Ela num vorta mais pra casa.

 

A pequenina história que mais abaixo se encontra, está contida em uma maior - Uma grande cavalgada - Entrelaçam-se com essa, oito outras, quais sejam:

 

A “morte” do Zuzinho

A morte da boneca de pano

A morte de Olinto

Eu sou o poeta Vaga-lume

Que tal escolher um abutre?

Quebraram a dormência da jovem paixão...

Subtraíram meu anel de grau

Vá, e faça tudo para que nos reencontremos

 

Para relata-las, serviu-lhes de preâmbulo indispensável e necessário, o mesmo que há de servir a esta história, que agora se segue:

 

Ela num vorta mais pra casa

 

Preâmbulo 

 

Caro leitor, a história que seus olhos vão colher nestas páginas, teve sua origem há dez anos. É até possível que já de início, as suas primeiras linhas lhe causem enfaro, contudo, à medida que o texto evoluir, ou os seu olhar das minhas palavras não desistir, as letras não lhe quebrarão a vigília, com efeito, logo você verá o epílogo.

Quanto aos reais personagens, novamente os batizei, visto quererem o sossego do anonimato; constitui exceção o nome Sirlei, pois se fosse só para atender aos caprichos da ficção, ainda assim, da minha querida esposa não conseguiria desejar nada diferente, nem mesmo o nome, portanto, uma vez inscrito no meu coração, que da mesma forma, fique escrito no papel, ou antes, nesta tela.

Quanto a mim, carregando fosco verniz de escritor, sou apenas um fiel transcritor dos fatos.

Você haverá de ler uma pequenina história que é parte de uma maior - Uma grande cavalgada - que fora feita toda a cavalo, às terras ainda não vistas por mim, e que não durou mais que 53 dias; curto período, porém, longo o suficiente para modificar inteiramente o curso restante da minha vida. Por este tempo, eu tinha quarenta e oito anos de idade que não me davam alento; tinha dúvida quanto ao meu futuro, tinha certeza que não conseguiria retocar quase meio século de vida mal vivido, e se pudesse fazê-lo, estaria ocupando-me com o passado, deixando assim, de viver o presente, e sobretudo, renunciando ao meu futuro, ainda que incerto. Temendo a aproximação do ocaso de meus dias, desesperando da terra, caí em depressão, ou talvez, deprimindo-me, desesperei do céu; então, me dispus a fugir; fugir de quem? E para onde?

Morava no sudoeste, mas, em busca de um norte para a minha vida, busquei o sul do nosso país; determinado em executar a minha fuga, porém inseguro quanto ao desfecho, convidei três outros amigos meus para me acompanharem. No decorrer dessa jornada, deparáramo-nos com tantas conjunções entre vida e morte, miséria e abundância, sofrimento e alegria que estas nos deram um novo sentido as nossas existências.

 

À pequenina história caminhemos:

 

Já estava o sol com sua pálida e indecisa luz a ceder às estrelas, o firmamento, quando estávamos bem próximos de uma pequenina cidade, São José da Bela Vista.

Durante os nossos três últimos dias de marcha, não houve nada digno para ser registrado nesta página; mas, antes de irmos adiante, à cidade; para fazer justiça à natureza, não deixando que lhe atribua o dever de só produzir o belo e o perfumado, vou contar-lhe uma triste história envolvendo-a, envolvendo não aquela natureza que se manifesta gerando a vida em toda a sua exuberância, mas, sim, a misteriosa natureza da morte que aniquila essa, ou seja, a sua irmã siamesa - a vida.

Faltavam trinta quilômetros, pouco mais ou menos, para chegarmos àquela cidadezinha, São José da Bela Vista. Cansados, resolvemos pousar por ali mesmo. Andando alguns passos à frente, à beira do caminho, encontramos uma modesta casa de gente muito humilde a quem pedimos pouso. O dono da casa, seu Antenor, um tanto acanhado, acolheu-nos.

Repetimos o rito de sempre, que antecedia ao nosso descanso, ou seja, o de dar antes, descanso aos nossos animais; assim, desaparelhamos a tropa. Em seguida, tomamos banho e fomos jantar. Jantar para ser muito apreciados, pois a comidinha pobre fora temperada com a rica simplicidade dos da casa que nos abrigara!  

Olinto desde que tivera o “encontro” com São Lucas, aos pouco ia tornando-se um novo homem. A cada dia, o velho médico desocupava mais espaço em seu próprio coração para acomodar melhor o novo facultativo. Sua disposição para o bem se tornara espontânea e contínua. Quando lhe faltavam às mãos as ferramentas do seu ofício, ainda assim, ele procurava com gestos e palavras, dar conforto aos que a ele recorriam.

Talvez, dona Elvira, esposa do seu Antenor, percebendo este seu novo caráter do meu cunhado, fez-lhe um pedido, após nos contar esta história:

- Seu dotô, quando o sinhô chegá lá na sua cidade, dá um jeito de arrumá otos documento pra minha fia. Tão logo pronunciou estas palavras, seu marido lhe disse:

- Elvira, não começa qüesse assunto, pelamor de Deus, já ti falei, tira essa histora da cabeça!

Pedimos a ele que deixasse a esposa falar, queríamos ouvi-la.

- Óia, continuou a mulher, vai fazê treis ano que aconteceu um acidente qua minha fia e o namorado dela. Êz tava vindo pra cá, aí, uma kombi bateu no fusca dêz. O namorado dela machucô muito a cabeça. Êz fala quele quebrô o pescoço, mais ele morreu na horinha, mais ela num machucô nadinha de nada desse mundo; mais aí, êz levô êz lá pru emiele; aí, trosse pra cá; êz ficô aqui; eu falei quela num tava morta; ninguém quis creditá; me deru remédio forte; num vi mais nada. adispois, eu sei quêz interrô ela.

Durante esta conversa, a princípio, esta senhora tudo fazia para o choro não lhe afogar as palavras, com isto sua voz se entrecortava, sai-lhe dos lábios trêmulos, embaraçada, como que se prendendo na garganta; mas, quando disse estas últimas palavras acima, ou seja, “eu sei quêz interrô ela,” não mais se conteve, derramou-se em lágrimas.

- Mais eu sei, continuou dona Elvira, minha fia pruveitô quando o povo foi imbora, e que o cimento tava fresco. Foi cum jeitinho puxando a terra até saí. E agora, eu sempre sonho qüela, e ela tá ca ropa toda chuja me pedindo pra eu arranjá otos ducumento prela. Seu num arrumá os ducumento, ela num vorta mais pra casa. Eu tô contando essa histora prosseis é pra modi o sinhô me ajudá arrumá esses ducumento.

Se o juiz dexá eu abri a sipultura, oçeis vai vê quela num tá lá dento do caxão.

Diante daquela mulher, estávamos muito comovidos. Seus olhos tinham o brilho vivo da esperança, mas, suas lágrimas a traiam, pois deixavam escorrer pelo rosto abaixo, daquela pobre criatura, os vestígios de uma mente insana...

A grande aflição daquela mãe era de atar as mãos, travar a boca e apertar o coração.

Olinto, coitado! Com os olhos rasos d’água voltou-se a ela e disse-lhe:

- Quando levaram sua filha para o IML, ela foi examinada por um médico; eles têm aparelhos para verificar se a morte ocorreu mesmo; eles tentam ouvir as batidas do coração, apalpam o pulso, examinam os olhos e podem fazer até outros exames.

Há muitos anos, quando não havia estes recursos da medicina, algumas pessoas foram enterradas vivas, mas, hoje não já não é mais possível acontecer este terrível engano; sua filha morreu mesmo, e o médico fez um exame especial para descobrir a causa da morte; para tal exame, foi necessário abrir-lhe o corpo...

Neste momento, disse a mulher com toda veemência:

- Dotô, o sinhô tá muito enganado, a ropa dela num tinha nem um sugim de sangue; eu já falei, e o sinhô também num qué miscutá!

- Sim, eu acredito na senhora. Mas, quando fazem este procedimento - o de verificar se a pessoa está morta ou não, depois, eles lavam bem o corpo do cadáver.

Dona Elvira pareceu conformar-se. Sabíamos que seria passageira a melhora, mas, ainda assim, ficamos um pouco contentes, mas não o suficiente para consumir o nosso desapontamento...

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

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