Quem é Eugene Faon?

 

Que a essa indagação, haja ao menos mais de um sentido ético que possa justificá-la... A ser assim, e por estar a observar bem de perto, Faon de Assis, dele, não tenho para oferecer à pessoa alguma, informações más, ainda que sejam essas as que mais suscitam interesse aos nossos semelhantes... Contudo, pelas exceções que há, me parece inconveniente negar resposta àquela indagação, logo, logo, ou neste momento, passo às mãos de quem a fez, o que bem seguro nas minhas está.

Faon de Assis não fosse antes, um dos filhos do Ser-sem-o-nada, a ser estaria um ente-com-o-nada... Por cumprir essa Conditio sine qua non, ou seja, por ser filho Daquele que de Si pode dizer: – Ego sum qui sum! *, Faon de Assis de si pode dizer: eu estou a ser! E ele o faz ao Ser... Essa sua infindável jornada – a de estar a ser ao Ser – acima de qualquer instância, é suficiente para que quaisquer outras não lhe tolham o pétreo direito de continuar a viver... A ser assim, e jamais, diferente haverá de ser, posso lhe interrogar: Há credencial maior que esta? A de ser filho de Deus? Que há, não creio; mas, crer, muita vez, exige fé, que da incerteza não consegue correr; então, melhor é dizer: tenho certeza que essa é a maior! Com efeito, por ele – por Faon de Assis – e por mim, digo: há de nos ser também o bastante – o ser filhos de Deus – portanto, temos ele e eu, direitos adquiridos sobre a face da terra e sob a luz do sol…

Eugene Krantz Faon de Assis, naturalmente, por não conseguir se livrar da sua própria essência, jamais deixará de ser um ente que a ser está, na esperança de mais e mais, do Ser se aproximar... Logo, uma pessoa plena não é, e no porvir, ainda que por vir tenha muito que esperar, um ente completo em si, não haverá de encontrar...

Esse homem se for tomado por partes, com facilidade, será encontrado entre os seus semelhantes, dele e seus; se tomado no todo, semelhante a nenhum ente humano será, contudo, encontra-se indistinguível entre nós, com efeito, não tem ele feições singulares; seu rosto se for visto entre a multidão, em nada haverá de se destacar.

Faon de Assis deseja se tornar livre para melhor buscar a plenitude do seu ser, para tanto, ser destituído de todas as suas insígnias quisera, pois, se antes tomara algum grau universitário, nenhum proveito tiraria ostentando-o; se fora dado às letras, muito ainda falta-lhe para soletrar a sua própria alma; se algum prêmio ganhara, é quase que certo, sua vaidade aumentou, com efeito, não se tornou digno de recebê-lo; se algum lastro econômico possui, que lhe garanta a sua subsistência material, muito pouco lhe faltou para desprezar, ou nenhum valor dar ao dourado metal.

Faon de Assis é um ente humano que de Deus tem recebido muitas graças; de graça, por tê-las em mãos, de braços cruzados, em momento algum, tencionara ficar, pois, está sempre a caminhar, está continuamente a buscar o que fazer, assim está sempre a justificar a  dignidade que tem para manter aquelas dádivas recebidas... Atado a essa essência, ou antes, atado a sua perene autotranscedência, considera-se um projeto em execução, portanto, se dele desistir hoje, hoje ainda, haverá de se considerar uma obra inacabada; sendo assim, Eugene carrega os mesmos sentimentos comuns a todos nós, logo, vez por outra, se vê em desespero.

Faon de Assis, com inabalável reta intenção, deseja cultivar as virtudes que há à disposição aos filhos de Deus; contudo, ainda que muito queira, muita dificuldade tem para se livrar do joio que ainda viça em sua messe; assim, com algum desânimo, espera no porvir, que por vir, naturalmente, está, ver o seu desejo se cumprir; tanto isso é verdade, que em cada um dos instantes que ele tem em vida, envida todos esforços para colher só bons frutos da sua seara, contudo, nem sempre consegue fazê-lo com êxito, pois há sempre o que cultivar, e do cultivo, há sempre o que extirpar.

Por essa sua angustiante faina, creio que nenhuma culpa, a mim deverá ser impingida, ainda que amiúde, à custa dos meus grandes argumentos, pelas minhas ideias, ou, o que é mais certo, pelos meus anseios, ou, o que mais certo ainda é, pelos seus anseios – os de Faon de Assis – inerentes à sua natureza humana, e expressos em mim, ele se deixa levar; levar, deixa-se, mas, não deveria fazê-lo, pois, o faz  por conta de um grande amor filial e incondicional deferência devotados a mim; e com essa devoção tão forte, a sua tibieza ele expõe... Se justificado está o seu amor por mim, ou por si, o seu equívoco se justifica, com efeito, em nome daquela sua reta intenção, não há necessidade de quaisquer justificativas...

Não por muitas vezes, minhas opiniões são impertinentes; ainda bem que nestas raras circunstâncias, a despeito da deferência que a mim dispensada Faon de Assis, por mais que eu me esforçasse, não consigo demovê-lo da sua posição, ainda assim, em tempos distintos, fiz-lhe vários pedidos, sempre fundados nos valores absolutos e perenes; entre todos, não obstante receando que fosse o último, para alcançar a sua anuência, o que maior empenho exigiu-me, foi quando desejei lhe tomar por empréstimo, o seu próprio nome, para que eu ao refugiar-me à sombra do anonimato, pudesse levar à luz, a minha faina literária… Depois dessa proposta feita, já com o receio de nada mais poder lhe solicitar, com efeito, entendi que nada mais haveria de lhe instar.

Finalmente, ainda falando de Faon de Assis, digo: pela inerência que há entre ele e a sua filiação, não posso renunciar o meu pétreo direito de chamá-lo de filho, pois o criei, ou antes, além de criá-lo, a sua concepção fora também imputada a mim.

Ainda falando de mim, não posso deixar de dizer: quero a todo custo, permanecer no anonimato; ainda que muito anele esse intento, um outro desejo não menos que aquele, almejo, qual seja quero me furtar às vistas de outrem; ainda que esse meu desejo seja constante, senão perene, creio que jamais, por completo se fará realizar, pois, para alcançá-lo em toda a sua plenitude, Faon de Assis haveria de ter um outro genitor, uma vez que pelo filho, chega-se ao pai...

 

* Ego sum qui sum! - Eu sou o que sou!