Seus doces olhos cor de mel...

 

 Ainda criança, ou pouco antes de sê-lo, pois, naqueles dias, há bem poucos dias nascera, fui à companhia dos meus avós, ou antes, levaram-me à companhia destes, para por eles ser criado. Criaram-me tão bem, que outros pais, em tempo algum, não desejaria ter. Quanto aos meus irmãos, os tive distantes do meu convívio, sob os cuidados daqueles que seriam meus pais se criado me tivessem, pois, em me gerar, talvez, só se ocuparam, quando não, por estarem desocupados, conceberam-me sem o desejar.

Minha avó sempre foi a minha mãe. Muito amiga de suas amigas, jamais deixara de ser; dentre elas, bem próxima de nós, estava a “Dona” Alzira - a “Dona” Alzira bordadeira - Assim, para lhe alcançar a amizade sincera, à porta de entrada da nossa casa, quando estávamos, bastava que à rua saíssemos; e se não mudássemos de direção, com poucos passos, batíamos-lhe à porta. Quando assim fazíamos, e com pouca frequência, deixávamos de fazê-lo, nos adentrávamos pelo mundo dos sorrisos, dos doces, e para mim, especialmente, pelo mundo dos seus netos. Minha avó sempre tinha interesse em visitá-la; a cada vez que o fazia, e não por menos de duas vezes por semana, por duas vezes justificava a visita: uma para rever a boa amiga, e a outra, para ver seus novos bordados.

Entre seus netos, os da “dona” Alzira, reinava muita liberdade e pouca disciplina, logo, maior razão tinha eu para estar sempre disposto a acompanhar a minha avó à casa da nossa boa vizinha. Lá, ao chegar, encontrávamos sempre a boa Dona Alzira entre as linhas coloridas suas, eu em seguida, às entrelinhas dos olhos da minha avó, eu voltava minha atenção, pois dali sairia a ordem que me autorizava ir da sala ao quintal, aonde estavam os meninos, todos a pintar e a bordar... Por lá ficávamos por algum tempo. Este tempo era sempre curto; não ganhava comprimento, ainda que longo se tornasse, à custa da longa conversa das amigas...

A variedade de brincadeiras não tinha tamanho! Assim, o desejo de ver aqueles bons momentos se arrastando, era frustrado quando de volta à nossa casa, minha avó me arrastava. Eu ia, mas, ia para voltar, pois por muitos outros vindouros dias de ouro, esperávamos meus colegas e eu.

Houve um especial dia em que fui às brincadeiras; ao chegar, já estava lá, uma nova criança com quem antes não contara. Contava com mais ou com pouco menos dez anos de idade, a netinha que viera visitar a avó. 

Eu sempre fora tímido, ainda mais fiquei quando fiquei deslumbrado com seus cachos de cabelos dourados. Nada vi, naquele momento, que não mais lento fora que o brilho de uma centelha, além dos seus doces olhinhos cor de mel iluminando todos os meus infantis sonhos; sonhos que ocupariam os meus futuros dias, ou antes, as minhas futuras noites de adulto. Depois de certo misto de recato e desenvoltura que nem me animava a aproximar-me dela, nem me induzia a afastar-me de vez, afastei-me. Mais uma vez, a acompanhar a minha avó, à nossa casa voltei; votei sobre as nuvens, quando das outras vezes, voltava sobre pés...

Já naquela noite, por não sair da minha memória a imagem daquela criança, tornou-se para mim, necessidade imperiosa descobrir alguma coisa que poderia me perpetuar também em sua memória. Pela manhã seguinte, quase que antes dos primeiros raios do sol alcançarem meus passos, estava eu à procura de um presente digno de ser entregue àquele anjinho. Achei-o finalmente, em uma loja; uma bela tiara, uma bela obra de arte feita de baquelita e ricamente ornada com pequeninas rosas confeccionadas em marfim. Mas como era caro aquele tal presente! Um preço muito além de todos os meus trocados juntos, juntados há anos! Querendo comprá-lo muito, e pouco ou até quase nada podendo fazer para obtê-lo, recorri a minha avó, dizendo-lhe:

Preciso de sua ajuda! Preciso, imediatamente, de Cr$ 320,00; tenho Cr$ 62,00, logo, quero que a senhora me dê ou me empreste Cr$ 258,00; não posso dizer o porquê de tal importância, contudo, é muito importante para mim, a sua ajuda; saiba que nada de reprovável tenciono fazer.

O que faria com Cr$ 320,00, às pressas, um menino de dez anos de idade? Creio que pensou a minha vovozinha!

A curta espera foi longa; contudo, tudo que desejava consegui, em minhas mãos estava o grande e desejado valor. Corri à loja, e vi-me logo de posse do custoso presente. Em seguida, para acompanhá-lo, compus o seguinte texto:

 

“Marta,

 

Vou sentir a sua falta! Volte, por favor!”

Lembranças do Weener.

 

Pelas mãos de um dos seus primos, chegou às suas - às mãos de Marta - o presente.

Pelo meu amável gesto, resposta não houve; houve notícias, dois ou três dias depois; depois de sua volta à casa de seus pais:

“Minha netinha voltou à casa dos seus pais; não sei quando aqui, voltará”. Foi tudo que ouvi Dona Alzira dizer à minha avó. Foi tudo que bastou para muito tristemente em minha mente repetir, o que escrevera:

“Volte, por favor!”

Não voltaria...

E por que haveria de voltar, se não vi nos doces olhos daquela criança, a esperança de rever os olhos cor de mel de uma moça a adoçar o coração de um moço?

Mudamos de casa bem antes que eu de Marta, me esquecesse bem. Bem depois de esquecê-la, minha avó bem distante de mim estava, ou antes, quando eu estava bem distante de minha avó, recebi dela, uma carta que dizia:

 

 

“Meu querido neto,

 

Dona Alzira - a avó de Marta - entregou-me uma carta, que lhe envio hoje.

Sinto sua falta; volte logo!

Um beijo de sua avó.”

 

Uma carta para mim? Uma carta de Marta? Sim! De Marta, mas não uma carta, e sim um encantador, ainda que minguado, bilhete.

 

“Caro amigo Weener,

 

Fiquei-lhe muito obrigada pelo presente que me dera.   

Talvez, nos vejamos!

Atenciosamente,

Marta”

 

“Caro amigo” - Formal expressão congelada pelo passado...

“Talvez” - Incerteza aquecida pelo presente...

Marta voltou.

Estivemos juntos, por vinte e oito anos!

Há um ano, seus doces olhos cor de mel, já não brilham mais...

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

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