O Senhor das pedras...


Por estar desassossegado pelo inquieto desejo de lhe mostrar o céu - nosso teto cintilante - estou a crer que um preâmbulo, para bem exercer o seu ofício, deve ser mais curto que um primeiro capítulo que precede os demais outros das histórias; a ser assim, inicio uma destas, depois de conceber um desses; e faço-o com vantagem, pois ele haverá de ser muito abreviado para que não seja aniquilado por você, ou por outrem ninguém, logo, sem demora, veja meu bom intento.

 

Preâmbulo

 

Pelo ingênuo exercício de ser criança que juntos praticamos, dois outros meninos e eu nos tornamos grandes amigos; pela profissão exercida, dois outros adultos e eu nos tornamos três bons colegas; pelo revés que por pouco, ou até por menos, quase nos separou, um de nós, diante de uma enfermidade grave, lutou a favor da vida por longo tempo, e a tempo, salvou-se.

Certo dia, este amigo e eu, quando já há meses o risco de morte que lhe ameaçara, foi apagado, entendemos de tirar férias juntos; entendemos de conhecer uma parte da América - a Andina - andando a pé. Por ser bem exequível o projeto, não nos faltavam forças, motivação tínhamos de sobra, pois, pela graça de Deus, o nosso trio continuava formado pelos três amigos de sempre.

Foi assim que da cidade de São Paulo, a cruzar os ares, pisamos em Lima no Peru - naturalmente, depois de no chão, ficarem apoiados os nossos pés - de lá, por terra e sobre rodas, chegamos à cidade de Nazca. Nosso plano que executado haveria de ser, fora alcançar a “Cidade perdida dos Incas”, Machu Picchu.

Tão logo chegamos ao nosso ponto de partida - Nazca - contratamos um jovem, Laércio, era este o seu nome, e para grande contentamento e não menor surpresa nossos, era ele mineiro, não das minas que mina no Peru ou no Chile a saúde dos seus trabalhadores, quando não, com escombros resultantes do Cobre, cobre, muita vez, as suas vidas... Ele era das Minas Gerais do Brasil; assim, para nos acompanhar, ou antes, para nos dar apoio durante esta jornada que seria grande, melhor pessoa não poderíamos encontrar. Conduzir em sua motocicleta todos os nossos petrechos indispensáveis para os nossos acampamentos, seria a sua missão; só muito bem poderia cumpri-la, pois o seu trabalho, há oito anos, o levava à Machu Picchu ao lado de turistas.

A partir de Nazca a passar por Puquio, Chalhuanca, Sañayca, Toraya, Tintay, Pichirhua até Ambacay caminhamos onze dias. Cada uma destas cidades, de si mesma, um tanto nos contava; mas, mais interesse nos despertava a última que nos esperava, Machu Picchu.  A percorrer este trajeto, feito naqueles onze dias, a cada passo que dávamos, perdíamos mais o fôlego, diante da natureza que para nos mostrar os belíssimos feitos do Divino, feitos nas alturas, rarefazia o ar, para nos cobrar um ônus que a cada instante, tornava-se mais pesado. 

Quando chegamos em Ambacay, ao hospedarmos em uma pequena pousada à beira do caminho, já de início, nos disse o proprietário:

- Vocês andaram muito! Até que cheguem ao seu destino, restam-lhes cento e vinte e seis quilômetros, e que serão os mais custosos para suas pernas bambas comandadas pelos seu pulmões frouxos. É comum oferecermos, e bem aceitos são, os nossos animais de montaria que bem aliviam o cansaço aos turistas que por aqui passam; assim, com muito mais facilidade, vocês podem galgar os quilômetros restantes desta caminhada, logo, deixo-lhes à disposição nossas cavalgaduras.

Você leitor, com suas pernas bem descansadas, se cansados não estão seus olhos, o epílogo desta história você verá, verá ainda, que maldita foi a hora quando cada um de nós trocou o seu par de pernas bambas por quatro patas firmes de equinos.

Aqui se finda o preâmbulo que por pequeno descuido meu, ou por grande cuidado desta história, bem pode passar por primeiro capítulo, a ser assim, por acreditar na dúvida, desconfio da minha primeira intenção expressa no primeiro parágrafo deste texto, qual seja "...estou a crer que um preâmbulo, para bem exercer o seu ofício, deve ser mais curto..." logo, o quanto antes, denominemos de Segundo Capítulo o restante desta história:

 

II Capítulo

 

Depois de oito horas de marcha, agora no lombo de mulas, e já ao anoitecer, acampamo-nos à beira de um grande lago; desaparelhamos a tropa; jantamos; logo em seguida, envolvidos pelo silêncio da noite, deitamos. O céu, nosso teto cintilante, convidou-nos a contar suas trêmulas sentinelas, e eu as contei, ou antes, tentei fazê-lo: uma... Duas... Três... Quatro... Dez... Quinze... Vinte e... O sono a quem paciência não falta, veio chegando bem aos poucos... Bem devagar... Bem devagar... Pisando de mansinho... Suavemente... Ainda que necessário não fosse, ele - o sono - contou: um, dois, três... Fechou meus lábios, me cobriu com seu manto, e foi manter a sua vigília ao lado dos insones... Só fomos acordar quando o sol se despertou, e as estrelas foram repousar.

Bem de manhãzinha, tomamos a estrada. Tão absortos estávamos com os últimos bons acontecimentos, que deixamos quase que por conta das nossas montarias a responsabilidade de nos levar ao nosso destino; entretanto, por muito chão faltar, não nos faltariam novos sucessos. Um deles causou-nos surpresa de início, depois, um pouquinho de contentamento e findou-se, deixando-nos muito desapontados. Ei-lo abaixo:

Após fazermos bons quilômetros em marcha, não nos acontecera nada digno para registrarmos nesta página, mas, por volta das onze horas, saindo um pouco fora da estrada, paramos em um pequeno descampado que era dividido, ou talvez, unido por um pequenino córrego. Faríamos ali o nosso almoço. Afastei-me um pouco do local, onde Laércio montara a trempe. Andando coisa de cinquenta a oitenta metros à frente, algumas pedras enormes, em conjunto e isoladas, chamaram-me a atenção; fiquei olhando para uma e outra; eram esculturas disformes que foram talhadas não por um cinzel divino, mas, creio que moldadas e polidas pelo vento foram, a mando do Grande Arquiteto do Universo. Julgo que, no princípio, quando a lava vulcânica ainda presa nas entranhas da terra, querendo ver o calor do sol, ao se derramar na superfície daquela que a prendia, aprisionou em sua garganta incandescente, para alimento próprio, o ar; então, o vento, desejando resgatar seu irmão menor, começou o seu lento e eterno trabalho de corroer aqueles blocos malconformados; a rocha, bem querendo aquele afago, ainda assim, não se preocupou com o tempo; pois quando o vento chegava, por ele, ela estava a esperar, quando ele partia, ela ficava tranquila, pois, brevemente, ele haveria de voltar, então, ela continuava envolvida por sua eterna espera... Eu, com os olhos desocupados e o pensamento livre, estava diante das verdadeiras e únicas testemunhas oculares da história. Para mim, elas - as pedras - se apresentavam como entes esquisitos e vivos; digo assim, porque ao olhá-las, ia sem muito esforço, identificando criaturas descomunais e não tão inertes, pois, delas retirando meus olhos, para logo em seguida, a elas voltá-los, percebia que suas feições pétreas algum tanto perdiam a rigidez...

Enquanto eu dava rédeas à imaginação, aproximou-se de mim um senhor montado a cavalo, sem que eu percebesse de onde saíra. Disse-me o estranho:

- Quem deu ordem para vocês entrarem em meu pasto?

de início, estranhei a denominação dada àquele sítio tão pedregoso, pois, naquele local, crescia, quando não mal sobrevivia, tão somente uma escassa vegetação arbustiva entre as pequenas frinchas das pedras, como que, unindo-as; e no chão desprovido de rocha e falto de umidade, vegetava aqui e ali uns fiapos de macega rala e crespa. Tudo isto pensei em tempo menor ao que se gasta para ler as palavras deste último período que leva você; tanto foi verdade que dei ao cavaleiro, quase que simultaneamente à pergunta sua, a seguinte resposta:

- Não vejo pasto, vejo pedras e mais pedras; não vimos cerca divisando nada; estamos apenas a descansar; vamos almoçar e seguiremos nossa viagem em paz.

Estas minhas palavras afrouxaram um pouco o ímpeto daquele estranho homem; digo estranho, referindo-me à sua aparência grotesca, e também por jamais ter visto antes figura tão alta e magra. Com dúvida, lhe daria trinta e cinco anos de idade, com certeza, não lhe daria quarenta; esta criatura que de onde saíra - já disse - não saberia dizer, trazia à cabeça, que sempre abaixada se postava, um chapéu preto de copa afunilada e abas largas; sua tez morena ou tisnada destacava-lhe os olhos miúdos e inquietos; nariz e lábios finos davam-lhe delicadeza ao rosto, ainda que um tanto abafado por uma barba ruiva e cerrada que bem alcançava palmo e meio de cumprimento; usava vestes de pano encorpado e encardido; cobria-lhe as canelas polainas de couro grosso e pintado vermelho vivo; sustentada pelo braço direito, mantinha em riste uma longa vara guarnecida com uma aguçada ponta metálica. Esta criatura, se não causava temor, não deixava de suscitar algum humor, ainda que mórbido fosse.

Laércio aproximou-se, estendeu ao estranho, a mão; este, a ignorar o cumprimento, e até a presença de quem lho oferecia, não retribuiu a saudação. Laércio desconcertou-se e, já ficou de olho no homem...

Enquanto Olinto e Tobias - estes são os nomes dos meus colegas - se aproximavam, o estranho, modificando um pouco o que falara, disse-lhes:

Antes de ouvir esta criatura singular, ouça-me, pois, entre parênteses tenho que falar de Olinto:

Olinto é meu cunhado, é médico apaixonado pela ciência. Homem de quarenta e seis anos de idade; de estatura mediana; cabeça bem conformada para guardar pensamentos nobres; tem olhos pardos e grandes, que dificilmente vagam a esmo, pois quase sempre estão descansando no infinito ou ocupando-se dentro de si mesmos.  Cultivando uma ascese profana* com dose moderada de adubo, é cauteloso no agir, módico ao falar, e pródigo ao ouvir. Desse modo, muita vez, mantém a boca fechada, disciplinando a língua e modulando o sorriso. Para ser mais humano, tem lá seus brotinhos de egoísmo e que, com o passar dos anos, tanto podem crescer ou minguar...  Perecer, creio que não fariam...

Olinto pouca importância dá às coisas da fé, para não dizer que as ignora todas. Olinto é geneticista. É professor universitário, oferece assistência médica gratuita a uma instituição de crianças excepcionais; comunica-se de forma singular com os deficientes auditivos. Aqui está um dos meus grandes companheiros desta jornada!

Voltemos à estranha fala do estranho ente:

- Vocês não podem ficar aqui! Querem ser minhas alpacas? Saiam logo daqui, este é o pasto do meu rebanho! Olinto, com sua habilidade médica, entendeu logo: estávamos diante de um siso trincado. Tentou equilibrar a conversa, perguntando-lhe pelo nome. O pobre desatinado respondeu-lhe:

- Não tenho motivo para lhes declinar o meu nome! Saiam logo daqui! Sou capaz de transformar quaisquer pessoas em pedras, e logo em seguida, transformá-las em alpacas; é assim que aumento o meu rebanho.

Ouvindo tamanho disparate, Olinto o acompanhou, dizendo:

- Vamos sair logo, não tínhamos consciência deste grande perigo que nos ameaça. Não queremos virar pedras, ou melhor dizendo, não queremos nos tornar alpacas suas! Em seguida, deu sinal ao Laércio para que juntasse nossos pertences. Laércio, torcendo o pedido de Olinto, entendeu que este mofara do estranho, então, despregou uma larga e estridente gargalhada. O homem percebendo a postura jocosa de Laércio, caminhou para o seu lado com o intento de agredi-lo.

Neste momento, por acaso ou por desejo alheio à razão, se é que esta há nos quadrúpedes, travessou entre estes os dois homens, uma das nossas mulas. O estranho, vendo que o animal peara-lhe o gesto, meteu-lhe o ferrão na virilha com toda a sua força; com a pancada, a mula a escoicear, ficou muito assustada, e não menos ficamos nós. Laércio, muito desgostoso, foi logo dizendo:

- Seu desgraçado, espere aí!

O homem, sem nenhuma pressa, tal qual chegara, foi saindo a passos lentos e oblíquos.

Laércio, tomado de ira, voltou-se para mim e disse:

- Eugene, dexeu oreiá esse miserave? Vô inchê a cara dele de manguarada, nóis não vai aceitá um disaforo desse tamanhão sô!**

Tive trabalho para conter a agitação de Laércio, mas a contive.

Ficamos tristes. Aquela agressão repentina deixou-nos pasmados; não almoçamos; recolhemos “nossos trem” e voltamos à estrada, muito desapontados e não menos calados...

“As ideias boas e o precioso conhecimento, muita vez, ficam perdidos em algum dos corredores estreitos e escuros da nossa memória; mas, as impressões calcadas em nossas mentes, por feitio próprio, têm que ser indeléveis, logo, ficam arraigadas para sempre nos salões iluminados também da nossa memória; a ser assim, amiúde, as más - as más impressões - que gostaríamos de esquecer para sempre, a aflorar-se nos torturam em forma de lembranças”.

Por esta ilação que entre parênteses deve ficar, refiro-me ao episódio em que nossa mula saiu machucada e os nossos sentimentos esfolados. 

Um dia depois que esbarramos com aquele desvairado, a mula amanheceu mancando; foi mancando, mancando até ir ficando para trás. A ferida infeccionara-se, tornou-se um enorme abscesso; tivemos que deixá-la “de ribada” *** em uma chácara à beira do caminho. Perdemos nossa mula de coice!****

Depois que fizemos duas marchas, Olinto, percebendo que continuávamos aborrecidos por conta do mal-afortunado acontecimento, falou-nos:

- Precisamos compreender o que nos aconteceu: estivemos envolvidos em uma contingência e não nada mais foi que isto... Esteve diante de nós, um pobre coitado, escravo de uma enfermidade mental de difícil controle e muita vez, incurável; aquele homem via, entre tantas rochas, uma pastaria farta e verdejante; suas alpacas não eram outras, senão as próprias pedras, e nós, em outras tantas poderíamos ser transformados - assim realmente ele pensava - Creio que tivemos sorte, e ele, culpa nenhuma tem, pois não se encontra cônscio de si mesmo; não tem às mãos, as rédeas da sua própria razão, portanto, esqueçamos do infortúnio e marchemos avante...

Se as palavras de Olinto não dirimiram todas as nossas dúvidas, amainaram todos os nossos sentimentos.

A seguir nossa jornada, Tobias nada mudara, ou seja, sua cavalgadura continuava conduzindo-o livre de seu comando dele; Ele no seu calado silêncio, talvez, por muito compreender o homem, não se sentia um ente humano diferente dos demais semelhantes seus. Olinto, desde o fato recente que nos deixou constrangidos, ou seja, o nosso funesto encontro com o Senhor das pedras, andava quase que só na ribada; ele, que tão pouco falava, agora ainda menos conversava; mantinha-se introspectivo; bem poderia estar passando por uma salutar e reservada metamorfose...

Bons passos andamos, correram bons minutos, ou até horas; Olinto continuava circunspecto, eu, sentindo-o também muito triste, encurtei as rédeas da minha mula, diminui a marcha, e fui fazer-lhe companhia.

 Ao lado dele, andei por um bom tempo; novamente tomei a guia da comitiva, quando então divulgamos ao longe, alguém a cavalo; estava em nossa direção e vinha de encontro a nós.

 Foi aproximando-se um senhor idoso e magro, cavalgava um animal que talvez fosse novo, mas, no peso, não deixava de competir com o seu próprio dono. O viajante foi reduzindo a marcha de sua alimária até que parasse; sem afetação, cumprimentou-nos com reverência, tirando da cabeça prateada um chapéu esfarrapado; com grandes olhos e pequenas palavras, admirou nossa tropa, e, sem nada mais dizer seguiu em frente. Andou alguns passos e deteve-se diante de Olinto que estava a metros e mais metros atrás de nós; puseram-se a conversar e foram estendendo a prosa até que eu, curioso, fui escutar ou entender a essência de tão longa conversa. Ao chegar, peguei o assunto do meio pro fim; neste momento, dizia o velho:

 - Moro aqui desde que nasci, tenho pra fora de setenta anos, não conheço outras terras, mas estas brenhas contaram-me muitos segredos, à frente do passado, posso ver o futuro.

 Estas palavras nos deixaram um tanto atônitos, quando não incrédulos. Como se não bastasse, o velho voltou-se para Olinto e disse-lhe:

 - Moço! O senhor, à frente, e haverá de ser breve, encontrará o que a procurar não está...

 Nosso espanto foi sem medida, quase perdemos o rumo; Olinto não conseguiu dissimular seu embaraço, anuviou-lhe o rosto, a emoção por pouco, não conseguiu embargar-lhe o choro. Tão grande foi nossa admiração que nos travou a voz. O velho não tendo mais nada para falar, ou desejando nada mais nos revelar, retirou o chapéu da cabeça e com as duas mãos o segurou unido ao próprio peito, ergueu os olhos ao céu, pronunciou algumas palavras, ainda que não as ouvíssemos, julgamo-las próprias para ele e para o momento; em seguida, apertou sua cavalgadura nas esporas e seguiu viagem.

 Por alguns instantes, ficamos pasmados olhando aquela criatura tomar distância; depois, calados por uns bons minutos, ainda sem saber o que falar e sem encontrar o que pensar alcançamos a comitiva.

 Olinto e eu tínhamos várias dúvidas e eram comuns a ambos; por ter sido assim, melhor foi evitar indagações intempestivas, portanto, deixamos que o silêncio continuasse falando mais alto por um longo período; mas, num dado momento, disse-me o meu cunhado:

 - Veja você Eugene! Encontram-se néscios por toda parte! Nos últimos seis dias andando por esses ermos, não encontramos nenhuma vivalma, quando não, aparece-nos esse demente caduco; ele falou de maneira genérica; suas afirmações serviram para mim, bem poderiam servir para você, ou para outro qualquer, encontrariam ressonância, visto que há sempre alguém que sem esperar, com alguma coisa inesperada pode se deparar! Mais um pouco de conversa sem pé nem cabeça, ele nos envolveria com suas crendices, deixando-nos sem saber onde apoiarmos o chapéu!

 - Olinto! Olinto! Toma tento Olinto! Comentei.

Eu? Se a contento, esta narrativa conduzo, conduzira-me confuso naqueles idos dias...

 Olinto quase sempre a caminhar atrás do grupo, vez por outra se adiantava, trocava alguns gestos com Tobias, jogava uns dois gracejos amarelos para Laércio, e, às vezes, dava-me um sorriso descorado para logo se recolher à retaguarda, e ainda, em outros momentos, recolhia as rédeas de seu animal, virava-o como que quisesse voltar, mas deixava aos olhos o regresso, ou antes, tentava iludir o coração que à frente não deveria seguir...

 Em um destes momentos, em que buscava a dianteira, emparelhando-se a mim, disse-me:

 - Eugene, como você interpretou a conversa daquele idoso, já com o juízo desgastado, quando me dissera: “Moço! O senhor, à frente, e haverá de ser breve, encontrará o que a procurar não está...”?

Respondi-lhe:

Conforme, está a me dizer, trata-se de um idoso que já não sabe bem o que está a falar.

Coitado do meu cunhado! Ouviu o que pouco lhe valeu, continuou sombrio, continuou exigindo da razão uma resposta! Olinto ainda não entendia que há interrogações à razão que não são ouvidas, podendo nos dar respostas a elas, tão somente o coração.

 - Eugene! Disse-me, sinto que estou prestes a receber um novo alento para o meu viver, vejo operando em mim, mudanças que me darão um outro norte; este sentimento me é estranho! Mas, por vez, percebo que vou mesmo dar à minha vida uma nova direção.

 Senti em suas palavras uma sonoridade própria da linguagem de um alguém que começava a encontrar a paz.

Continuei:

Olinto! Nós com os pés sobre a terra, ainda assim, pouca coisa sabemos deste mundo; quanto ao céu, nem mesmo podemos tocá-lo, logo, menos ainda podemos penetrar em seus mistérios; refiro-me à sua pergunta que fez a mim, há poucos minutos; embora não tenha bem compreendido o que dissera aquele senhor; tenho razões para acreditar que algo especial lhe acontecerá, e para sabê-lo, temos apenas que aguardar, e creio que não será por muitos dias.

Já lhe falei sobre minha experiência vivida há algum bom tempo; bem sabe você que, graças a ela, morreu em mim o homem velho, portanto, tenho dentro de mim, viva, uma nova vida!

 Olinto, por bem conhecer-me, bem compreendeu a minha referência; ainda assim, nada falou, deu sinal de que gostaria de caminhar sozinho; entendendo-o, apertei***** um pouco mais, a minha mula, e ganhei a dianteira.

Ao anoitecer daquele mesmo dia, Olinto encontrava-se bem mais disposto ao viver; via-se-lhe em todo corpo, o brilho de um novo homem; horas depois, viu-se-lhe no rosto a palidez da morte, pois brutalmente, ceifou-lhe a vida, um infarto agudo do miocárdio, que não lhe deu tempo nem mesmo para nos ver desesperados...

 

* - Profana nesta acepção significa ascese que não se apoia em religião ou crença definida, contudo, só nas coisas do Alto, seguro apoio encontrava Olinto.

** - Caro leitor, observe bem a pronúncia do Laércio; você notará que se trata de uma notável e rica linguagem regional, própria do matuto natural, especialmente, dos nossos Gerais.

*** - Deixar “de ribada” no linguajar caboclo significa deixar para trás, abandonar.

**** - Mula de coice é aquela que, quando em conjunto com a tropa, estando em serviço, ocupa a retaguarda e permanece nesta posição durante toda a jornada.

***** - (Apertei) Apertar nesta acepção significa apressar ou seja: “Apressei um pouco mais a minha mula.”

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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