Nemo potest esse felix sine virtute*

 

O homem, por vocação, é um ente religioso, pois, de Deus provém, e para outro Ser diferente Deste, não há de caminhar; com efeito, ele - o homem - é moldado para viver em comunhão com o seu Criador, no qual há de encontrar a felicidade. Se é assim, para tão grande bem almejado, ascendermos, basta acendermos a chama da fé que tão bem ilumina o caminho que nos conduz a Ele; e ele, o caminho, é único e só é alcançado na medida em que buscarmos as virtudes, pois estas compõem a pavimentação deste mesmo caminho. Portanto, a inclinação à virtude é uma disposição essencial, firme, constante e até quase que veemente do homem em busca do bem. Cultivando-as encontraremos a felicidade. A ser assim, podemos interrogar:

Por que poucas, ou até pouquíssimas pessoas, são felizes?

A resposta está contida nesta mesma interrogação, ou seja, “poucas, ou até pouquíssimas pessoas querem se voltar às virtudes”.

A virtude é uma disposição habitual para fazer o bem. Dá à pessoa não só os meios para praticar atos bons, mas permite que esta dê o melhor de si. “O objetivo da vida virtuosa é tornar-se semelhante a Deus” **. As virtudes humanas são atitudes habituais dependentes da razão que regulam nossos atos, ordenando nossas paixões; propiciam, assim, facilidade, domínio e alegria para que levemos uma vida moralmente boa. Ser um ser humano virtuoso é praticar, livremente, o bem; a ser dotado de razão, o ser humano é por isso semelhante a Deus, logo, há de ser senhor de seus atos.

Na prática das virtudes, enquanto caminhamos para Deus, vamos executando o nosso auto-projeto-humano. Nossa caminhada é contínua e infindável, pois somos uma realidade essencial e momentânea em execução.

Considerando as virtudes sob uma orientação pedagógica, podemos classificá-las da seguinte maneira:

 

VIRTUDES CARDEAIS

 

Denominamo-las de cardeais pelo fato das demais outras, se agruparem em torno delas. São virtudes cardeais a PRUDÊNCIA, a JUSTIÇA, a TEMPERANÇA e a FORTALEZA.

Falemos separadamente de cada uma delas:

 

PRUDÊNCIA é a virtude que dispõe a razão a discernir, em quaisquer circunstâncias, nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizá-lo. Ela não se confunde com a timidez ou com o medo. É chamada auriga virtutum***, porque conduz as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida. É a prudência que norteia imediatamente, a nossa consciência, ou seja, é a prudência que nos delega, previamente, a faculdade de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados, quando não, antes de ser realizados. Graças a esta virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e superamos as dúvidas sobre o bem a praticar, e o mal a evitar.

 

JUSTIÇA é a virtude que consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao nosso próximo o que lhes é devido. Para com Deus a justiça chama-se “virtude de religião”. Para com o nosso próximo, a justiça nos dispõe a respeitar os direitos de cada um e a estabelecer nas relações humanas, a harmonia que promove a equidade entre nós, os filhos de Deus.

 

FORTALEZA é a virtude que nos dá segurança nas dificuldades, firmeza e constância na procura do bem. Ela firma a resolução de resistir às tentações e superar os obstáculos na vida moral. Esta virtude nos torna capazes de vencer o medo, inclusive o da morte, que com frequência, é o que mais nos atemoriza; ainda, é a fortaleza que nos dispõe força para suportarmos as provações e as perseguições.

 

TEMPERANÇA é a virtude que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade. A pessoa temperante há de orientar para o bem os seus impulsos, e guardar uma santa discrição, pois assim, Deus nos admoesta - “Não te deixes levar por tuas paixões e refreia os teus desejos”****.

Falemos agora, das virtudes teologais, assim chamadas, porque têm a Deus por objeto imediato e principal, e é o próprio Deus quem no-las infunde. Referindo-se diretamente a Deus, uma vez que elas O têm por origem, motivo e objeto, estas virtudes fundamentam, animam e caracterizam o nosso agir moral. Elas informam e vivificam todas as virtudes morais. São infundidas por Deus em nossa alma para que nos tornemos filhos Seus e ao cultivá-las, possamos alcançar a vida eterna. São elas a Fé, a Esperança e a Caridade.

Falemos, pois, separadamente, de cada delas:

 

VIRTUDES TEOLOGAIS

 

é a convicção inabalável de que Deus existe, ou seja, ao concebê-Lo, dispensamos quaisquer tipos de provas ou critério objetivo de verificação, pois temos a absoluta confiança que Ele está entre nós. Por isso o fiel procura conhecê-Lo e fazer Sua vontade.

 

ESPERANÇA - É um sentimento inerente e fundamental para nós humanos. Assumimos naturalmente uma atitude de confiança no futuro, ou antes, de espera confiante em algum evento futuro, mesmo se houver indicações ao contrário. A esperança torna-se humana, quando está fundada em nossos próprios cálculos e torna-se divina, quando está fundada na palavra de Deus, nas Suas promessas e, sobretudo, na Sua graça. A virtude da esperança responde à aspiração de felicidade colocada por Deus em nossos corações. Protege contra o desânimo; dá alento em todo esmorecimento comum a todos nós quando esperando estamos.

 

CARIDADE ou ÁGAPE - É o amar o próximo como a si mesmo, ou antes, para elevá-la à quintessência própria da sua natureza, melhor, é assim dizer: “é o amar o próximo tal qual o Cristo nos ama”. 

O exercício de todas as virtudes é animado e inspirado pela ágape, que dá a forma para todas as outras virtudes, articulando-as e ordenando-as entre si. A ágape assegura e purifica nossa capacidade humana de amar, elevando-a à perfeição sobrenatural do amor divino.

“A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa; não é arrogante; não é escandalosa; não busca os seus próprios interesses; não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa; tudo crê; tudo espera; tudo suporta” *****

No lugar de “tudo desculpa...”, podemos pôr “tudo perdoa”; assim, melhor compreendemos que “tudo perdoar” é “perdoar tudo”, e “perdoar tudo” é ato próprio daquele que ao seu próximo, amor maior devota, e esta é a forma mais sublime e segura de alcançarmos a nossa própria liberdade; é tão absolutamente valoroso “o perdoar”, que ele beneficia primeiro aquele que perdoou, para depois alcançar o perdoado, senão, vejamos:

Quando perdoo alguém, ao fazê-lo, eu me liberto simultaneamente, ao praticar este ato, de uma amarra que tolhia o meu ser; em seguida, posso livremente ouvir falar daquela pessoa que magoado, deixo-me; escutarei seu nome próprio sem que este me cause desconforto; a recordação da ofensa que tanto me deixou constrangido, já não mais me incomodará; enfim, perdoar alguém, é, antes de tudo, reconstituir o meu direito de ser livre... Com efeito, fica bem claro: “Ao perdoar, eu sou o primeiro a ser beneficiado com este ato que é a expressão máxima da caridade”.

As virtudes humanas, frutos da razão, são cultivadas pela educação, e sobretudo, pela autoeducação, mas com a prática habitual da “virtude de religião” e pela graça divina, podemos purificá-las e elevá-las.

Não é fácil para o homem ferido pelo pecado, manter o equilíbrio moral. O dom da salvação, trazido por Cristo, concede-nos a graça necessária para perseverarmos na conquista das virtudes. Cada um deve sempre pedir esta graça de luz, recorrer aos sacramentos, cooperar com o Espírito Santo, seguir seus apelos de amar o bem e evitar o mal.

A prática da vida moral dá ao cristão a liberdade espiritual que só os filhos de Deus alcançam.

Diante das considerações acima, façamos ainda uma última.

Já dissemos que o homem é uma realidade essencial e momentânea em execução.

As virtudes humanas se fundam nas virtudes teologais que adaptam as faculdades do homem para que possa participar da natureza divina.

Estas mesmas virtudes fundamentam, animam e caracterizam o agir moral do cristão; vivificam todas as virtudes morais; são infundidas por Deus, na alma dos homens para torná-los capazes de agir como seus filhos, e merecerem a vida eterna.

 “A finalidade de todas as nossas obras é o amor. Este é o fim; é para alcançá-lo que corremos, é para ele que corremos; uma vez chegados, é nele que repousaremos” ******.

Para a execução deste auto-projeto-humano, para alcançarmos a dignidade entre os semelhantes nossos e ainda, para maior brilho darmos ao nosso próprio valor absoluto, devemos colocar as virtudes no lugar mais elevado entre todos os valores a serem conquistados.

  

*            - Sem virtude ninguém pode ser feliz!

**          - Fragmento do fac-símile de São Gregório de Nissa.

***        - Auriga virtutum = (“cocheiro”, isto é, “portadora das virtudes”).

****      - Cf. Eclo 18,30

*****    - 1Cor 13, 4-7

******  - Sto. Agostinho, in ep. Jo., 10,4.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

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