Se Tempo não há, há o Devir, que de vir, jamais deixará...

 

Se neste momento, tiver tempo à leitura deste texto, aproveite-o agora, pois se quiser fazê-lo depois, encontrará tempo e motivação diferentes...  

 

Tempo, ente que supomos existir, não há! A ser assim, o que pode significar: por um curto período de tempo, ou, há muito tempo, ou ainda, vamos viver o presente? Há mais exemplos, mas não os buscarei, pois, para fazê-lo, não tenho mais tempo a perder...

 Ah! Veja que tempestivo é aquele que pelo Tempo quer passar! Confiante em sua essência, deu-me a sua licença para anunciar a sua ausência eterna...

Agora, que no passado já está, poderia você dizer:

– Agora não continuarei a ler este texto, o farei depois!

Se esperar que chegue o “depois” para continuar esta leitura, está a perder o seu tempo, logo, logo, ou em qualquer momento, o esperado não se fará presente, pois o futuro a todo momento, salta o presente para justificar a sua própria falta no passado... a ser assim, leia o quanto antes, as minhas palavras restantes.

Se Tempo não há, há o Devir, que de vir, jamais deixará, pois este não tem o poder de mudar o seu próprio curso, visto que o Porvir por vir ad aeternumestá... Assim é, e diferente jamais deixará de ser, pois, se diferente fosse, eu, por minha vez, mais de uma vez, de uma mesma fonte de correntes águas, água única beberia...

Consideramos o tempo uma criatura, ou antes, pensamos que podemos geri-lo, logo, logo, ou quando nos aprouver, o dominamos; assim, o vemos como frágil ente, ou até mesmo, vemos nele, um semelhante nosso, assim é que, como tal, um princípio e um fim, não deixará de ter, a ser assim, em um determinado momento, haverá de se extinguir.

Isto atrevo-me a declarar, sem receio de enfrentar contestação de alguém:

Se tão somente sobrevém o Ser subsistente por Si, há razão de ser o tempo?

Nenhuma há, logo, a justificar tão antigo equívoco, plausível há versão?

Sim, a eversão do ente humano que doente está a ser é a única justificativa que esse enfermo tem a criar o tempo, e o faz da seguinte forma: concebe o Presente, que para ser tempo, tem necessariamente de passar ao Pretérito, logo, como podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? Não convencido que a tal concepção, não há base, gera o Futuro pra afastá-lo do Presente...

Assim é o tempo que nós concebemos e queremos que subsista; assim é que o tomamos por ente real quando só o é da razão; e assim, mais uma vez, interrogo-lhe: 

Do Não-ser, qualquer coisa decente, descende?

Não! Penso que não, mas, penso antes, que não tenho maior certeza, logo, talvez possa ser! A ser assim, damos a ele uma característica particular - sua existência há de ser fragmentada - isto é, os elementos que o compõem - Passado, Presente e Futuro - necessariamente, devem ser descontínuos entre si, hão de parecer isolados, incomunicáveis.

Neste momento, por imposição deste texto, abro um primeiro parêntese, que ao se justificar, justificará um segundo, ou até outros, caso necessários sejam; vejamo-lo:

“A abrir parêntese, amiúde quebra-se o texto que julgamos carente de reparo; e ao fazê-lo, muita vez, subestima-se o raciocínio de outrem, ou remenda-se o nosso próprio que fora puído”; sob esse, e não sob aquele efeito, é feito aqui, por ser necessário, um remendo. Entre estas letras, o faço pela primeira vez, mas, já o fizera antes em outros lugares; e caso seja imperativo, para conservar o hábito velho, de novo, em algures, fá-lo-ei. Pois bem, sem constrangimento, tolere este parêntese que se segue, pois o faço, por minha conta, logo, logo, ou desde já, estou a remendar o meu próprio raciocínio que fora trincado.

“Após este parágrafo que está em curso, incurso ficará o seguinte nas regras que orientam o uso da segunda pessoa do singular, pois, singular atenção, a esta sempre dei, logo, secundária jamais a considerei, assim, longe das vistas de terceiros, vou estruturar sob aquelas regras, o parágrafo que virá imediatamente após este que está a findar:”

Tem paciência! Continua lendo-me; se o fizeres agora, ou deixares para fazê-lo depois, ainda assim, o farás no passado, mas, em qualquer tempo, poderás compreender as minhas razões, pois se me ouvires neste momento, aonde já não mais estou, pois ao Pretérito já passei, entenderás que estou a te dizer: “Minha voz irá contigo!”*

Continuemos fora dos parênteses e sem atenção dar as suas regras:

O Passado já não existe mais, pois já se sucedeu, deixou de ser; o Futuro, para sê-lo, naturalmente, haverá de se tornar porvir, logo, por vir ainda está; e quanto ao Presente? Este não passa de um virtual instante do próprio tempo, sem nenhuma duração, pois, só está predeterminado, embora contenha todas as condições essenciais para que não exista; a ser assim, tentemos localizá-lo – o Presente – Podemos reduzi-lo a um momento menor, para trazê-lo a este instante, e em seguida, novamente, tomando este novo momento, podemos fracioná-lo em fragmentos ainda menores... E assim, à medida que conduzirmos esta faina ao infinito, ou seja, à medida que buscarmos partículas cada vez menores do próprio Tempo presente, chegaremos a um instante tão ínfimo, tão efêmero, cuja duração tornar-se-ia insignificante, tão insignificante que nada valeria ao se tornar o instante final do Presente mesclando-se com o instante último do Passado.

Quando disse: Tempo não há, há o Devir, que de vir, jamais deixará, pois este não tem o poder de mudar o seu próprio curso, visto que o Porvir por vir ad aeternumestá...... se em minha defesa, outra pessoa, a você, desejasse provar que minhas palavras acima estão corretas, teria êxito, se não puder fazê-lo, pois você que está a ser, outra pessoa será a cada instante, uma vez que já não mais o é... A ser assim, considerando que aquela pessoa, você e eu, estamos sob uma incessante e permanente transformação, pela qual todos os entes se constroem e se dissolvem tornando-se outros entes, ou seja, cada ente que há, encontra-se em um infindável a “vir a ser”, deixemos que outra pessoa, veja por você, este último parágrafo:

Para nós, vivos humanos que somos, a razão de ser o tempo está na razão de ser a Morte, e é esta que nos impõe este mesmo tempo, que se existisse, criação sua – a da Morte – seria; com efeito, o tempo tornou-se a razão única da angústia humana... Nós só o aceitamos, porque dele necessitamos, pois se trata de moeda única quando em barganha com a sua Senhora – a Morte – paradoxalmente, temendo-a, ela faz com que cada instante nosso se torne um agente causador da expiração de nossas próprias vidas, portanto, nós vemos na existência, ou seja, na nossa vida, uma perpétua fuga, um permanente e inexorável desaparecimento. Afinal, para nós, nossa Vida é a via que trilhamos à Morte, pois que outra coisa fazemos em cada dia, em cada hora, em cada minuto, em cada segundo, e em cada instante, senão esperar até que expire o nosso último hálito de vida, para em seguida, nos depararmos com a Morte que jamais se move a rogos?

 

* - Lembrou-me recordar do meu querido amigo Milton H. Erickson

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita; se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção. 

 

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