A noite não conhece pudor*

 

“Sê atento com alguns dos teus planos concebidos à noite que está a se findar, pois fim dar a eles, quase sempre, hás de querer ao amanhecer...

 

Isto o Sol sempre soube: sob a sua luz e o seu calor, muita vez, perdemos o nosso vigor, por conseguinte, menos por desejo casual, e mais por necessidade natural, em busca de descanso, ao entardecer, quando a luz do dia já está a se findar, fim dar à nossa jornada de trabalho desejamos; para fazê-lo, tão logo a noite queira nos estender os seus braços, quase sempre, com zelo, aos abraços com ela, nos envolvemos até o amanhecer... contudo, nesse momento, há quem queira trocar aqueles abraços com outro alguém, para menor deferência à vigília prestar, entretanto, a noite, por ter visão minguada, naturalmente, não nos vê com bons olhos, sobretudo, quando sob o seu véu, com alguma dúvida, supõe distinguir que estamos a trocar mutuamente nossos corpos com alguém que só por amor, amor troca... por isso, a senhora da escuridão, com seus lúgubres braços sempre estendidos, ciúmes está a segurar para assegurar a esperança, de que sobre o seu ventre devemos descansar até bem depois que o dia raiar... 

– Ciúmes?

Sim! Tem ela, a Noite tem ciúmes dos entes humanos, uma vez que somos filhos da Luz; e ela, filha predileta das trevas, também inveja as estrelas, logo, vez por outra, ou para sempre, quer deixá-las às escuras; para tanto, recorre a este expediente: por ser cônscia de que quanto mais escura se tornar, mais temor suscita, aumenta a intensidade da cor da sua negra capa; com isso, julga mais intimidar a miríade dos pequeninos pontos luminosos que a compor o firmamento está; com tal expediente, ledo engano comete, pois em maior destaque ficam aquelas cintilantes criaturas celestes, uma vez que, sobre um manto negro, mais visível e luminosos se tornam os astros, assim, a Noite frustrada com esse seu malfadado intento, ainda com menor tento, recorre a um novo estratagema, que haverá de ser o inverso do primeiro, qual seja haverá de esmaecer a sua própria cor, contudo mais constrangida haverá de ficar, pois para chegar a esse fim, depende do Sol – a estrela maior e única que pode ofuscar o brilho de todas as demais, ao lhes oferecer mais luz – por fim, desolada, a noite interrogou a si: com segurança, posso recorrer ao Sol, mormente por ser ele o meu inimigo mor, razão única do meu perecer? Depois dessa grande desventura, julgando-se capaz para apagar a face humana voltada à luz do algoz, a Noite desiste de mudar o curso do Universo; unir os versos dos quase apagados entes humanos em um só, passa a ser o seu novo projeto; caso isso se dê, haveria ela de concluir: por consequência, quebro-lhe a dualidade do caráter... Assim é que, amiúde, ela – a Noite –  tenta nos privar da vigília, não para nos impor o salutar repouso do qual carecemos, pois, quando relutamos em conciliar o sono, ela, exultante, não reluta em nos impingir este castigo: pune-nos, nos negando maiores e seguras informações sobre o que nos reserva o dia seguinte, logo, se acordados insistimos em ficar, a urdir projetos que serão dados à luz ao amanhecer, extasiada ela fica, pois sabe que sob o seu  escuro manto, os recalcitrantes insones cedem aos seus anseios, ao ouvir as suas orientações aos planos que têm eles ao porvir; com efeito, tão logo amanheça, não obstante a luz do Sol, lançados às trevas seremos...

Querido leitor, se as minhas palavras ainda não te trincaram a vigília, pudeste concluir ao meu lado, que a noite, realmente, nos prepara ciladas, mas, seladas podem estar as tuas convicções à conclusão diferente da minha; se assim for, para  chegares aonde cheguei, atende este meu pedido: hoje à noite, renuncia ao teu merecido repouso e sob as negras asas da noite, dá a ela ouvidos, ou antes, finge que sob a proteção de seu escuro crepe, ouvirás os seus conselhos; e para mais aliciar a sua atenção dela, entre tantas matérias que nos exigem grande cautela para ser arrostadas, escolhe uma que muito possa te causar deleite; contudo antes da escolha, perde o teu tempo, ou com mais vantagem, ganha o tempo que consome a leitura das poucas palavras que compõem estas duas advertências que desejo te fazer; mas saibas antes, uma delas, a primeira, te abrirá os olhos, a outra, ou antes, as consequência da outra, poderão até para sempre, apagar o brilho do teu olhar... Vejamo-las:

De antemão, se isto desconheces, aprende e apreende: a garantir bom lucro, nem sempre a troca de desejos mútuos, é suficiente! Se preferires ignorar essa advertência, ao fazer a tua escolha, não deixes que o discernir sufoque o sentir, e ao dar asas ao teus desejos, não permitas que essas sobrevoem acima do alcance da prudência.

Agora sim! Vejamos o cerne do teu projeto: no dia de hoje, à noite, pede à Noite conselhos para que possas obter bom êxito ao te envolveres com alguém que a outrem pertence, mas, ainda assim, muito te deseja, e tu não menos o queres bem; por tão grande anseio que tens à realização desse teu desígnio, e por não menor capacidade que têm as Noites para te aconselhar, um ardil bem definido para que alcances o teu intento, conceberás, antes que nasça a luz do dia seguinte. Que nasça a luz do dia seguinte, espera, e verás que maus conselhos recebeste da Noite, com isso, se ainda te restar um mínimo vestígio da prudência, não os colocarás em prática, e se assim o fizeres, sabiamente estarás a reconhecer que a Noite não conhece pudor...

 

* - A noite não conhece pudor - Nox pudore vacat

  

PS - Fico-te muito obrigado pela tua visita; se leres mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da tua atenção.

 

Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar