Aliud est velle, aliud posse*

 

Se este texto não passar por um ensaio, de ensaio não passou tudo que fiz para que o fosse...   

 

Se me perguntam:

- você pode ter vontade?

A tolher a minha liberdade, já está esta indagação, pois com esta não contava, logo, à conta do meu desejo ferido, dou à mesma, a seguinte resposta:

- Sim e não!

Para o “não”, justifico assim:

Assim digo, pois não posso dizer que seja possível ter quaisquer vontades, quaisquer entes humanos.

Para o “sim”, justifico assim:

Pela presença e efeito do “não”, o “sim” jamais poderá ser resposta única, logo, logo, ou em qualquer tempo, o “sim” só é absolutamente válido, quando empregado da seguinte forma:

“Sim”! Concordo com o “não”!

Por dizer “não”, ainda digo que o “ter vontade”, enquanto valor semântico, não se submete a nenhuma restrição imposta pelo razão, entretanto, o discernimento íntegro daquele que será proprietário desta vontade deve pressupor que houvera sustentação à mesma, pois só assim, esta poderia se manifestar como tal. De outra forma, podemos dizer: a vontade antes de ser, há de ser depositada em nossa mente sob fundamento que a sustente de forma necessária, assim, uma vez alcançada, quando o desejarmos, de forma perene, será encontrada; só assim, e de nenhuma outra maneira, poderíamos tê-la “ad aeternum”*, se eterno fossemos. A ser assim, mais uma vez, para dizer sim ao “não”, ou seja, para legitima-lo, digo que forçosamente, haveremos de manter em nota, que todas e quaisquer manifestações vitais se expressam invariavelmente, fundadas em um legado genético, e ainda, hão de ser, mas não necessariamente, moduladas pelas ações educativas que nada mais são que ferramentas adquiridas no meio externo e apreendidas pelo educando. Sabemos também, que a apreensão destas ferramentas, uma vez que se trata essencialmente de expressão vital, logo, por efeito necessário, funda-se também em um substrato genético.

Temos que considerar que o objeto que desperta nossa vontade, há de estar arquivado harmonicamente em nosso intelecto, ou seja, há de estar em conformidade com a nossa essência, pois para lá se instalar, fora antes construído e apreendido. Evidentemente que o objeto da nossa vontade não há de ser um ente fictício, ou seja, como tal, da razão há de ser; há de ser, como todo e qualquer ente que fomenta a ação do sujeito, um ente real.

Para ter vontade, dizemos ainda: devemos antes, ter verdade de pensamento que se caracteriza pela nossa ação ao captar o objeto do desejo e a própria ação do objeto convergindo com a nossa - a nossa ação - com efeito, as duas ações - a do sujeito desejando, e a do objeto desejado - têm que estar em congruência. 

Ao tomarmos posse de algum objeto, conforme fora acima falado, só podemos fazê-lo se encontrarmos apoio em nossas bases genéticas que são inerentes e irremovíveis; em seguida, para bem apreendê-lo, devemos lançar mão das nossas ferramentas que efetivamente dispomos, e que foram adquiridas para tal empreendimento. Assim concluímos: ter vontade, essencialmente, demanda poder, logo, sem equívoco algum, dizemos:

Tem vontade, quem antes, pode tê-la!

Para que não seja esta asserção notada por tão áspera, quando não por tão cruel, e para alento daqueles que têm vontade sem poder, notem que tudo que há tem razão de ser, mesmo o querer sem poder, pois, para se justificar e inerte não ficar, e ainda para a sua própria compensação, quase sempre, gera ele - o querer sem poder - outro querer que pode ser.

Para não ficarmos com a vontade de alcançar exemplos concretos que nos deem sustentação para o exposto acima, abaixo, vamos encontrá-los. Vejamo-los em número de quatro que bem ilustram esta nossa convicção, que há de ser de todos:

A - Se tenho desejo (ou seja, vontade) de pisar na lua, para fazê-lo, bem antes, tornar-se-ia necessário que eu tivesse inclinação para este tipo de aventura, ou seja, deveria ser predisposto à jornada tão singular. Saibamos que ser predisposto é ter preenchido, previamente, para si mesmo, pré-requisitos indispensáveis e vários que sejam afins à consecução de um determinado projeto; e que para acomodá-los todos, ao alcance dos olhos do desejo, quando já ao alcance das mãos estão, teríamos que dispor de uma extensa lista daqueles pré-requisitos; para grafa-la aqui, possível seria, se necessidade prática houvesse.

A continuar com o desejo de ir à lua, se nada soubesse sobre este satélite, embora possuísse aquela predisposição, desejar tocá-lo, possível não seria, ou pelo menos, tal desejo não seria congruente, assim, o meu querer pisar na lua não seria exequível. Veja! Neste exemplo, para que nossa vontade tenha razão de ser, nos subordinamos a duas exigências necessárias e inseparáveis: a disposição inata, e aprimorada pelos meios externos, às viagens espaciais, e as informações adquiridas sobre a lua, objeto do nosso desejo.

Ao segundo exemplo cheguemos:

B - Se tenho desejo (ou seja, vontade) de comer algumas unidades de Physalis pubescens, poderia fazê-lo uma vez que se alimentar é uma inclinação inata de todo e qualquer ente vivo; mas, para que eu realize efetivamente a minha vontade, falta-me apenas, conhecer a Physalis pubescens, ou dela obter informações suficientes para transformá-la em objeto real. Veja que neste exemplo, nos é imposto apenas um encargo, o de conhecer a tal Physalis pubescens, para que nossa vontade tenha razão de ser.

Vejamos mais um exemplo:

C - Se tenho desejo (ou seja, vontade) de ter uma lembrança de Alnitak, antes, devo conhecer Alnitak ou no mínimo, dela ter informações suficientes para que esta se torne um objeto, e que armazenado no meu intelecto fique; neste exemplo, notamos que a nossa vontade fica na dependência de conhecermos Alnitak ou dela colher dados suficientes para torná-la um objeto. Só após este expediente, saberemos se há o complemento essencial e imprescindível para que a nossa vontade se realize, qual seja só após estas informações, saberemos se é de nossa posse o desejo inato ou construído para adquirir este tipo de lembrança.

Vejamos agora o quarto exemplo que muito vale como tal, pois há de valer à existência humana, por ser um valor perene e absoluto.

D - O desejo de Deus está inscrito no coração do homem - trata-se de um caráter inerente ao nosso ser, ou antes, ao nosso “estar a ser”, logo, independente de quaisquer restrições há de ficar incrustado - já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a Si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que jamais cessa de procurar.

Note bem! Com este último exemplo, fica evidente que a vontade está pronta e consolidada no âmago do nosso ser, pois contempladas foram as duas exigências únicas e suficientes, quais sejam, há o alicerce genético que fundamenta o nosso desejo de Deus, e jamais deixará de haver o Objeto real e necessário à razão e ao universo, logo, indelével, em nosso intelecto há de ficar. Assim a ser, ser diferente não pode, logo, logo e em todo instante, para termos vontade de Deus, basta que sigamos a recomendação de Santo Agostinho - “Eu creio para compreender, e compreendo para melhor crer”.

À luz destes exemplos acima, notamos que, sob aquelas condições, ou antes, sob a falta daquelas condições, tudo que podemos chamar de vontade é destituído de valor, pois não passa de pensamentos infundados e desconexos.

À frente desta interrogação, ”Eu posso ter vontade?” Notamos todos que: “A angústia humana, muita vez, se funda na “vontade sem poder”, ou no “poder que algo deveria ter feito para ignorar a vontade””.

 

PS - Eu disse, ou antes, muitos disseram, e muitos dizem, e no porvir, dirão outros:

“O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, pois “trata-se de um caráter inerente ao nosso ser””.

Penso que aos crentes, e até aos ateus, se é que estes há, a verdade acima, se aplica, pois, homens não podem querer não ser, assim, pergunto:

Podem eles - crentes e ateus - apoiados nos critérios acima, ter vontade de dizer: “não acredito em Deus!”.

Responda-me se quiser, ou melhor, se puder, mas, antes de fazê-lo, saiba que posso ouvir a sua resposta, mas também, posso dispensá-la, quando não ignorá-la, pois me contento com a minha conclusão, que só minha, não há de ser; e esta logo abaixo está:

“Como posso duvidar da existência de um Ser, que permanentemente, está a me incomodar?”

 

 

  - Aliud est velle, aliud posse - Uma coisa é querer, outra é poder

** - “ad aeternum” - Eternamente.

 


PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


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