- Que entre, entre todos vocês...

 

Voltando-se à assembleia que se formara na sala contígua ao gabinete do meritíssimo senhor juiz, assim pronunciou o seu assistente:

- Que entre, entre todos vocês, apenas uma Palavra ou um Vocábulo que seja capaz de falar pelos demais, e mais silêncio, ou antes, silêncio absoluto devem fazer todos, neste juízo!

Em seguida, apresentou-se-lhe a Testemunha.

- Testemunha, é precipitada? Disse o Magistrado; respondendo-lhe, disse aquela Palavra as palavras seguintes:

- Meritíssimo, perdoe-me, por não bem entender a sua pergunta; o senhor quer saber se estou sendo precipitada ou se sou eu a Precipitada? Digo-lhe que sou eu mesma; para nosso bem, não está entre nós, a Precipitada, assim, sou eu mesma, e sou a representante maior daqueles que diante de Vossa Excelência, estamos; tenho entre todas as vozes, a mais imperiosa, logo, posso lhe assegurar, não estou sendo precipitada!

- Sim! Disse o juiz, melhor faria se tivesse assim dito: você não está sendo precipitada? A ser você a Testemunha, está a ser precipitada, pois em minhas mãos, não há prévia acusação que careça do seu testemunho!

- Entre a próxima! Deu sequência o assistente do senhor juiz. 

- Próxima! Você não deveria estar aqui! Exclamou o juiz.

- Meritíssimo, disse a Próxima, confirmou alguém da nossa assembleia, que Vossa excelência estava a me chamar.

Redarguiu o juiz:

- Já que você entrou de forma intempestiva, saia, puxe a porta e diga aos seus pares que me aguardem, pois, em seguida, lhes darei satisfação.

Em poucos minutos, saiu o juiz à assembleia e disse-lhe:

- Tenho em mãos uma lista de palavras e vocábulos que gostaria de encontrar entre vocês, logo, fiquem atentos à chamada; aquela ou aquele que estiver presente, presente diga; mas, antes, sublinho o que notei entre vocês, tão logo adentrei neste recinto:

- Vejo que há muitos lugares vagos para tão grande espaço desocupado! Dê-me depois alguma explicação alguém; e continuou o juiz:

- Vamos à chamada!

- Amor

- Benevolência!

- Brio

- Caridade

- Compaixão

- Decoro

- Ética

- Humildade!

- Moral

- Prudência!

- Pudor

- Solidariedade!

-

-

-

- Tolerância!

Apenas a Humildade que humilde fora mesmo antes de conhecer as primeiras letras, ergueu timidamente a mão, e a olhar ao chão, com débil voz disse:

- Presente!

- E qual o porquê desta sua presença única, entre todos, que por mim foram chamados? Disse-lhe o juiz.

- Sim! Vossa Excelência bem notou: entre as palavras e vocábulos declinados por Vossa excelência, apenas eu, encontro-me presente, respondeu-lhe a Humildade; e um tanto constrangida, continuou:

- Antes que a senhora prossiga, disse o juiz, ofereço-lhe a seguinte reflexão que virá em forma de interrogação, para a qual, não desejo ouvir a resposta...

- Conhece bem o verbo declinar?

E continuou a Humildade:

- Todos os demais que compõem esta lista, foram impedidos de participar desta assembleia. Disseram-me que se eu entrasse, ou não, diferença nenhuma haveria de fazer, logo, para aqui estar presente, nada me custou, ainda assim, logo, logo, ou o quanto antes, hei de ser notada...

À ajuda desta última Palavra quis falar a Eloquência:

- Nossos pares, ou antes, estes párias, que entre nós, não deveriam estar, quiseram impedi-la de participar desta nossa reunião.

Julgando também com o direito de fala, a Arrogância em conluio com a Imprudência interpelou o juiz, dizendo:

- Meritíssimo! Queira nos dar a seguinte explicação: a ferir o bom senso, fundou-se em que, para inferir a ausência, entre nós, da Justiça? Pois Vossa Excelência, nem mesmo a mencionou!

- Entre todas estas palavras e vocábulos que não estão presentes, presente poderia julgar que estivesse a Justiça?  Se me enganei, tanto melhor, pois neste caso, o engano acerto haverá de suscitar; a ser assim, convoco de imediato, a Justiça.

Depois de longo silêncio só tolerado pelo senhor juiz em nome da Benevolência e da Solidariedade que ausentes estavam, surgiu entre todas aquelas palavras e vocábulos presentes, um tanto insegura, a Justiça, quanto então voltando-se ao juiz, lhe disse: 

- Senhor! Estou aqui para lhe servir de instrumento...

O juiz a conservar a sua habitual serenidade, disse:

- Pois bem! Ouça a senhora e todos os presentes:

- Ao considerarmos a infinitude do universo, nele não podemos reivindicar nenhum lugar o qual, possamos tomar posse exclusiva, pois, nada mais que um espaço virtual nos é reservado por um tempo fugaz, entre os nossos semelhantes, logo, considere que:

Entre uma palavra e outra, à outra, há sempre espaço disponível.A ser assim, ainda lhes digo:

Se outro tribunal estivesse eu a presidir, tão somente diria:

Por motivo explícito e óbvio, determino a suspensão deste julgamento, até que venham compor esta assembleia todas estas Palavras ou Vocábulos que neste momento, ausentes estão... Mas, o certo é que diante de vocês estou, logo, é mais sensato dizer:

Por questão de foro íntimo, em outro foro, ou antes, em outro momento, será dirimida esta contenda, quando então, a ser mais consistente, esta assembleia não deverá declinar nenhuma Palavra ou Vocábulo que queira compô-la.

Neste ínterim, após as devidas vênias, por estar a interromper a seção, aproximou-se do juiz o seu assistente, e bem ao pé do seu ouvido, disse-lhe algumas palavras, não mais que três, pelo tempo que foram ouvidas.

O juiz sem o mínimo sinal de afetação, continuou:

- Que entre a senhora Reclusão!

Voltando-se à “Justiça”, disse-lhe:

- A colher de fonte límpida, soube que o seu ofício é se servir de embustes, logo, diante de todos nós, está a senhora Embusteira, assim, para que se faça presente aquela por quem a senhora tentou passar, ou seja, a Senhora Justiça, queira de imediato, dignar-se a acompanhar a senhora Reclusão...

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

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