendo muita água. Quando este, cor foi tomando, tomou conhecimento a gente do lugar, de que ele só se alimentava de água, frutas e leite. Com isto, as pessoas, todos os dias, deixavam à entrada da gruta, sobre uma grande pedra, que lhe servia de jirau, toda qualidade de frutas e não menos que dois litros de leite; água ao seu alcance estava, pois, quase que aos seus pés, pois corria à sua porta um veio d’água.

Questão de dias, não mais que mês, após sua chegada, a tal criatura, não sabemos de que forma, fez chegar à sua loca o vigário daquela paróquia. Conversaram muito, e por muito tempo. Todo o assunto ficou atado ao Sacramento da Penitência. Assim, tudo que o padre pôde dizer aos curiosos, foi: este homem chama-se Berthier!

O povo, logo em seguida, deu-lhe por prenome o nome - Ermitão - com isso, ficou batizado o estranho, por “Ermitão Berthier”, que menos estranho ao léxico daquele povo, não era. 

Dizem os cronistas da época que, depois de cinco a dez dias após aquele encontro, voltaram à gruta o padre e o juiz de direito daquela comarca. Naquele momento, deram-lhe muitas folhas de papel em branco, alguns lápis e um par de vestimentas igual ou muito semelhante às túnicas usadas por alguns religiosos. De mãos vazias e bocas trancadas, saíram de lá, o sacerdote e o magistrado.

Não se sabe, ao certo, quanto tempo depois desse último encontro, Berthier deu à luz sua primeira composição poética; porém tem-se com certeza, a data do nascimento dela, que foi no dia onze de fevereiro de mil novecentos e sessenta e cinco, numa tarde de quinta-feira; de lá para cá, chegando aos dias de hoje, a cada dia onze e vinte e dois de cada mês, ele mostra ao sol um novo e pequenino poema, que uma grande história, muita vez encera.

As diminutas composições chegam às mãos do povo através do Cartório de Títulos e Documentos. O texto recebe uma chancela única e segura que lhe garante a autenticidade antes de ser divulgado, em seguida, ou em qualquer outro tempo hábil, podem ser entregues a cada interessado que as queira, mediante o pagamento de uma pequena taxa. Ficou determinado pelo juiz de direito daquela época, o meritíssimo Sr. Otaviano Gomes e Alencar, que nenhum poema, poderia ser reproduzido ou transmitido por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico) ou arquivado em qualquer sistema ou banco de dados sem a permissão escrita dele próprio ou de seus sucessores. E duas outras condições foram impostas pelo próprio Ermitão Berthier: todo ganho advindo dos pequeninos textos deveria ser revertido integralmente, ao asilo de idosos daquela localidade; poderiam ser vendidos pelo cartório apenas os sete últimos editados; de tal forma, que ao ser publicado o oitavo, o cartório suspenderia a divulgação do primeiro.

Essa última exigência nunca foi bem justificada, contudo, jamais foi desrespeitada. Berthier já escreveu setecentos e dezessete textos. Durante todo este tempo, seu lápis ficou mudo durante trinta dias para expressar o pesar pela morte do Dr. Otaviano. Dizem que só o nosso vigário, o padre Júlio, tem todos os escritos do Ermitão.

No decorrer de todos esses últimos trinta anos, ele conversou só com o padre Júlio; e penso que ainda o faz nos dias de hoje, porém em momentos raros. Por tão excêntrico e singular comportamento ele - o Ermitão - tem despertado nosso interesse desde que lá chegou; dá motivo às especulações várias para nós e às outras gentes de outros lugares. Conjecturas com maior ou menor base têm sido feitas; as mais razoáveis se apoiam em seus próprios textos; e a mais difundida, ainda que um tanto vaga, dá conta de que ele é um homem culto, e que através de um convívio social intenso, durante seus quarenta primeiros anos de vida, adquiriu um cabedal cultural acadêmico, sem desprezar o empírico, muito consistente. E é quase que certo, graduou-se na área de humanas. Curiosíssimo é saber que sua vida, a despeito de ter tornado-se estanque há trinta anos, ainda assim, manteve-se atualizada, e isso podemos ver através de sua obra literária. Retira-se das embaçadas dúvidas apenas uma certeza cristalina: ele está em reclusão voluntária naquela lapa, há três décadas. 

Resumindo o curioso, para não dizer indiscreto pensamento das pessoas e falando por todas elas, posso dizer-lhes assim:

O que pode levar um homem à decisão tão extremada? Decepção amorosa? Talvez... Desilusão com o mundo? Pouco e muito pouco provável. Suas histórias embora possam não falar nada de sua própria vida, não corroboram esta pressuposição. Será tão somente a escolha de uma vida mística brutalmente radical? Pode ser esta a causa, mas há, aí também, a mescla da dúvida. Há aqueles que o tem como escritor desencantado quando ao Olimpo subiu em busca de sua musa, ou encantado por outra, porém malvada; os que assim pensam, alegam que os deuses negaram-lhe talento ou se algum dia lho facultaram, foi quebrado pela tal musa cruel. Os que saem em sua defesa, afirmam que suas histórias precisas e concisas são muito boas, e não empatam o tempo do leitor. Gente houve que lhe atribuiu enfermidade rara e incurável que o levou a uma clausura perpétua, mas bastaram poucos anos para desfazer tal suposição, pois, a assiduidade do seu lápis, confirmava a sua boa saúde. E há ainda, aqueles que o tomam por um terrível criminoso; tendo praticado atrocidades imagináveis e mesmo alguma, quando não, várias inimagináveis, exilou-se ao lado do arrependimento, na esperança de expiar seus pecados só perdoados por Deus. Que explicação poderá dar-nos esse homem metido nesse buraco há anos? Ao certo, nada temos, nada sabemos, porém, cá fora, as pessoas fazem suas suposições que alimentam a curiosidade inconsequente, e ele, lá dentro, no seu pequeno mundo, vai vivendo de forma frugal e bem nutrindo  estas mesmas pessoas, com sua penas, ou antes, com o seu grafite.

 

PS - O senhor Dr. Antônio M. Torres, magistrado da pequena comarca, Aurora, no estado do Paraná, por concessão pessoal, deu-me seis cópias suas, autenticadas pelo cartório, das “historinhas” do Ermitão Berthier editadas entre 11/07/1994 e 22/09/1994, e por autorização expressa sua, pude inseri-las neste sítio. Está aí, o porquê de ter eu publicado quatorze e não só as minhas oito cópias.

Se desejar vê-las todas, pode fazê-lo à página principal deste mesmo sítio, em “METÁFORAS”.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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