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TT


Eugene Faon, de si, pode dizer:

 

 

Por dias inúmeros, já vivi a estender minhas mãos ao bem, mas, vez ou outra, com elas, alcancei o mau... Viver outro tanto, se desejasse, faltar-me-ia tempo para fazê-lo, assim, apesar dessa realidade, a pesar a real idade que tenho não estou, logo, ela não haverá de me incomodar, pois desistir de existir, não desejo, uma vez que sempre, hei de estar a ser ao Ser... 

Após iniciar meus primeiros passos, tão logo firmes ficaram minhas mãos, iniciei-me nas primeiras letras; de lá para cá, tenho lido, lido sempre; portanto, por tanto me envolver com as palavras, alguns segredos seus descobri.

− Segredos meus?

Não! Não os seus!

− Se meus não são, hão de ser de quem?

Delas, das palavras naturalmente! A ser assim, saiba: as palavras não nos traem, e trair não se deixam, logo, logo, ou em todo momento, tenha cuidado ao ler qualquer texto meu, pois, se fizer algum comentário, algum segredo seu revelado será...

Ao passar pelo tempo, tempo para ler encontrei, com efeito, conheci mais, mas, não menos ignorei... Ainda assim, fui ganhando força, ao perder ânimo para desprezar as letras; nessa faina continuei até cismar planos de escrever para alguém que possa cismar de ler o que escrevo; em consequência, alguns segredos meus, minhas letras hão revelar...

  

Eugene H. Faon de Assis graduou-se em Medicina e Filosofia, logo, logo mais, ou a qualquer momento, a caminhar por essas ásperas sendas, de suas fendas, ao menos, com mais segurança, poderá se desviar... 

 

Entre os vivos, morto que fui, estou entre poucos...

 

Entre os vivos, morto que fui, estou entre poucos, que do outro mundo, podem falar.

Tantas coisas há, que de lá sei, pois, morto, por tão longo tempo, permaneci.

Entender-me-á algum vivente, que possa dizer: vivo, nem sempre ser, consegui!

 

Éramos muitos, e de ser, não deixamos, pois, mortos sempre há.

Despediam-se, entre si, todos os dias, todos os que partiam.

Os temores, não só nas despedidas, havia, pois, ao lado de cada recém-morto, já nasciam.

 

Entre os mais idosos, alguns, ou até todos, não deixávamos de falar:

- Estou cansado de morrer, não temo o nascimento, quero logo, desta morte, partir!

Ainda assim, para quase todos entre nós quando mortos, nascer, era um grande afligir!

 

Um grande grupo constituído de jovens, falava:

- Por tanto medo que tenho de nascer, quase nasço antes de morrer!

Assim, de lá, são os desiludidos idosos mortos, assim, de lá, são os iludidos jovens antes

de nascer!

 

Havia entre nós, alguns poucos mortos, que tínhamos as consciências mais mortas...

Logo, fazíamos nossas reflexões. Deixo aqui, as que não foram ceifadas quando

alcançamos a vida:

Mas antes, saibam que estas não diminuíam em nós, o desejo da partida...

 

Aqui, no reino da morte, só cultivamos o bem!

Em outra seara, há cultivar mais produtivo que devemos semear?

Se não há, sentido não há ao perder a morte, para a vida encontrar!

 

O que nos reserva o nascimento?

Qual o sentido do nascer?

Por que estamos aqui? Outro lugar, melhor sorte pelo nascimento, pode nos oferecer?

 

Morremos e nascemos apenas uma vez?

Há, verdadeiramente, algo que nos espera após o nascimento?

Sabíamos que bem respondida uma das interrogações, as outras nos trariam algum alento...

 

Ainda assim, uma, ou antes, todas as dúvidas, a uma conclusão a todos, conduziam:

Se certezas há, há no mundo dos mortos; pois, no dos vivos, só dúvidas haverá,

Assim, creia em mim, pois aqui estou e estive lá, então, digo: lá, eterna morte, ninguém terá!

 

PS - O autor por vivo que está, teme a morte; mas, por morto que estarei, já receio temer o nascimento, pois, dúvidas tenho sobre a existência da eterna morte.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.

 

Esta foto que você vê nesta parede,

 

Esta foto que você vê nesta parede, fora de um poeta que ainda está a sonhar.

Pois espaço à vigília, muita vez, não cedeu.  

Por um fugaz e primeiro instante, que a um segundo, não poderia dar o seu lugar,

Aquela foto ganhou vida, e o poeta quase a perdeu.

 

Este retrato é autêntico e recente; não tem retoque,

Pois se o tivesse, para melhorá-lo, nada conseguiria,

Ainda que para tanto, um hábil artista invoque.

Logo, que fique a foto aqui, sem nenhuma avaria.

 

E ele? O poeta, onde estará, os seus sonhos a urdir?

- No passado não ficou, pois este, já não mais existe;

O porvir, não alcançou, pois este, está por vir;

Logo, encontra-se no fugidio presente.

 

Que não nos iludem os retratos! Pois neles, contido, não está um real ente!

Para atá-los ao presente, com vidros e caixilhos, possível não é também.

Assim, com bons olhos, não há quem veja um incauto com o seu olhar ausente,

A deixar de ver que o instante de agora, já está no além;

E ainda, não percebe, que no papel, em uma fração de tempo tangente,

Usando a sua própria imagem, para não mais retornar, esquivou-se alguém.

 

Que prodígio desejam fazer os retratos? 

Querem dar vida à natureza morta que já morta jazia?

Não percebe que o tudo representado pelas fotos,

No passado, se este houvesse, ficaria.

 

O tempo diante das câmaras fotográficas logo se esvaí ao vento.

Tão diminuto é, que para retratar a vida,

Nada mais tem a receber, além de uma diminuta fração de um fugaz momento,

Pois tão logo, se fixa no papel, estará perdida,

Antes mesmo que se apague a luz, do flash que lhe deu alento.

 

Ainda que sejam os retratos muito atraentes,

Que os caixilhos que a eles dão amparo,

Caiam para sempre em desuso, ainda que sejam eficientes;

E em seu lugar, que fique uma simples base, para mais fácil reparo;

Pois com frequência, as velhas fotos devem ceder o seu lugar às recentes.

 

Se assim fosse, de velhas às novas, a dinâmica inversa da vida nasceria.

Com efeito, esta ininterrupta e invertida causa,

À pessoa retratada, um constrangimento contínuo causaria,

Vendo que a brisa do tempo, que a ela, não escusa,

Deixaria na foto mais nova, mais velha a sua marca, que jamais falharia.

 

Logo, sendo mais recente o retrato do poeta, renovado, pode ele desejar,

Mas, a cada vez substituído, melhor não ficaria,

Visto que, melhor sempre há de não ficar,

Pois, mais envelhecido tornar-se-ia.

Assim é o tempo que não se move a rogos, e tudo corrói, e de todos vai zombando,

Ainda que atentas, as vivas matrizes das imagens, não livres dele, vão ficando...

 

Finalmente, um alento há de ter o poeta a lhe inspirar,

Pois na esperança que o tempo, a ele dê ouvido -

Se é que, vez ou outra, às letras, ele possa se inclinar - 

Há de tentar convencê-lo, de que um ou outro texto seu, ainda florido,

Livre de suas garras, por algum tempo, poderá ficar.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.


O pé de Tabaco

 

Há advertências desnecessárias! a ser assim, queira desculpar-me, se se tornar para você, dispensável, esta que se segue entre parênteses:

“Para que melhor compreenda a mensagem encerrada neste pequenino texto, bom seria se você tivesse tido a oportunidade para observar nos alicerces dos velhos casarões - quase sempre abandonados, sobretudo, aqueles que se encontram na zona rural - um quase que infalível pé de Tabaco incrustado entre as pedras que compõem as bases daquelas antigas construções; se assim fosse, ou seja, se você tivesse notado este espécime vegetal neste singular habitat, de imediato, teria lhe ocorrido a seguinte indagação: De onde viera, e por quais meios, a diminuta sementinha que aqui germinou a dar origem a esta viçosa planta? Aos atentos olhos seria natural esta indagação, pois, muita vez, não houvera prática do cultivo do Tabaco, em toda a região que circunda estas casas em ruínas...”

 

(.) À beira de um caminho estava abandonado um velho casarão. De si, nada mais havia, senão escombros a retratar o que fora uma grande casa, agora, com suas paredes em ruínas. Em derredor do vetusto prédio a vida A murchar arrastava-se enquanto erguia-se a morte a consumar o tempo. Tudo à sua volta, dava testemunho da austera eversão dos anos. A sua frente, arbustos decrépitos, com seus galhos arqueados, ralados pelo tempo e açoitados pelo vento, pouco lembravam um jardim, nada recordavam a primavera. O chafariz, ou antes, os destroços de suas colunas, ora afogados na poeira, insistiam em mostrar seus ornatos desfigurados. Escassas árvores senis com suas desfolhadas frondes, não sustentavam ninhos, não abrigavam pássaros, hospedavam cupins corroendo-lhes os galhos faltos de seiva.

No meio de tanta desolação, o alicerce da velha casa, já não tendo quase nada a sustentar, para sustentar um diminuto germe de planta, dispusera de uma de suas muitas frinchas. O minúsculo grão, bem alojado, escondendo-se do sol forte, e ocultando-se do vento, em breve tempo germinou, logo cresceu e não tardou para florir, tornando-se um majestoso “pé de tabaco”.

Onde estava esse insignificante rebento antes de atender ao apelo à vida?

Por que buscara tão impróprio lugar para quebrar sua dormência, aquela ínfima sementinha?

Talvez desejasse sítio mais aprazível para vir à luz?

Não, não teve escolha; tão leve que fora antes de despertar à vida, nada poderia pedir, nada conseguiria exigir; tão somente à mercê do vento, o pequenino embrião, talvez, depois de percorrer uma longa distância, àquela estância fora conduzido. Agora, ainda que ramo vicejante com suas amplas folhas acuminadas e macias, suas pequenas flores de um róseo pálido, não têm perfume, ou antes, exalavam o cheiro da passageira vida que se esvai tal qual o fumo que se perde ao vento.

E que sabedoria tem ele - o vento - ao plantar as sementes de Tabaco* ao pé das taperas?

Do próprio Vento não esperemos nenhuma resposta a esta indagação, uma vez que, muita vez, ele é intempestivo, age às pressas, e em situações frequentes, torna-se até devastador, mas, podemos recorrer à Brisa suave, interrogando-a, pois, sendo esta irmã própria do Vento, ainda que muito serena, haverá de nos atender sem demora.

Antes que ela chegue para nos atender, devo dizer que não concebi este texto, ou antes, a sua concepção poderia ser de qualquer outra pessoa que pudesse também notar os diminutos passos da Mãe Natureza... Pois bem! Então indago:

Que é do autor deste texto?

Se você caro leitor, não me responde, de outro ninguém, não espero resposta; a ser assim, que seja eu mesmo a pessoa que concebera este diminuto texto...

Para se fazer presente, escassos segundos e pequeno espaço consumiu o pequeno parágrafo anterior; ainda assim, já nos esperava a suave Brisa, mas, antes de nos entregar a sua resposta, por maior necessidade, é do seu desejo que saibamos:

 

 “Pelas indagações feitas à natureza, as respostas imediatas estão ao nosso alcance, o que se distende, é o tempo que consumimos com as nossas insensatas perguntas...”

 

* Nicotiana tabacum* é o nome científico do Tabaco; sua semente é minúscula. Veja que há entre parênteses, logo antes do início deste texto, um pequenino ponto de tamanho, cor e forma comuns à semente do tabaco.

 

 

PS - Fico-lhe muito obrigado pela sua visita. Se ler mais, ainda que seja por acaso, caso a menos, não farei da sua atenção.