A pensar sempre estou...

 

“Pensar um pensamento pensante não é redundância é apenas um pensamento que difere do impensante pela transcendência do saber e pensar”

Sócrates

 

Quando em vigília estou, estou sempre a pensar, e nesse estado, penso: em nenhum outro momento, maior espaço encontraria para me tornar senhor dos meus próprios pensamentos; entretanto, para tanto pensar, poder absoluto não tenho, pois sobre o que pensar, e quando fazê-lo, nem sempre exerço controle, visto que meus próprios pensamentos quando não modulam a minha vontade, a subjugam; assim, muita vez, ou quase sempre, alguns pensamentos meus, meus parecem não ser, uma vez que, por tenazes que são, estão sempre a impedir-me de escolher e ordenar outros pares seus, que mais me aprazariam; quanto à essência sua – a de todos os meus pensamentos – algum êxito alcanço a fundá-la, quando, naturalmente, antes que de tal intento, algum outro pensamento me desvie. Quando disse – quando posso – o fiz porque realmente, e não por poucas vezes, não posso ordenar os meus próprios pensamentos, o que penso não estar a acontecer, neste instante...

Se estou adormecido, creio, meus pensamentos despertos estão, pois, embora, naquele estado, de forma clara, alcançá-los não possa, posso, através de meus sonhos ou de suas consequências que inundam o meu despertar, tomar consciência da existência, ainda que mal definida, dos meus pensamentos oníricos; assim, nem mesmo quando penso em descansar, descanso meus pensamentos não me concedem; logo, penso: só haveria descanso em plenitude à mente, se ao menos, alguns pensamentos lassos, laços mais rígidos impusessem à capacidade de pensar...

Tão logo me desperto, enquanto meus pensamentos próprios da minha vigília apoderam-se de mim, penso em dar forma e ordem aos disformes e desordenados pensamentos dos meus sonhos, que foram dicotomizados, e que agora, partidos ao meio – se é que, repartido pode ser um ou outro pensamento – se compõem com outros que desprezaram uma de suas próprias metades. Quando tenho êxito, ao agir assim, por vez, tenho dúvida: modulei pensamentos que nasceram enquanto eu dormia, ou ressuscitei das minhas vigílias anteriores, pensamentos, ora já mortos? Ou ainda, penso: ocupei-me com pensamentos, que de mortos têm um pouco, ou rejeitei alguns outros, que de vivos quase nada têm? Tais interrogações não consigo responder, mas, se “dubito, ergo cogito, ergo sum” *, assim, posso carregar a dúvida cética ao lado da crédula certeza de que vivo estou; logo, consciente posso dizer: nada afirmo, nada nego, permaneço no nada sei.

Por tanto ininterruptamente pensar, uma contínua dubiedade apoderou-se do meu “estar a ser”: se para valer pouco, muito penso, logo, logo, ou a cada instante, deveria pensar menos? Ou antes, a dar mais segurança à dúvida que tenho, devo assim interrogar: se eu pensasse menos, mais a pena valeria? Antes de dar um sim, ou um não, a essa interrogação, uma outra devo fazer: para saber se estou a pensar menos, devo saber quantos pensamentos a mais posso ter?

Se inevitavelmente tanto penso, devo mesmo pensar, ou posso me abster de fazê-lo? Ora, para saber se devo pensar, preciso pensar, e para saber se não devo pensar, preciso ainda pensar, logo, devo pensar ad aeternum**.

E agora? E se eu quisesse, ou antes, e se eu pudesse, da minha mente, os meus pensamentos livrar, ou até extirpar? Este par de verbos – o pensar e o poder – já mais se submete ao nosso querer...

Que castigo! Para tomar qualquer conduta que altere o curso dos meus pensamentos, teria que pensar em como fazê-lo, mas, antes de dar o primeiro passo a fazê-lo, de imediato, concluo: ainda que esteja cansado de pensar, dispensar os meus pensamentos não posso, assim, de uma vez por todas, ao menos, não mais pensarei que a pensar sempre estou... Ainda que esteja conformado com tudo, contudo, ainda devo confessar: eles – você bem pode pensar de quem estou a falar – continuamente, não só me acompanham, mas, muita vez, me atormentam; e entre esses, muitos são impensáveis. A tempo devo dizer: não há pensamentos impensáveis! Se isto pensei, pincei entre os meus pensamentos conexos, ou, com nexo, nada estou a concluir? 

Finalmente, penso que muitos pensamentos meus são incongruentes; só alguns se fundam em algum bom alicerce... Logo, penso que a minha razão os desaprova quase todos, entretanto, há em mim, um discreto número de pensamentos coesos, que de longe, é suficiente para conter ou modular os demais outros...

Neste momento, sei que você está a pensar; a ser assim, pergunto-lhe:

Que pensamentos tem você?

Não posso alcançá-lo! Mas, uma certeza tenho: ao ler esse texto que já está a expirar, inspirar você a outros pensamentos, ele poderá...

Depois de tudo, e não antes de quaisquer pensamentos, pois estes, à mente, não abrem lacuna, tenho um grande alento: cogito ergo Sum***, logo, para existir, devo pensar. Assim, já que vivo estou, peço-lhe:

Se você pensa que estou enganado, por tudo que acima dissera, pense antes, e depois conteste os meus pensamentos, mas, se você pensa que estou confuso, com fuso adequado, acomode bem os seu fios, em seguida, urda a sua trama e teça os seu pensamentos, para só depois transigir a nossa demanda, caso queira... De uma forma ou de outra, com os seus pensamentos, queira me ajudar, para tanto, envie-mos, pois quero conhecê-los para melhor compreender as falhas dos meus.

 

*     - Dubito, ergo cogito, ergo sum - Eu duvido, logo penso, logo existo

**   - ad aeternum - para sempre  

*** - Cogito, ergo sum - penso, logo existo. 

 

PS - A liberdade de pensamento em seu sentido estrito é inalienável?

 

Não, não é! Se desejo pensar em algo, por vez, por imposição do poder que não tenho, não conseguirei fazê-lo, pois “Aliud est velle, aliud posse”, ou seja, “Uma coisa é querer, outra é poder”. Em tal situação, não há liberdade de pensamento. Reivindicar a liberdade de pensar significa ter a liberdade de exprimir o pensamento, ainda que só de forma subjetiva, o que nem sempre conseguimos fazer... 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

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