Criticar é fácil!

O criticar para ser um ente real, ou seja, para se tornar um ente não só da razão, é tão fácil que para não dizer que nada exige, nos impõe apenas uma condição, ou antes, ordena-nos que cumpramos apenas um pré-requisito, qual seja o criticar requer conhecimento, ou seja, para que o levemos à luz, haveremos de conhecer antes a matéria que à crítica haverá de ir; a ser assim, podemos dizer que o crítico é aquela pessoa que usando os seus conhecimentos, naturalmente - os da pessoa crítica - examina e julga os fenômenos naturais, os frutos das ciências, o entendimento filosófico, a obra de arte produzida pelas mãos humanas, os costumes e comportamento de seus semelhantes; enfim, tudo que conduz o homem à interrogação, é matéria desconhecida, logo, para deixar de sê-lo, haverá de se tornar conhecido àqueles que arrostam mistérios... 

Feita esta adequada definição, definir dois verbos, já notados aqui, torna-se necessário; são eles o examinar e o julgar. Examinar significa analisar com atenção e minúcia; para tanto, é indispensável que nos pendamos ao conhecimento da matéria que está sendo examinada; só assim, poderemos “vê-la”. Já julgar, significa na acepção que nos interessa, “formar opinião sobre a matéria que está sendo avaliada, ou antes, a matéria que fora avaliada”, para tanto, sem poder evitar retrocesso indispensável, recaímos na definição do verbo examinar, e finalmente, voltamos ao nosso ponto de partida, ou seja, sem conhecimento, nada, absolutamente nada, conseguimos julgar.

Dar descanso ao leitor, devo, mas não antes de incliná-lo à reflexão.

- Incliná-lo à reflexão?

Sim! É o que estou a desejar, entretanto, com esta pretensão - a de levá-lo à reflexão - diga-se de passagem, que se encontra destituída da soberba que maligna sempre haverá de ser, não o deixo só, pois à reflexão, flectira-me antes, e sem ela, bom equilíbrio não conseguiria, assim, foi bem apoiado, que concebi este texto.

Continuemos! Falemos sucintamente sobre o “conhecimento”.

Conhecimento é usado para designar a atividade com que se toma consciência de alguma coisa, de algum objeto, como também, designa a posse da informação adquirida através desta mesma atividade.

Para que haja conhecimento, nos apoiamos em três elementos: o sujeito cognoscente, ou seja, o sujeito que praticará o conhecer; o objeto, aquele que conhecido será, e a imagem que deste há de resultar.

- Imagem?

Sim, imagem! E é aqui que está o problema! Imagem é a interpretação do objeto pelo sujeito.

Para não ficarmos por muito tempo só entre estas letras que se têm formas e cor, falta-lhes perfume; vejamos uma rosa!

Veja a sua, que eu vejo a minha.

Vejamos quão diferentes são nossas rosas!...

A minha, por muito orvalho que há nesta manhã, ou, por pouca luz que nos oferece o sol, que mal se desperta, vejo-a preguiçosa e pálida, talvez amarela seja!

Agora, fale-me sobre a sua rosa, pois, não consigo vê-la...

- E o seu perfume?

Oh! Sim! O da minha rosa?

- Sim! O da sua rosa.

Queira desculpar-me, pois dele me esqueci, não por acinte, antes por distração, ou mais antes, por depender da brisa que em seu leito úmido ainda repousa, não pude percebê-lo; por esta sua indolência - a da minha rosa e a da brisa - pouca importância há, pois conheço o perfume da sua rosa por conhecer o da minha, e o de outras tantas que há... Pode o perfume da minha rosa ser muito diferente do da sua rosa, ainda que diferente seja esta da minha?

Ao conhecer, ou antes, ao apreender este exemplo acima - o das nossas rosas - podemos dizer que conhecimento resulta do ato em que o  sujeito apropriar-se, de certa maneira, do objeto, criando a sua imagem - a do objeto - e que será uma imagem singular, pois fora criado por um individuo; em outras palavras, dizemos o que dito por outrem fora: “O conhecimento apresenta-se como uma transferência das propriedades do objeto para o sujeito”; esta transferência é sempre ímpar e dependente de fatores vários, mas, por excelência, depende do sujeito congnoscente, logo, ela - a imagem - sempre será variável em forma e tamanho uma vez que ela sempre depende dos olhos do sujeito e da luz que os envolve.

Antes que prossigamos, que fique bem consignado o seguinte:

Adquirir conhecimento é um ato vital, logo, essencialmente, está este, sob o jugo da essência do ente vivo que o apreende; a ser assim, por sua vez, o sujeito, frente ao conhecer, submete-se à ordem maior: ”Natura mutari non potest*”.

Ter conhecimento é deixar de ver uma realidade opaca, é notá-la iluminada, com efeito, agiremos com certeza e precisão, assim, menos riscos e perigos corremos. Entretanto, a realidade é tão complexa que o homem para dela se apropriar, concebe diferentes tipos de conhecimento, quais sejam, o empírico, o científico, o filosófico e o teológico. Vejamo-los separadamente:

Conhecimento empírico ou vulgar é aquele que caminha de geração em geração, fundando-se no modo comum e espontâneo de conhecer, é aquele que se adquire através do contato direto com os seres; compõe-se através de informações assimiladas por tradição, por experiências causais e ingênuas, logo, não tem maior compromisso com uma apuração ou análise metodológica; é um entender que por não pressupor reflexão, caracteriza-se por uma apreensão adquirida de forma passiva, acrítica, subjetiva, e consequentemente, superficial; podemos dizer ainda, ainda que sejamos redundantes: o conhecimento empírico é aquele que nos contenta no nosso dia a dia; é aquele que adquirimos, sem que por ele, tenhamos procurado com a reta intenção adquiri-lo; nenhum método aplicamos para alcançá-lo; assim, trata-se de um conhecimento de subsistência que só terá algum valor antes de quaisquer corroborações do seu próprio valor, ou seja, tem ele valor até o momento em que qualquer coisa seja melhor que ele. Finalmente, dele, do conhecimento empírico, digo: ele é essencial, entretanto, só não é desprezível por não sê-lo a pessoa que o detém, visto que esta é entre os valores absolutos e perenes, um dos maiores.

O conhecimento científico estende-se além da bagagem empírica, volta-se não só para os efeitos, mas, sobretudo, para as causas que o motivam. Esta nova percepção do conhecimento forma-se de maneira lenta e gradual; evoluiu de um conceito tido como um sistema de proposições demonstrado, para um processo contínuo de construção, onde não há o definitivo. Afirmamos que em busca do conhecimento científico, empreendemos uma busca constante de explicações que nos levam às soluções transitórias, pois seus alicerces estão na metodologia e na racionalidade que estanques não hão de ficar. Por consequência, este conhecimento retrata um saber ordenado e lógico que possibilita a formação de ideias que dependem de um processo complexo de pesquisa, análise e síntese, com efeito, as afirmações não comprovadas, são postas além das estremas da ciência. Por conclusão, podemos dizer: o conhecimento científico muito se aproxima de uma antítese do conhecimento empírico.

O conhecimento filosófico se funda no “raciocinar”, na interrogação para decifrar elementos que ao alcance só dos sentidos, não estão. Assim, este conhecimento exige o método racional que é bem outro diferente de quaisquer outros. Muito embora, seja ele emergente da experiência, seus postulados, por definição, não são evidentes e menos ainda demonstráveis, pois só admitem, logo, se fundam em um sistema dedutível.  Os objetos de análise dos quais se ocupa a filosofia são ideias, relações conceituais, exigências lógicas que não são tangíveis pela realidade material, por essa razão, não são passíveis de observação sensorial direta ou indireta.  Dizemos que o pensar filosófico conduz nossos olhos à condição humana.

O conhecimento teológico é o que entre as quatro formas citadas acima, suscita mais divergências, vez por outra, acirradíssimas; a sua base é a fé teológica que resulta do desejo de Deus que está inscrito no coração do homem. Assim, o teólogo se ocupa em provar a existência de Deus sem jamais buscar a Sua gênese, visto que alcançá-la possível não haverá de ser. As verdades de que trata o conhecimento teológico são infalíveis ou indiscutíveis, pois se trata de revelações sobrenaturais da divindade. A religião trata do sobrenatural, da finalidade do ente humano, da realidade da eternidade, e, sobretudo, da relação de Deus com o homem.

Os obstáculos impostos ao conhecimento teológico provêm, sobretudo, do conhecimento científico. Curiosamente, através deste bem, bem alcançamos aquele que é o maior bem entre todos os bens quando está entre as formas de conhecimento; para alcançá-lo - o conhecimento teológico - basta seguirmos o adágio de Santo Agostinho que diz: “Eu creio para compreender, e compreendo para melhor crer”.

Não podemos perder de vista que ainda que a fé esteja acima da razão, não poderá jamais, haver desarmonia entre uma e outra, porquanto o mesmo Deus que ao homem, infunde e revela os mistérios da fé o dotou da luz da sabedoria. Deus não pode negar-Se a Si mesmo, nem a verdade jamais pode se contradizer; pois, se a ciência proceder de maneira verdadeiramente científica, segundo as leis morais, nunca se oporá à fé; portanto, tanto as realidades profanas quanto as da fé, originam-se do mesmo Deus. Assim, se perscrutarmos com humildade e perseverança os segredos das coisas, ainda que disso não tomemos consciência, estaremos sendo conduzidos pelas mãos de Deus, que todas as coisas sustentam. 

Leitor e eu descansados que estamos, podemos concluir:

Mas, antes, voltemos à definição inicial: “Crítico é aquela pessoa que usando os seus conhecimentos dela, examina e julga...”. Para bem examinar e não mal julgar, bem expresso ficou: antes devemos adquirir conhecimento, entretanto, antes que seja posto à prova o que conhecido fora, devemos repudiá-lo veementemente, se for ele o “empírico”, pois, aqueles verbos - o examinar e o julgar - são contínuos em suas ações, logo, contínuo, há de ser o conhecimento; desta forma, a crítica de hoje não será a do amanhã, com efeito, se da noite para o dia, deixo de me envolver com o conhecer, ao amanhecer, nada posso criticar.

Agora sim, podemos concluir:

Precipitadamente, julguei que “Criticar é fácil”, sendo assim, queira desculpar-me, pois, à medida que busquei conhecimento sobre este tema, constatei que frequentemente, tenho muita dificuldade para criticar...

 

 * - Não se pode mudar a natureza

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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