O legista e o crítico literário

 

O legista e o crítico literário são dois profissionais que têm em comum, ou antes, espera-se que tenham, quando em atividade estão, não os mesmos instrumentos de trabalho, mas o mesmo empenho, a mesma perspicácia, a mesma tenacidade; para não consumir espaço, ainda que virtual seja este, ou por que deles não me lembro, embora saiba que existem, deixo de grafar outros tantos substantivos próprios, que bem caracterizam o labor destes dois profissionais. Por mais convergentes, no exercício de suas profissões, que sejam estes dois trabalhadores, os fins almejados por um e por outro, se divergem inteiramente, senão, vejamos:

Ambos, o médico legista e o crítico das “letras”, friamente necropsiam os seus respectivos objetos de trabalho, quais sejam o frio corpo humano que inanimado está, e o morno livro que ânimo deseja encontrar.

A faina destes trabalhadores é áspera, áspera ainda mais se torna aos olhos de quem tolera assisti-la.

Ele, o médico, faz uma incisão cirúrgica no sentido longitudinal em toda a extensão ventral do cadáver; com habilidade singular, retira-lhe as vísceras todas; disseca separadamente, cada uma delas, avaliando todas as suas possíveis alterações que possam denunciar a causa mortis daquele que vida tivera; em seguida, do morto, abrindo-lhe a caixa craniana, retira-lhe todo o conteúdo, ou seja, o cérebro; este minuciosamente, há de ser também examinado. Após todo este procedimento, ao morto, podem ser, ou podem não ser devolvidos os seus dilacerados órgãos para maior ou menor deleite aos vermes. Para lhe restituir a forma original que antes da necropsia mais o humano vivo lembrava, o seu ventre e caixa craniana são preenchidos com serragem - restos mortais de um vegetal que vivo também fora - Finalmente, suturadas e bem lavadas as grandes feridas cirúrgicas do morto - se é que àquele a quem à vida deram-lhe termo, este termo usado - ferida cirúrgica - ainda mais não lhe fere - aos vivos da sua família, ele retorna.

Bom! E a faina do crítico literário? Dito antes já fora. É muito semelhante ao trabalho imediatamente acima, descrito.

E quanto às divergências que há entre um e outro, ou seja, entre estes dois profissionais, por buscar um as causas que nulificaram a vida, e as que poderiam validá-la de vez, buscar o outro?

O profissional médico legista com empenho máximo há de quer detectar a causa que do vivo ceifou a vida. Se êxito não tiver, por imperícia, por negligência, ou, por simples falta de interesse, grande mau não fará esse, pois, o morto nada mais haverá de ganhar, uma vez que a vida perdera.

Quanto à necropsia dos livros, se com a dos defuntos comparada for, por menos cruenta será entendida; entretanto, há de mais critério exigir, pois, querendo o profissional crítico literário detectar as causas pela quais um livro quer sobreviver, ainda que a custo, o êxito sempre deve ser perseguido, de outra sorte, muito maior mau, por danosa consequência, virá; pois, assombrando os leitores vivos, o livro que morto deveria ficar, vivo continuará para maior deleite às traças, ainda que algum contentamento possa dar aos incautos leitores...

 

PS - Se houver divergência, entre legista e crítico literário, por conta desta comparação entre o ofício de um e de outro, que não culpem o médico, e que não me recriminem...

 

Meus textos podem sobreviver; mas, para tanto, quando à mesa fria de um crítico forem, se forem... Além de um bisturi e perícia, olhos benevolentes hão de encontrar...

 


PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

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