Por mais um Real...

 

 Rico, um dos mais, pelo menos, no conceito dos amantes da matéria, ou, àqueles que sacrificam o ser pelo haver, não sou, pois, de bens materiais tenho quase que nada a ultrapassar o mínimo necessário para me manter imune aos efeitos da pobreza; digo quase, por que dele - do necessário mínimo - passa em volume e valor, um tanto mínimo, o meu patrimônio suscetível às traças. Assim, fácil foi adquiri-lo, uma vez que para adquirir além do necessário, o mínimo, mínimo esforço exige... Por assim ter feito, digo que por mais um Real, ou por menos um, fico na mesma, ou seja, não passo a ser rico, e a ser mais pobre, não me torno. 

Querido leitor, veja que as confissões, ainda que verídicas e sinceras, quando lançadas ao espaço virtual, não alcançam o espaço real, pois realmente, o mundo de tudo é diferente do mundo do nada...

Com este preâmbulo, bem justificado ficarei quando lhe contar a seguinte história:

Quando sou obrigado a caminhar pelos passeios públicos, vejo com olhos singulares a maneira ordinária do povo se conduzir em direção aos lugares, quando estes definidos há... Ou antes, quando, enquanto caminho, consigo me orientar para não ser notado pelos semelhantes meus, constato que o povo está - não digo estamos, graças a Deus - indo para muitos lugares sem saber o porquê de tão desenfreada caminhada...

Certo dia, Já que, realmente, sou de carne e ossos dependentes de real, a andar mais uma vez no meio do povo, que para mim, povo meu não é, me deparei com uma moeda de um real perdida por alguém, e por ninguém percebida, quando não ignorada. Tão logo ela brilhou aos meus olhos, o suficiente para se identificar, quisera minha incauta mão direita recolhê-la; para não frustrar o meu desejo, e não denunciar a minha pretensão, abaixei-me abruptamente, para acomodá-la em um dos bolsos meus - todos eles vazios da necessidade de se ocuparem com mais um real - Creio que ninguém viu aquele movimento tão veloz e suficiente para tomar posse daquele metal que alheio já mais não seria. Ninguém viu, mas, uma única pessoa precisaria ter visto, ou antes, precisaria ter previsto tão repentino expediente que logo à sua frente acontecera. Se tivesse previsto, ou em última instância, se visto tivesse, não teria caído da própria altura em detrimento da integridade do colo do seu fêmur direto.

Foi assim que me envolvi, ou melhor, por conta de mais um real, provoquei um acidente grave, que naturalmente, envolveu alguns alarmados espectadores que expectadores inseguros tornaram-se, em torno de uma senhora já bem idosa e desesperada com uma das pernas fraturada.

Desta vez, fui bem notado por todos, pois, sobrando-me apreço ao metal no bolso, logo, me tornei mais pobre por me tornar senhor de mais um real. A aquela miserável mulher bem notada se fez, pois, faltando-lhe destreza e cálcio no corpo, se tornou senhora de uma perna quebrada.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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