Quasi in procella navis - (Vulgata, Eclesiástico 33.2) *

 

Sempre que à terra firme voltava, por sempre temer os grandes ventos que mais temor causam àqueles que em alto-mar permanecem por longos dias, ficava feliz; e mais ainda o ficava, quando ocasionalmente, me encontrava com um amigo de infância, que a ser agora grumete**, está, com frequência por dias sequentes, que quase chegavam a meses contínuos, a voltar um olhar doce às salgadas águas.  

Em constante calmaria, não em detrimento do calor da minha juventude, pude me desenvolver sossegado, na arte de pescar mulheres; mas, mais que as do porto, não; visto que do cais, à procura destas, jamais passara... Assim, quando o assunto e projeto diziam respeito a elas - às mulheres - ao desembarcar, meu amigo via-me com os olhos de quem os volta para um contramestre, quando não, para um imediato; e para dizer melhor, e mais sincero ser, digo que o amigo, ao me encontrar, conhecia-me por seu comandante.

Sempre quando juntos estávamos, ele e eu, pelas noites velhas que se arrastavam aos novos dias, e pela luxúria tomados, tomávamos tudo que pudesse satisfazer o nosso insaciável e venal apetite.

Por tantas vezes que estivemos um ao lado do outro, por tanta liberdade no uso das palavras e das ações que dividíamos mutuamente, aos poucos, alcançamos diferente e nova liberdade que nos levava até aos pensamentos que nos levam às coisas do céu...  Coisas do céu? Sim! São aquelas vistas em terra firme, quando nesta, nos encontramos em desespero; e no mar, ao estendermos nossas vistas, podemos vê-las, quando em aflição, ameaçados nos encontramos por suas águas revoltas.  

Por estas dificuldades, que só a nós não pertencem, já de início, por não compartilharmos, inteiramente, destas visões - as das coisas do céu - percebemos que muito longe, juntos, não iríamos meu amigo e eu; logo, logo, chegamos ao último dia, ou antes, à última noite da nossa amizade, quando ele me disse:

- Na maior parte dos meus dias, vivo entre o céu e a terra; quando de lá saio, o faço para apoiar meus inseguros pés em chão firme, aonde já não mais encontro segurança.

O amigo, que já há tempo, andava comportando-se de forma estranha, não me causaria maior estranheza, não fosse aquele, “entre o céu e a terra”. Ainda que desse tempo, ele ou eu, àquelas palavras suas, para que estas retornassem a ele, em forma de réplica, a partir do meu coração, em meu socorro, não vieram; pois, faltou-me tempo hábil para elaborá-la, diante da inusitada afirmação; para ele, talvez, faltasse interesse para ouvi-la; assim, aguardei o que viria a mais de mais palavras suas; e mais vieram:

- Por ter escutado a voz dos ventos, escute-me, pois vou lhe contar o que deles ouvi. E continuou:

- Navegávamos em mar revolto quando ouvi a voz assustadora do bravio vento a dizer-me:

- Dê para cada um dos estais***, e para cada um dos brandais**** que compõem o cordame desta caravela, um nome próprio! Ao ouvir este pedido, senão revoltos, confusos ficaram todos os meus sentidos; poderia ter mesmo o vento solicitado a mim, tão singular tarefa? Nomear cada um dos cabos de todo o cordame daquela embarcação - a nossa caravela - seria desejo do vento, ou tão somente, um hálito aos ouvidos de um insano? Sem desejar mais tempo para julgar o que ouvira, a mim, por muitos dias fiquei a interrogar, ou antes, fiquei a buscar respostas para as minhas dúvidas; e por muitas noites, dispus-me a encontrar o porquê deste insólito desígnio imposto a mim; por fim, por mais dias e noites a fio, lancei ao vento as minhas interrogações, mesmo quando não o encontrava a soprar. Depois de tanto buscar respostas ao vento, não me conformando com o seu silêncio, às lufadas, meus ouvidos com mais veemência, ainda inquiriram as razões daquelas palavras suas - as do vento - pois, de tê-las ouvido, dúvidas já não mais tinha, posto que, com certeza, bem as ouvira. Ainda que muito instasse, atenção nenhuma recebi; por mais que esperasse ver as minhas respostas, nem mesmo uma suave aragem, mas trouxeram.  

Passados muitos dias, quando não mais revoltos estavam meus pensamentos, sem saber o que buscar, meus olhos se ocupavam com o horizonte, quando então, toda a tripulação da nossa caravela, percebemos que aos poucos, que o vento haveria, com seus agitados braços fortes de enfraquecer nossos ânimos. Quase nenhum tempo esperamos, e ele nos alcançou com toda a sua fúria. Travamos uma luta renhida buscando salvar a nossa embarcação, quando não, as nossas próprias vidas; foram horas e horas sem fim, de luta quase que infinda! Para manter os mastros em riste, manter o cordame tenso se fazia antes necessário, para tanto, a tripulação medimos força e resistência com os ventos de rajadas, que nos açoitavam sem nos dar trégua; quando mal a bombordo, um ou outro brandal retesávamos mais, por menos soprarem os ventos a estibordo, ainda mais rapidamente, deste lado, o mesmo tínhamos que fazer. Pelas grandes ondas resistindo ferozmente contra a investida desesperadora da proa, folgados os estais da popa não davam descanso aos que à frente sustentavam os mastros.

Estas impetuosas rajadas não vieram secas, antes chegaram sob uma chuva torrencial, que à custa do céu, muito desejava despejar-se sobre a terra, com a intenção de afogá-la, quando não, tornar doce todos os seus mares. Foi assim que até o momento último da terrível tormenta, já muito atormentados, tivemos que ter mão em cada um dos estais sem que pudéssemos deixar escapar das nossas mãos nenhum brandal. Finalmente, todos os temores nossos se esvaíram, ou antes, foram carregados por uma suave brisa. Acalmou-se tudo; de todos, as feições mudaram, pois nos braços de uma branda travessia fomos conduzidos ao sossego...

No convés, a descansar deitado, por longo tempo permaneci a olhar por entre os estais e brandais ainda fatigados por tanta tração que lhes foi imposta; às lânguidas nuvens que fora do alcance até da mais suave brisa estavam, meus olhos levavam meus pensamentos; quando estes por lá ficaram, aos cabos que compõem o cordame do nosso sofrido barco, os voltei; foi então que, sem o desejar, pois, de siso íntegro, não haveria de fazê-lo, disse eu a um dos brandais:

- Muito forte foste tu durante o temporal que enfrentamos! És um bravo! És a própria FORTALEZA! Ao par que ao lado deste brandal estava, disse eu:

- Quão tolerante foste tu ao ver teus pares folgados! És a TOLERÂNCIA em pessoa! A um terceiro brandal que bem atento nos ouvia, voltei meus olhos a dizer:

- Solidário foste tu ao lado do teu frágil companheiro! Estou diante da verdadeira SOLIDARIEDADE!  Um quarto brandal, fez-me pensar que palavras minhas, também gostaria ele de ouvir; por bem compreender este seu desejo, disse-lhe:

- Bem notei quando com mais rigor soprava o vento pela alheta***** de boreste******, punhas em risco cada uma das tuas fibras, para dar descanso ao exausto conta-estai que já não mais suportava tanta agressão que nos atingira a todos, pela popa; em fugaz momento de brandura que nos deu aquela tenebrosa tempestade, tuas palavras de carinho e de esperança, grande alento nos deram durante as últimas horas de quase desespero! Em ti, vejo que floresce o amor ao próximo em toda a sua exuberância; entre nós, chamado por CARIDADE, tu serás!

- A outro voltei e disse...

- A outro voltei...

- A outro...

Quando ao estai que à proa estava, voltei meus olhos; mesmo antes de ser bem notado, disse-me ele:

- Tempestades há sempre durante nossas travessias, ora fortes, ora fracas; bem enfrentá-las só poderemos, se contarmos com todos aqueles que compõem o nosso cordame!

Depois deste incomum diálogo, dei descanso aos meus olhos que se recolheram pensando:

- Pode a suave brisa, irmã mais doce do bravio vento, interpretar as palavras formidáveis a mim dirigidas?

Sim! Creio que sim, ou antes, talvez possa! Logo, confiante, resta-me continuar singrando os mares, ainda que sangrando-me minhas dúvidas continuam...

 

* - Como uma nave na tempestade

 

** - Grumete, Marinheiro que está a iniciar a carreira; é um praça de graduação elementar, que a bordo faz a limpeza e ajuda os marinheiros nos diferentes trabalhos, ou seja, é um aprendiz de marinheiro.

 

*** - Estai, numa embarcação a vela, é o termo usado para designar os cabos, que colocados no sentido longitudinal fixam os mastros que a compõem. O estai do mastro para a popa designa-se por contra-estai.

 

**** - Brandal, em náutica, é o termo usado para designar cada um dos cabos, que servem para fixar o mastro no sentido transversal, ou seja, são dispostos a estibordo (boreste) e a bombordo.

 

***** - Alheta, A direção que fica a meio caminho entre o través e a popa.

 

****** - Boreste, lado direito da embarcação para quem, da popa, olha para a proa; tem por sinônimo esta palavra, estibordo.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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