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TT


Você é linda!


Você é linda!

 

Linda Você é

Descuidados olhos meus

Só minh’alma notou

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

  

Estou a ser...

      

Outro quero ser!

Persisto; se tiver êxito,

Hei de não ser eu!

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


Onde está Iaco?

 

Da fogueira queríamos, tão somente, a luz, pois calor, de sobra naqueles dias, às noites, dava o sol, ainda que velhas fossem.

Diante de nós, surgiram entre a fumaça, quando não, das sombras, duas outras pessoas, que por nós, antes não foram vistas; uma delas, quando bem já ao nosso lado, bem se fez notar, nos disse:

– Estou aqui para manter a fogueira acesa, e para que não se apague das suas memórias, a memória deste meu amigo, que para nós contará várias histórias, tudo farei.

O dizer “para manter a fogueira acesa” ainda que bem viva ardia em chamas, não nos chamou quase que nenhuma atenção, mas, para compreender “para que não se apague das suas memórias, a memória deste meu amigo...”, faltou-nos compreensão, quando não, compreender, não houve quem o fizesse... Assim, o grupo pensamos! Pensamos também, que à noite, os entes da floresta nos reservam suas brincadeiras que quase sempre, muito às claras, não ficam...

Entre todos os jovens que formávamos o grupo, só havia estranhas pessoas, portanto, entre todos os olhares trocados, olhos vistos agora, antes vistos, não foram; mas, ao pé das fogueiras, mais vivas são as vistas, mais atentos são os ouvidos, mais doces são os semblantes; logo, logo, ou de imediato, quase nada de calor se consome para consumar amizades aquecidas ainda que nas cinzas fiquem quando a última brasa se esvai...  

Quem nos contava as histórias era um estrangeiro – um suíço – que há anos estava a ser curtido pela úmida e quente selva amazônica; sua pronúncia mesclara-se, pois, sua voz carregava o alvo dos Alpes, ainda que um tanto desbotado, e já o bem corado verde da selva, no timbre das suas palavras, florescia.

Bem levados íamos ao seio das lendas pelo crepitar dos tições ardendo... insetos, pássaros e até outros animais maiores protegidos pela noite e escondidos entre os ramos ao seu derredor, não menos curiosos que sonolentos, iam temendo a mão do vento sobre a coivara acesa, enquanto admiravam o clarão que no grande escuro abria uma pequena clareira luminosa, antes não vista. 

Peter Yaacov – esse era o nome do nosso contador de histórias – ia falando... Falando... Falando... As chamas, como que entendendo as suas palavras, iam dançando... Dançando... Acompanhando... Acompanhando... A cadência do sotaque das suas suaves palavras...

Contou-nos várias lendas: a do Boto-cor-de-rosa* nos enlevou muito; a do Urutau** nos emocionou; a um, ou, a outro, fez até chorar; a do Curiango*** causou-nos muita admiração pelo seu conteúdo e não menos pela sua origem indígena. Finalmente, a do Uirapuru**** trouxe-nos tão grande encantamento que só poderia ser maior se pudéssemos ver, ao vivo, o mago cantor encantando com seu canto, todos os outros pássaros cantores.

Alguém entre nós, perguntou ao Iaco, assim chamavam-no o povo do lugar.

– Poderemos conhecer esse maravilhoso cantor?

– Se Deus permitir, respondeu-nos Peter, amanhã pela manhã, iremos encontrá-lo nesse lugar, ou em qualquer outro...

Surpreendeu-me a invocação que Yaacov fez a Deus; referiram-se as suas palavras ao Uirapuru, ou ao próprio Deus? Protegidos por Deus ou encantados por um pássaro, recolhemo-nos, ou antes, cada um de nós, se acomodou na sua rede, e todos bem dormimos, para acordarmos bem dispostos, em busca da famosa ave.

Pela manhã, logo após o café, reunimo-nos; em seguida, assim, nos falou Iaco:

– Vamos estar sempre juntos, pois, esse ente jamais nos abandonará. Há quem afirme que ele não exista; mas, estou certo de que vamos estar com Ele; digo-lhes que posso encontrá-lo sempre e para o sempre.

Essa afirmação do ruivo tostado pareceu-nos ainda mais enigmática, mas, paciência! Compreender a fala de uma pessoa estrangeira que vez ou outra, ou até quase sempre, ainda tropeça na nossa língua pátria, importava menos; o mais importante seria que víssemos o tal pássaro encantado.

Peter com sua voz sonora, quase cantada e parecendo estar com o siso trincado, mais confundiu os nossos juízos, quando nos disse:

– Para encontrá-lo, teremos que aguçar nossos sentidos, todos os cinco, e até poderemos despender o nosso sexto; nossos pés descalços hão de tocar o solo com a suavidade que pousam as abelhas sobre as pétalas das pequeninas flores, quando então, roubam-lhes o pólen; nossos ouvidos estarão atentos a perceber os passos do gafanhoto que se esconde entre as folhas; o cheiro da mata não nos parecerá único, haveremos de sentir e separar todas as suas doces essências; seremos capazes de perceber o gosto dos frutos silvestres antes mesmo de tocá-los. E os nossos olhos? Ah! Sim! Esses, ainda que alongados, por um menor descuido, não perceberão as nuances do verde que se confundem com as do Louva-a-deus mimetizado entre os verdes ramos.

Iaco, encantando-nos, curiosos nos deixou mais; mais ainda, queríamos ver o pássaro encantado.

A floresta parecia nos esperar: em renques entrelaçados estavam as frondosas árvores dando-nos o frescor de sua sombra; ao alcance dos olhos e até das mãos, longos cipós se compunham com delicadas raízes aéreas e desciam dos arvoredos como que em conjunto, a formar diáfanas cortinas para que mais bem protegidas ficassem as variegadas plantas comensais grudadas em seus grossos fustes seculares; o perfume da mata virgem, se não vinha de todos os lados, enchia todo aquele lugar; um emaranhado de folhas mortas ornado por musgos de todos os matizes, formava um tapete único que se estendia sob nossos pés; por fim, as vozes da floresta estavam em concerto: nos altos galhos trinados, chilreios e gorjeios, a compor um trio, harmonizam-se; um pouco além, urros e sussurros, em duo, quase nos assustavam; e ainda, silvos e zumbidos, guinchos e rangidos a formar um quarteto, que só por muito descuido, se desafinava.

Só agora, lembra-me contar quantos éramos: Iaco, os outros e eu formávamos um grupo de onze corações amantes da natureza.

Entendendo ou não o que nos dissera Iaco, adentramos pela mata, e o fizemos em fila indiana, sem deixar de manter à nossa frente, as suas nebulosas recomendações, as recomendações prévias que Iaco nos fizera.

A cada passo, a virgem mata ia acolhendo-nos mais e mais; de repente, se não para todos, mas, para quase todos nós, a voz do vento se calou; tornaram-se mudos todos os pássaros; não mais farfalharam os ramos; um perfume de um suave azul deu-nos uma grande paz, que se não viera do céu, no céu, em paz, deixaria todos os anjos; então, fomos percebendo que estávamos diante Dele, ou antes, Ele estava à nossa frente...

Foi difícil deixar a floresta. Iaco e seu amigo, conosco não saíram; cremos que logo em seguida, à nossa saída, sairiam...

Para que nossas pernas bambas nos levassem de volta à pousada, quase não foi possível; impossível foi compreender as palavras do recepcionista, quando a ele, de Iaco, alguém entre nós, pediu notícia:

– Onde está Iaco?

– Iago? Interrogou o recepcionista, e continuou:

– Quando você o conheceram?

– Ontem, à noite! Disse um outro entre nós.

– Não! É impossível que isso tenha se dado, pois, no mês que virá, fará um ano, que Iaco e seu fiel amigo já não estão entre nós; a Floresta os levou para sempre...

 

*       Boto-cor-de-rosa - Inia geoffrensis

**     Urutau - Nyctibius griseus

***   Curiango - Nyctidromus albicollis

**** Uirapuru - Cyphorhinus arada 

  

O Calvário florido

Quando criança, entre os meus seis e doze anos de idade, minhas férias escolares traziam-me bons dias, mas, melhores seriam, se os passasse na fazenda dos meus avós; e estes foram muitos!

O saber interessava-me muito, contudo, pouco atraia-me o local do meu aprendizado, pois este, causava-me uma certa angústia, uma vez que os limites da sala de aula sufocavam-me; em compensação, as estremas dos campos, ainda que não pudesse ascendê-las, acendiam a chama da minha liberdade. Meus colegas de sala de aula, com sua impertinência, irritavam-me muito; mas, mais me tranquilizavam os animais com sua amável indiferença. Por tudo isto, eu adorava os meses de julho, dezembro e janeiro, e esperava ansioso, pelos feriados prolongados.

Quando me encontrava na fazenda dos meus avós, durante os dias dolorosos - assim minha avó denominava os dias da Semana Santa - rezávamos muito, pouco comíamos, e menos falávamos; e sempre nestes dias, colhíamos muitas Sempre-vivas* (Helichrysum bracteatum). O campo, aonde floresciam estas delicadas plantinhas, era bem distante da porta da nossa casa, creio que tínhamos que andar, ou antes, subir uma légua e tanto para chegarmos ao seu “Calvário florido”, este foi o nome que a minha vovozinha dera àquela planície onde nasciam e floresciam aqueles frágeis arbustos.

O percurso era áspero, subíamos com dificuldade; minha vovó, acometida pela artrose que muito lhe limitava os movimentos dos joelhos, oferecia o sacrifício à própria Paixão de Cristo. Disposta a cumprir a penitência com alegria, com tristeza, não deixava de dizer:

- Neste ano, estou suportando esta dura caminhada, mas, para o próximo, meus joelhos não vão ma permitir, pois me deixarão de cama.

Então, houve um ano em que durante toda a quaresma, minha vovozinha passou sentindo muito dos joelhos. Quando se aproximaram os dias da Semana Santa, suas dores acentuaram-se; seus joelhos ficam mais inchados; aqueles foram mesmo, os seus “dias dolorosos”!

Ao amanhecer do dia - o da Quinta-feira santa - ela acordou ainda mais triste, pois, o dia escolhido para fazermos a nossa caminhada de penitência e devoção, fora sempre este; e quase sempre, por volta das nove horas, iniciávamos a nossa longa e piedosa peregrinação, até chegarmos ao alto daquela colina onde vicejavam em abundância, aquelas florezinhas. À medida que os ponteiros do relógio, daquela hora, se aproximavam, afastavam-se do coração da minha vovozinha, as suas últimas esperanças para fazermos a nossa caminhada; assim, ela foi ficando cada mais triste, pois, seus joelhos negavam-lhe impiedosamente, o direito de bem caminhar. Para compensar, seus olhinhos, a partir da varanda que à frente da nossa casa ficava, a cada instante, iam até o “Calvário florido”, e traziam algumas das suas delicadas flores para deixá-las aos pés do Senhor Crucificado que estava sempre ao alcance do coração piedoso daquela criatura tão amável - o da minha vovozinha - ainda assim, ela não se conformava, pois, depois de tantos anos cumprindo nossa jornada de fé, não conseguiríamos naquele ano, colher as Sempre-vivas. Eu também fiquei triste; em volta da minha vovozinha, tentava lhe dar algum alento; meu avô, que sempre lhe ofereceu muito carinho, não sabia mais o que fazer para conter-lhe as lágrimas, quando então, nos disse ele: - Leandra! Pare com este choro! Iremos a cavalo colher suas florinhas! Ah! Foi só ele falar assim, a pobrezinha chorou ainda mais. Meu avô se esquecera que sua querida esposa, por ser bem gordinha e ter a limitação física impostas pela idade e a doença, não conseguia galgar a sela de uma montaria; por conta deste impedimento, a pobrezinha sempre dizia que não gostava de andar a cavalo... Naquele momento, comecei a chorar também; assim, fomos passando a Quinta-feira Santa mais dolorosa das nossas vidas...

Meu avô, “tadinho!”; para animá-la, continuou lhe falando muitas coisas bonitas; levara-a devagarzinho, para ver a terra de feijão** que ficava logo à porta da cozinha; falava de um novo e mais bonito jardim que bem ao alcance de seus pés, ele haveria de formar; falava das outras semanas santas que viriam... Ela sempre se lembrando das suas florinhas, dizia que naquele ano, ficariam todas perdidas no campo... E ficaram mesmo, ou antes, naquele ano, não pudemos mesmo, colhê-las.

Logo no Domingo de Páscoa, um terrível vendaval assolou o sítio onde eles moravam - os meus avós - Foi temporão, foi mesmo muito forte; quase que só não jogou ao chão, a residência deles; derriçou o cafezal, arrancou algumas árvores, destruiu a horta de verduras. Por tão grande estrago, ainda mais ficamos tristes... Que triste “Passagem” foi aquela!

Meu avô desanimou de plantar o feijão; a terra já estava preparada; ainda assim, ficou abandonada.

Veja a Providência divina! Aos poucos, logo após toda aquela tormenta, o próprio céu foi sarando a terra, repreendeu os ventos, disciplinou a chuva, e orientou os raios solares; assim, aproximando-se a nova quaresma, a do ano seguinte, renovado tudo já estava, até mesmo, o ânimo da minha vovozinha.

Novamente, estávamos na Semana Santa! E o nosso Calvário florido? Para surpresa e contentamento nossos, o terrível vento da “Passagem” passada, com seus fortes braços, trouxe as sementes das Sempre-vivas e as lançou na terra de feijão; logo, bem de frente dos nossos olhos, começava se formar o nosso novo “Calvário Florido”, assim, minha vovozinha poderia colher as suas florzinhas bem pertinho de sua casa.

 

* - Sempre-viva - Erva, cujas inflorescências secas, são vendidas como adorno, por não murcharem nem perderem a cor, e cujos capítulos são pequenos, solitários, e de coloração muito variada.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.