Um simples tamborete...


Que fique entre os ensaios este meu texto, ainda que não tenha certeza se é mesmo neste lugar, que devo deixá-lo... Mas, por segurança, em nome da dúvida que tenho, ou por ser falto de certeza, vou lançá-lo a esmo, caia aonde cair...

 

Por vez, ou antes, muita vez, quando já antes estávamos inclinados a não atender pedidos de ninguém, surge alguém e faz alguma encomenda, pois, por gosto, quer nos ver ocupados; à face de tão impertinente proposta, por conta daquela inclinação, desocupados desejávamos continuar, em especial se tivermos que usar as nossas próprias mãos a fazer algo, que dispensável seria, ao menos para o momento considerado.

Antes sempre soube que há momentos quase que para tudo; logo, não hesitei, quando em determinado dia, chegou ao meu alcance, o momento em que tive um forte desejo de fazer um objeto com as minhas próprias mãos; haveria de fazer um simples tamborete.

Sabemos você e eu que um tamborete é um banquinho; e para sê-lo, confecção simples exige, se não houver ao fim que se destina, maior confronto; conforto menor, uma vez feito, não será oferecido a uma pessoa que deseja nele se acomodar, desde que por pouco tempo, nele permaneça assentada, pois sem encosto às costas, se por muito tempo for usado ao descanso, mais cansado ficará o desacomodado.  

Mas, antes de iniciar a confecção deste meu banquinho, pensei: se for para fazer qualquer apoio para o meu corpo mudar de posição, que não atenda bem ao fim esperado, esperar é melhor, ou melhor, é melhor deixar de fazê-lo, até, para nada fazer... Por ter o pensamento, neste particular, livre, não deixei de pensar: ao fazê-lo, a dispor de trabalho de menos, menos difícil será a consecução deste trabalho; a ser assim, será fácil fabricá-lo, pois além do desejo de vê-lo pronto ao meu descanso, disponho de madeira e ferramentas apropriadas e suficientes; ainda assim, pela intenção de tê-lo à mão, feito pelas minhas próprias mãos, o êxito da sua execução exigir-me-á um modesto projeto e um diminuto cronograma.

Para ser o que seria o meu banquinho, tanto poderia concebê-lo de tampo quadrado ou redondo; redonda foi a forma que escolhi, pois, a vi mais simples para um simples tamborete; de mais a mais, mais material gasta-se, para obter uma mesma área contida em um círculo, quando se opta por uma das quaisquer outras formas que há. Para alcançar a simplicidade máxima, o mínimo possível de pés, haveria de lhe dar - ao meu tamborete - desde que estes não lhe sacrificassem o equilíbrio e a forma próprios; por tal raciocínio, já de início, entendi que não seria possível confeccioná-lo apenas com um só pé, pois, este sendo único, a quem recorrer, não haveria de ter, se peso maior a suportar houvesse; com dois pés, ainda que fossem o dobro de um, não poderia a contento, o equilíbrio esperado entre eles, ser bem dividido, pois, dividir obrigações apenas entre duas pessoas, ou antes, entre dois pés, é sempre temerário, visto que entre uma par, a falha de um ente que o compõe, quase sempre, não é bem aceita pelo outro, que vê no seu meio peso a ser sustentado, a obrigação inteira a ser cumprida. Assim, desconsiderando o uso de um só pé, e considerando que só mais um, suficiente não seria, inclinado à duplicidade, considerei o uso de quatro; mas, percebi antes, que entre quatro apoios, se um falhar, os três outros não impedem que manque o que a sustentar estariam todos. Em seguida, para tempo e material ganhar, a perder um dos pés me dispus, ou seja, compreendi que para determinar o número de pés do meu tamborete, suficientes foram três considerações, também em três encontrei a solução, qual seja, três pés ao meu banquinho, seriam suficientes, visto que tamboretes com três apoios jamais mancam, não obstante, inclinados possam ficar... Com efeito, tanto podem estes bancos se manter nivelados, quanto podem perder o seu próprio nível, o que para os humanos é mais comum de acontecer, pois não de três, mas, apenas de dois pés dispõem; por tão frequente ser esta situação, para se livrarem dela, muitas pessoas buscam o equilíbrio em quatro patas; e isto muito lhes apraz, ainda que por pouco tempo se mantêm eretas, uma vez que o equilíbrio próprio aos quadrúpedes não está ao seu alcance.

Quanto à altura do meu banquinho, seria a mais usual, a padrão, em torno de quarenta e cinco centímetros. Ao determinar a espessura das suas peças - a do seu tampo e a dos seus pés - escolhi a de quatro centímetros, por julgá-la boa. Bom! Tudo definido fora; só ir à obra, era o que me restava!

Mas antes de pôr mãos à obra, à conclusão seguinte caminhei: a dois pés, mais um acrescido, diminui-se o peso a este e a esses, e soma-se estabilidade a todos; por este fenômeno, não nos esqueçamos: dividir esforços pode resultar na multiplicação da segurança.

Agora sim! Vamos à obra, sem perda de tempo, para tanto, não devo seguir normas, ainda que sejam mínimas e necessárias, para fazer um simples tamborete. Se as seguisse - as normas - com o tempo perdido, ganharia coisa nenhuma, pois não há mesmo necessidade de segui-las! Ninguém as segue, ou melhor, muitos, as ignoram... No início assim pensara, e continuei a pensar, até que me recordei de tantos outros projetos, que sem normas seguidas, antes e durante as suas execuções, foram executados; com efeito, nem todos atenderam às finalidades esperadas para classificá-los de já acabados e úteis. Por desejar recordações a mais, mais exemplos vieram-me à memória; muitos se atropelando entre si, surgiram diante dos meus olhos - os olhos da mente - todos a corroborar o desperdício de tempo que há, quando algumas normas são economizadas, quando não, todas ignoradas... Se são muitos os exemplos, com facilidade, de poucos, com pouco esforço, posso me lembrar; logo, aqui, posso deixá-los grafados - se é que tal termo se aplicar à tela que seus olhos estão a ver - mas, mais a pensar, melhor será se deixá-los só em nossas mentes, pois nenhuma vantagem terei, perdendo tempo, envolvendo-me com mais letras deitadas no papel, ou em pé, neste monitor...

Por faltoso, não desejar passar em frente àqueles a quem não falta a obediência às normas, devo entre poucos exemplos das atividades que sempre carecem desta observância, citar a nobilíssima arte de produzir literatura. Assim é que, quando entre as letras, no conceito de muitos, para caminharem bem, bem logo querem os escritores alcançar sucesso no exercício de sua faina; entretanto, tanto seguem normas quase sempre infalíveis, pondo-as em prática incontinênti, que se materializam na busca de adjetivos específicos que qualificam seus escritos, de acordo com o gênero concebido, tais como:

- Livros frívolos de conteúdo minguado, que por tão leves que são, quase nada pesam às mentes que pensam mais.

- Poesias que se rimam bem, de rimar com assombrar, não vão além; e quando se voltam à métrica, o metro dispensam; e ainda, das normas libertam, para livres deixarem os versos.

- Poemas eróticos, erótico na acepção fútil do termo, pois amiúde apossam-se da criatura maior - a mulher - para transformá-la em objeto abjeto de consumo, que há de consumar todos os desejos hedonistas dos leitores.

- Contos desencontrados e mal contados, que naturalmente, deixam o que há de consistente, a contar.

- Haicais rombos, que por letras roubadas, pedaços de menos têm.

- Pensamentos estreitos que por mente de pouca largueza, facilmente são absorvidos e absolvidos.

- Biografias que bem registram vidas devassas bem vividas, ou se mal vividas foram, disfarçadas pelos biógrafos são.

- Ensaios muito improvisados, ou, menos ensaiados, que não levam em conta que a diferença do muito improvisado e o menos ensaiado não deve ser levada em conta. 

- Tutoriais obtusos que só bem orientam os néscios.

E assim outros exemplos podem surgir, pois, não se esgota a fonte da arte literária, só com estes que já aqui estão.

Voltemos às normas, se isto for possível, pois voltar ao que de ser já deixou, é inadmissível...

Não há normas para...

Não há normas...

Não há...

Não...     

Veja! Chegamos ao fim! Melhor, se tão somente, ao do texto fosse; mas não, também neste momento, ao fim da minha disposição para me envolver com mais palavras, cheguei, pois cansado estou, logo, assento preciso encontrar... 

Quanto às normas, ao fim estão a chegar. Quanto à sociedade, se não segue normas, anormal haverá de ser; assim a ser, ser diferente, creio que jamais deixará. Acredite! Crer depende de fé, que dúvida pode trazer, então, melhor é dizer: quanto à sociedade, se não segue normas, anormal poderá deixar de ser, quando segui-las; assim, talvez, a galope, ainda que trôpega, inexoravelmente, ao seu ocaso caminha; quando então, se houver tempo, tempos novos veremos...

Quanto ao meu tamborete, ou antes, quanto ao normal, pensei: este é concebido por conta das contas feitas, ou seja, é pela maior frequência em se mostrar, que o faz mais reconhecido e não menos aceito como tal, entretanto, tanto há de ser necessariamente fisiológica quanto edificante a sua ocorrência, para que completo e sem reparos fique ele, o normal; a ser assim, haverá de ser o fisiológico o que? E o que há de ser o edificante? Na acepção que estas palavras figuram neste texto, fisiológico é pertinente à biologia, ou seja, se funda nas funções orgânicas, e o edificante é aquele que está a construir, a induzir à virtude, a infundir sentimentos morais, a despertar desejo para a busca do Sagrado, etc... Diante disto, por minha vez, por ser eu, aquele entre poucos, que normas acatam para me tornar normal, devo desistir do meu tamborete, pois, para confeccioná-lo, normas devo seguir, ainda que mínimas, pois o seu feitio assim o exige; logo, desisto de fazê-lo, com efeito, assentar-me-ei em meus próprios calcanhares, se ainda os tiver capazes...

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar