O entregador de flores

 

Um jovem, que já de mãos dadas com a juventude, menos se via, possuía necessidades demais e experiência de menos que lhe exigiam um ganho financeiro próprio; impróprio julgou esperar que mais tempo passasse, logo, antes de completar a sua próxima primavera, se dispôs a encontrar uma ocupação que lhe remunerasse pelo feito; assim tornou-se entregador de flores. O trabalho era leve e oferecia espinhos escassos; abundantes perfumes à sua disposição, haveria de encontrar sempre.

Quem recebia as flores pelas mãos do jovem, muita vez, quando não, todas as vezes, eram mulheres que dividiam com as rosas, a mesma natureza; sem demora, o entregador de flores, logo sentiu espetando-lhe o corpo novas formas, com efeito, novos desejos encantaram-lhe...

O rapaz por tanto entregar muitas rosas, e entre elas, poucas flores, e menos ainda, cravos, entendeu de vender rosas suas, ou antes, lembrou-se de uma sua tia, que com singular carinho e vigilância, desde a sua mocidade, que num passado velho ficara, cultivava há anos, uma tal espécie de rosas que nas mãos de suas vizinhas interessadas em mudas, ainda que por troca ou compra, nunca caíam.

Sua variedade de rosas - a da tia - não tinha na cor e no perfume nada para torná-la especial; entretanto, de quem a colhia ou recebia, prendia a atenção; pois, os seus espinhos, ou melhor dizendo, os seus muitos e aguçados acúleos, muito se faziam notar, para uma pedúnculo tão frágil.

De maior destaque era mesmo a zelo da tia com o trato cultural dispensado às suas roseiras; ainda mais destacadas eram a coleta e as raras entregas a outrem, das suas rosas; pois, o destaque de nenhum acúleo de suas hastes, permitido jamais haveria de ser.  

Ainda da tia, continuemos falando, visto que para compreender as suas rosas, temos que alcançar os segredos seus, de destas e dessa...

O canteiro que servia de berço às rosas, era grande, muito bem cultivado, irrigado a contento, e, sobretudo, bem protegido; protegido tão bem que colhê-las ou até tocá-las, possível não era, pois a vigilância da tia era muito extremada: somente ela - a dona das rosas - lá entrava, e de lá, esporadicamente, pelas suas mãos, passando pelo mundo de fora, para o seu quarto, passava uma ou outra rosa, que de lá só saia bem murcha, quando não, quase seca.

Agora que conhecemos a mania da tia - moça beata - que das beatificadas não era, e sim, das que abraçam, ou antes, das que a contragosto, de braços cruzados, tornam-se celibatárias; se é que por inteiro, tornam-se todas, sem que nenhuma pétala se perca... De uma forma ou de outra, esta amante das rosas, poderia por estas, maior amor ter tido, ou amor mais perfumado a elas, deveria ter devotado; pois, ainda que muito as amasse e não menos nelas se espelhasse, capaz não fora de compreender que as rosas bem abertas, bem mais perfume exalam; assim, aquela tia moça mais se assemelhava a um botão de rosa não aberto.

De tia beata e de flores murchas pouco se espera... Logo, sem demora, às rosas, e àquele que as entregava, voltemos a nossa atenção. Ele tanto fez que depois de tanta insistência, arrancou da tia a autorização para vender algumas de suas rosas, entremeadas, ou melhor dizendo, ao lado das da loja, aonde ele trabalhava.

Assim foi: o rapaz na dependência do pedido feito à loja sua, ao sair para atendê-lo, passava pela casa da tia, e das mãos desta, recebia uma ou mais das suas enigmáticas rosas.

Ao entregá-las às mãos do sobrinho, a tia com toda veemência, não deixava antes de lhe fazer a seguinte recomendação:

- Veja que você está recebendo estas rosas das minhas mãos; saiba que jamais há de entregá-las diretamente às mãos de outra mulher; assim faz-se necessário que as próximas mãos a tocá-las, sejam de um homem; daí para frente, repassadas livremente para quaisquer outras mãos, poderão ser, ou seja, tanto mãos femininas quanto masculinas, poderão recebê-las depois de tocadas por mãos masculinas diferentes das suas.

Desvendado ficou o mistério das rosas da tia, ou melhor dizendo, revelado ficou o semi-mistério, se é que mistérios podem pelo meio, ser divididos... O jovem sem nenhuma importância dar à crendice da tia, ainda assim, se comprometeu a acatar as suas infundadas recomendações.

Em um dado dia, saiu o entregador de flores às entregas; algumas primeiras rosas da tia, nas mãos de alguns homens foram postas, estes para as mãos últimas de quem as comprou, as transferiu; assim foi feito o que muito lhe recomendara a tia. Sucederam-se outras semelhantes entregas; até que em dado momento, ao receber outro pedido, não encontrando desocupadas mãos masculinas para lhe atenderem, diretamente às mãos femininas entregou as misteriosas rosas. Por nenhuma diferença ter feito a desobediência às ordens da tia, outras muitas vezes, desobediente fora, e nada de nada diferente ocorreu... Assim, despreocupado, dispensou as masculinas mãos atravessadas entre as suas e as suaves e perfumadas mãos femininas.

E a tia? Pouco importava com o ganho pela venda de suas rosas, mas, muito se preocupava com a fidelidade do sobrinho ao entregá-las da forma, previamente, recomendada; logo, invariavelmente, perguntava das entregas e reiterava sempre as impostas regras sempre repetias: “Veja que você está recebendo estas rosas das minhas mãos; saiba que jamais há de entregá-las diretamente...”.

O sobrinho ouvia a tia, dava-lhe a sua parte pelas vendas das rosas, e o mais, nenhuma atenção dava-lhe.

Porém, houve um dia em que o entregador de flores, por ter das entregas anteriores, recebido muitas e seguras garantias, entendeu mais uma vez, de entregar as enigmáticas rosas, diretamente às mãos femininas de alguém. As mãos eram de uma moça, que talvez, por tanto desejar receber as já esperadas rosas, ou para da insistente campainha, se livrar, atendeu à porta com sinais que de um banho, às pressas, saíra; ainda assim, à porta foi com toda desenvoltura, envolta em uma fina veste branca de algodão que mal lhe cobria as pernas e bem lhe denunciava o colo úmido destacando-lhes os seios. Afoita que estava, ignorando o peso do olhar do entregador sobre o seu corpo que sob roupas leves estava, ou, por leviana ser, ao receber as rosas, um de seus acúleos feriu-lhe um dos dedo; ainda que superficialmente fora o trauma, sentiu de imediato, uma dor lancinante que não se conteve nos limites da sua mão, pois, imediatamente, se irradiando por toda a extensão do seu braço, veio alojar-se-lhe, incontinenti, na região axilar, causando-lhe um profundo mal-estar muito embora, muito passageiro; em seguida, a dor, quase que insuportável, deixando de sê-lo por completo, deixou à moça uma fugaz palidez cutânea generalizada, pois,  boa parte de seu sangue periférico, às pressas, se dirigiu a outro sítio para deixá-lo ingurgitado... Aquele “estar” súbito, bambeando-lhe as pernas, a forçou deitar-se ali mesmo, ao chão; tão logo se viu livre do risco da queda, a moça recobrando as cores, apresentou uma discreta sudorese que rapidamente, evoluiu para finos tremores que mais amplos tornaram-se, ao lhe atingir a região pélvica; com efeito, suas pernas de apoiadas ao solo que estavam, flectiram-se; em consequência, suas coxas delinearam entre si, um maior ângulo de abertura, pelo afastamento de um joelho do outro. Enquanto apresentava aqueles sinais intempestivos, sua respiração discretamente acelerou-se, destacando-lhe os mamilos, que agora, muito bem nítidos, se mostravam sob a fina camiseta. Ainda que fosse aquele “estar” passageiro, foi precedido por um pleno e generalizado relaxamento muscular que bem poderia estar lhe conduzindo ao sono.  

Não fosse o susto a calar os ouvidos do jovem que assistia aquela inusitada sena, bem teria ouvido da moça, gemidos assustados de prazer. O jovem diante da jovem acometida por tão velho e íntimo sinal de juventude, ficou estarrecido, mas não o suficiente para se embaraçar nas suas próprias pernas; assim, às pressas, saiu dispensando o pagamento pela entrega das rosas.

Chegando à sua casa, logo se deparou com a velha tia, que logo voltou às velhas perguntas, para velhas e desgastadas respostas ouvir.

Recompondo-se, o sobrinho dirigiu-se à tia dizendo:

- Jamais quebrarei minha promessa no tocante à entrega de suas flores, mas quero saber o porquê de tão incisivas recomendações suas, sobre a forma que devo entregar as suas rosas.

A tia, julgando o sobrinho digno de confiança após tantas respostas dignas, disse-lhe:

- Se você entregar, ainda bem que jamais o fará, uma das minhas rosas diretamente às mãos de alguma mulher; e esta, inadvertidamente, se ferir com um de seus acúleos, imediatamente, terá esta pessoa, um mal-estar, ou antes, um singular bem-estar tão intenso que será capaz de lançá-la ao chão. Se se desse isto, enfrentaríamos, você e eu, problemas sérios e vários!

Não bem terminara a tia esta surpreendente revelação, chamaram à porta pelo entregador de flores. Sua patroa - a dona da loja de flores - tão logo foi atendida pelo sobrinho e tia juntos, atropelando-se em suas próprias palavras, disse-lhe:

- Que rosas especiais são estas? Que dúzias e mais dúzias de mulheres, estão pedindo-mas, e exigindo entrega urgentíssima?

O semblante da tia que murcho há anos estava, deu sinais que não tardaria a secar...


PS - Quer que eu lhe mande uma destas rosas? É só pedir, mas não sem antes, mandar-me uns bons reais; pois entre gastos vários, pago Royalty à tia daquele imprudente entregador de Flores. Mas, antes de encomendá-las, não deixe de considerar que os seus bons efeitos produzidos, ficam na dependência de um ferimento acidental e não intencional, provocado pelos seus acúleos, e saiba ainda, que o superficial trauma se faz acompanhado de profunda dor, ainda que fugaz...

 
 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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