foto2-1.jpgfoto2-2.jpgfoto2-3.jpg

TT


A morte da boneca de pano

 

 

Vinte e cinco era o dia daquele mês; o mês era o último do ano, logo, estávamos a comemorar o dia em que um natal na tal manjedoura se dera... Nesse dia, já estávamos bem distante do início de uma longa jornada — toda feita sobre o lombo de animais de sela — e próximo de um merecido descanso, esperávamos estar também. Tão bem estava naquele momento, a nossa disposição física, que se necessário fosse, mais além, poderíamos meus amigos e eu – éramos quatro pessoas – estender os nossos passos antes daquele justo repouso. Naquele momento, passava das dez horas, quando a três ou quatro quilômetros de um pequeno povoado, alcançamos um rapazinho; estava a cavalo; marchava em sentido oposto ao nosso. Sua cavalgadura, por bem conhecer o caminho que de volta à sua casa poderia levá-la, e com a certeza de que ao pasto, brevemente voltaria, com pressa não haveria de estar, pois, a lentos e pesados passos, suportava o seu senhor que mal portava a sua própria e pesada dor... Ele — o rapazinho — de corpo largado sobre a sela, cabeça baixa, estava a arrastar pensamentos que elevam dores aos céus, em busca de alívio, pois, na terra, mitigá-las não havia quem pudesse fazê-lo... Assim, estava a chorar; contido em um peito partido, era um choro dos olhos tristes de quem as lágrimas lavaram os últimos vestígios da esperança de ver, em outro momento, o sorriso de alguém, que de repente, tão cedo partiu... Ao percebermos sua tristeza, a sua causa desejamos saber, logo, perguntamos-lhe:

— Moço!  O que te acontece?

O rapaz, acanhado pela sua própria natureza, mais ainda se acanhou pelas lágrimas; quando com a voz embaraçada pelo choro, assim nos respondeu:

— Hoje, ao amanhecer, perdi a minha irmãzinha; por conta disso, fui avisar minha avó que mora no povoado, agora, já estou de volta à casa dos meus pais.

Ao seu lado, continuamos a caminhar no mesmo sentido; não mais que a uma hora adiante, chegamos a um pequeno casebre à beira do caminho; à porta da pequenina casa, já estavam algumas poucas pessoas; desoladas, lá estavam para se despedir da pequenina morta...

Naquele lugar, se não tínhamos plano para dos nossos animais nos apear, a pear nossos movimentos estava a desocupada curiosidade, quando não, para se fazer sempre presente e disposta estava a própria solidariedade, que sempre se posta para interromper a marcha do sofrimento... Sofrimento que a cavalgar a sua besta alada, não se esbarra no tempo, e do espaço, nenhum caso faz, pois em qualquer mísero casebre, que queira entregar a dor, não hesita em lá se acomodar com todo o seu furor...

Adentramo-nos na pequena casa; tratava-se de uma construção rústica e frágil toda coberta por folhas de Buriti*, que se apoiavam sobre varões roliços de alguma madeira do próprio lugar; essa pobre moradia tinha por piso, o chão batido circundado por paredes de Pau a pique, ásperas e mal aprumadas, foram barreadas com tabatinga**; já ao passarmos pela porta da frente, demos à pequenina sala onde jazia um pequeno corpo de uma criança que já estava a ser velada; frágil criança fora! Não mais que doze anos de idade tivera, mas, mais de oito, ninguém lhe daria... Em uma das paredes desse cômodo, fora fixada uma imagem de São Vicente de Paulo estampada em papel e emoldurada em um tosco caixilho de madeira; do seu lado oposto, também presa à parede, encontrava-se uma folhinha – daquelas, das quais se retira uma pequenina página a cada dia – nesta sequência, uma página após a outra, depois de indicar o dia que se findou, dá à próxima, a vez para estampar em si, o novo que iniciou. Em um dos cantos desse pequeno cômodo, sobre uma forquilha apoiava-se um pote de barro, e nesse pote inseria-se uma torneira gasta ou mal ajustada, pois ia perdendo, gota a gota, a água que à vida dá sustento. Ao centro da sala, sobre uma mesa forrada com um pano branco um tanto encardido, inerte e estendido, estava o corpo de uma pequena criança; ao lado da sua cabecinha, duas tristes velas se esvaecendo entre o cheiro de flores mortas, iluminavam a face pálida  daquela defuntinha; seu cabelo bem ralinho emoldurava o seu descorado rostinho que deixava em maior destaque, o seu narizinho descarnado; seus olhos sem brilho, quase que sumidos estavam; sua boquinha murcha, mais acentuava um tênue filete de sangue coagulado, entre os seus lábios semiabertos. Nesse rosto, de um anjinho sem vida, a morte expressava um sorriso cruel... Escassas flores, já quase murchas, colhidas naquele mesmo sítio castigado pela seca, pouco escondiam o seu vestidinho de chita estampado de motivo miúdo que cobria-lhe o corpinho mudo; as mãozinhas secas, cruzadas sobre o peito, seguravam uma pequena boneca de pano.

Em frente daqueles dois corpinhos inanimados, fiquei, por alguns instantes, a olhar; com os olhos em lágrimas, pensei: que papai-noel é este, incapaz de saber que a morte não se move a rogos, assim, de presente nada poderia dar a esta criança, ainda que fosse uma simples boneca de pano, pois aquela pouco tempo de vida pode ter, agora morta, estava abraçada com essa que nem mesmo chegou a viver na imaginação de uma pobre menina.

Naquela sala, todos choravam; tudo chorava! São Vicente, com uma criança nos braços, segurava outra pela mão, e ainda, velava por outra, que agora morta, despedia-se da terra, e partia para o céu. O pote, no compasso das horas, gota a gota, ia chorando suas lágrimas de água doce. Os irmãozinhos, inconformados, choravam pela irmãzinha que partira, e pelo sofrimento da mãe que era de partir o coração. O pai, de corpo largado sobre a terra, desanimado, mal estava a sustentar a cabeça erguida, que nenhum pensamento revelava; tão somente, elevava aos céus, os seus ferimentos, em busca de cura, pois, tantas vezes antes, o fizera, sem que nenhuma ferida fosse-lhe pensada; e agora, mais que antes, por nada receber e menos esperar, não mais chorava, pois, em seu peito cansado de tanta desventura, mais uma vez, uma perda secara as suas lágrimas, roubando-lhe a última esperança de ver, em algum outro momento, o sorriso de uma criança que pouco tempo teve para ser a sua filha.

Partimos! Pesadas reflexões nos acompanharam, para trás, o luto e a miséria de mãos dadas ficaram...

 

* Palmeira (Mauritia vinífera) cujas folhas são usadas para cobertura de casas rústicas, especialmente, no meio rural; ainda, dos seus frutos se obtém óleo rico em caroteno, usado também na culinária doméstica.

 

** Terra composta por argila de variegadas cores; fora e ainda é usada para pintar paredes das residências mais humildes, sobretudo, na zona rural.