Morte, fiel amiga que ao nosso lado caminha, senão em seus braços nos carrega...

 Eugene Grael

O autor por vivo que está, teme a morte; por morto que haverá de ficar, tem receio de não renascer...

 

Por que tanto tememos a morte?

Por que tanto nos assombra este único agente capaz de provocar a dissolução de um organismo vivo?

Por que tanto nos assusta esta que é a substância mais consistente que há de nos alcançar com seu aguçado alfanje?

Já de início, podemos dizer que o morrer é um ato inerente e intrinsecamente fisiológico ao indivíduo vivo, ou seja, se vivo estou, hei de morrer. “Homo ex quo esse incipit in hoc corpore, in morte este” - “O homem começa a ser na morte no momento em que começa a ser no corpo” *; e ainda, “Vita ipsa cursus ad mortem est” - “A própria vida é uma corrida para a morte”. Sendo assim, e assim sempre há de ser, nenhuma pessoa pode no lugar de outrem, morrer, não obstante, pode alguém por outro morrer; mas, este outro, jamais consegue dissuadir a morte de seu propósito; jamais consegue demovê-la do seu intento, com súplicas e lágrimas, ao alegar que aquele que por ele, morto foi, com a sua própria morte, conseguiu livrá-lo de morrer. Logo, temos consciência que, inevitavelmente, o ser humano, de per si, haveremos de assumir a nossa própria morte; portanto, por este irrevogável enfrentamento pessoal, que teremos com a morte, já podemos afirmar que ela é o mais insondável enigma que nos espreita; é mesmo um (mysteriem tremendum).

Dela nada sabemos, ou antes, dela temos uma certeza cristalina - ela não nos ameaça, por necessidade não ter para fazê-lo, visto que, inexoravelmente, nos alcança; ainda, podemos dizer que dela, conhecemos o que poderia ser tomado por acidentes seus, quando na verdade, não passam de seus disfarces essenciais. Entre estes, que são muitos, não mais que três, são necessários e suficientes para tanto nos aterrorizar, senão, vejamos: Por vez, ela se apresenta a nós, transvestida em sua própria inelutabilidade, ou seja, contra esta senhora não há absolutamente o que fazer; não há espada que a intimide, não temos ouro suficiente para suborná-la, não dispomos de maior astúcia para ludibriá-la, não temos mesmo nenhum modo para arrostá-la. Assim, quando chegada for a nossa hora para afrontá-la, de cabeça baixa, nada nos resta senão pedir a ela, que de nós, não tem nenhuma pena: que não se empene o gume de seu alfanje.

Em outros momentos, ela - a morte - se transforma na sua própria iminência; com este disfarce, ela nos induz a viver como se ela não existisse, ou estivesse longínqua ou nem mesmo nos dissesse respeito, assim enganados, vamos dissipando a nossa vida em uma infinidade de misérias... Entretanto, a morte não é um ser que distante de nós está; não se ocupa com o futuro, está ao nosso lado a cada dia; enfim, continuamente, a morte à vida caminha para que em dado momento, que desta não depende, interrompe seu curso, para estabelecer um limite em seu tempo de existência.

Finalmente, ela se metamorfoseia na sua própria inexorabilidade; e esta vestimenta que lhe envolve todo o corpo ocultando-lhe as garras, é tão singular que nem mesmo Deus possui, ou antes, a Ele não interessa a posse; com esta roupagem, ela jamais se move a rogos, pois o seu espectro avança contra todos os homens sem fazer acepção de pessoas, assim, ela - a morte - a vida de ninguém, disfere, desfere, sobre a vida de quaisquer viventes, quando lhe aprouver, o seu alfanje...

Ela muito bem nos vê, embora, se faça passar por cega, para não nos distinguir e ainda mais nos iludir; contudo, sua visão nos alcança por mais que nos refugiemos da sua presença; ela - a morte - jamais nos revela a sua face, para tanto, anda sempre de cabeça curvada para baixo, com efeito, está sempre olhando para os seus próprios pés; logo, ela não olha a face de ninguém, antes de desferir o seu golpe fatal, ceifando sem piedade, a vida de alguém. Continuamente, assim se movendo, entendeu de nos julgar pelos nossos pés, ou antes, entendeu de nos julgar pelos nossos passos.  Eis aí a única artimanha que ela - a morte - não conseguiu nos ocultar, qual seja a de bem sabermos que “ela nos julga pelos nossos pés, ou antes, pelo nosso caminhar”. Este critério único foi determinado quando ela - a senhora da vida - observou que nosso viver trilha um caminho tortuoso, cruento, áspero, espinhoso, repleto de armadilhas... Então, seguindo nosso caminhar, ela verificou que para cursar tão perigosa senda, carecíamos de muita cautela a cada passo antes de passo ser. E assim ela vem nos seguindo, e nos observando... Não nos arma nenhuma cilada, mas também não nos faz nenhuma advertência sobre quaisquer perigos à nossa frente; tão somente, vai observando nossos passos em falsos, inseguros e precipitados... Então, constatando-os falhos por repetidas vezes ou avaliando as nossas falhas, ainda que por consequente insipiência sejam, nos arrebata sem a mínima pena. E se tentarmos sair da estrada? Para quem não sabia, ainda que tarde, logo há de saber, que sem demora, seu alfanje - o da morte - sai ao nosso encalço...

Quando nosso caminhar deixa de ser firme, tornando-se inseguro, desequilibrado, nós sempre sentimos medo e temos cada vez mais receio de continuar nossa caminhada, com efeito, este temor é imposto pela morte que está nos seguindo... Está sempre atenta, jamais se movendo a rogos, incansavelmente, nos espreita... Assim sendo, temos consciência que é a morte que nos mantêm na trilha da vida, à custa de sua vigilância. É ela que, verdadeiramente, nos deixa viver... Assim, por tanto temer esta maior guardiã da vida, deixamos de entender que o viver é o maior jugo que a própria morte nos impõe. E ainda, não bastando tão grande ardil, para nos causar maior apreensão, ela - a morte - muita vez, que pela vida caminhe, impede até quem nem mesmo os primeiros passos deu... Logo, podemos dizer: Que sábia é a morte! Se nos revelasse sua face, talvez, abraçando-a, rechaçaríamos a vida, que a sua razão de ser, dela... 

De outra forma, quando vamos seguindo nossa jornada apoiando bem nossos pés, avaliando com cautela o terreno a ser tocado, e, sobretudo respeitando as estremas do nosso sítio, vamos ficando cada vez mais dispostos a continuar nossa trilha. E a morte? Continua nos seguindo, entretanto, ainda que não desejasse fazê-lo, vai perdendo o ânimo para perscrutar com maior atenção nossos passos; vai aos pouco, tomando distância de nós, quase até nos perder de vista, quando então, vai se envolvendo com os passos de outro alguém desatento que mais atenção lhe chama... E assim vamos esquecendo-a, e ela, não mais de nós, vai se lembrando; aí, vamos caminhando, caminhando... Cada vez mais tranquilos... Contudo, no final da nossa vitoriosa jornada, para surpresa nossa, ela - a morte - buscando um atalho, está nos esperando de braços abertos, porém, neste momento, não mais nos causa temor o seu inevitável abraço, pois nada mais teremos além de uma pálida e fria despedida da nossa velha adversária - a morte - que a nossa vida, pela vida afora quis sempre aniquilar; agora, por uma nova vida, fora a morte derrotada; assim não mais com sua tenacidade, ao nosso lado, continuará, pois, outro caminho alcançamos, e nesta nova jornada, nos acompanhar, não mais conseguirá... 

 

* - Santo Agostinho - De civitate Dei



PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

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